Algumas diferenças e aproximações teórico-clínicas em Freud e Klein

Por Helton Alves de Lima 1

Melanie Klein foi uma importante psicanalista que deixou como legado uma série de conceitos e teorias originais, além de modificações e invenções quanto ao trabalho clínico.

. A obra de Klein se deu principalmente quando a psicanálise buscava fazer uma interlocução com a infância, estabelecendo-a como âmbito do trabalho clínico. Até então, o que havia eram adaptações do modelo de trabalho com adultos neuróticos na clínica freudiana para o trabalho com crianças, ou ainda a proposição de um modelo educativo/pedagógico capitaneado por Anna Freud, que buscava em sua abordagem educar a criança para conter seus impulsos e não as analisar do ponto de vista da interpretação das formações inconscientes, dos conflitos psíquicos e da transferência, pois acreditava-se que a criança não tinha recursos psíquicos suficientemente bem estabelecidos para lidar com os impulsos inconscientes que emergiriam no trabalho analítico.

Ao observar crianças, Klein percebeu que o inconsciente e a associação livre se apresentavam no brincar, por meio do qual o mundo interno e os conflitos eram encenados, o que dava abertura para a emergência do significado inconsciente presente no conteúdo das brincadeiras, das ações e das falas das crianças, significado esse que se reconstruía, portanto, no e pelo brincar em análise. Na progressão de seu pensamento clínico e teórico, Klein estabeleceu uma especificidade para a clínica da infância: não uma mera transposição da clínica com adultos, muito menos um trabalho educativo e adaptativo - o que provavelmente exigiu de seu pensamento o esforço de revisão e questionamento de postulados até então bem estabelecidos nas escolas psicanalíticas, decorrendo em inovações teóricas e clínicas recebidas, não sem polêmicas e conflitos, pela sociedade psicanalítica.

Um primeiro exemplo desse esforço se dá no âmbito da clínica com crianças pequenas. Klein propôs que a criança pudesse explorar suas emoções dentro do setting através do brincar, incluindo a dimensão negativa da transferência, como o ódio, a hostilidade e a desconfiança, ao considerar a necessária capacidade do analista de suportar tais aspectos transferenciais enquanto condição para sua postura e manejo clínico, o que possibilitaria a criança entrar em contato com suas emoções, seus sentimentos negativos, e assim suportá-los, elaborá-los, aprender a lidar com eles, ao invés de suprimi-los ou reprimi-los.

No curso de seu pensamento teórico, Klein compreendeu que a criança sofria com ansiedades que, se não fossem bem trabalhadas e elaboradas, promoveriam a inibição de seu desenvolvimento emocional e intelectual. Muitos de seus pacientes chegavam ao consultório com sérias perturbações e inibições em seu desenvolvimento e sociabilidade. Para ela, a intensidade dessas angústias refletia formações muito arcaicas do mundo interno da criança, permeado por sentimento de culpa e pelo medo de retaliação aos seus impulsos sádicos que, em fantasia, são vividos como ataques aos objetos. Aqui há a formulação teórica do que seria o desenvolvimento inicial da criança para Klein que, apesar de ter fornecido certa complementaridade aos postulados freudianos, os modificou. Trata-se de ideias que propõem a instalação do conflito edipiano e do superego em momentos muito primitivos da existência do bebê, por volta dos seis meses de idade, e não na fase fálica, como propôs Freud.

            Freud compreendeu a criança a partir de suas observações dos adultos e de suas hipóteses em torno da questão pulsional e da sexualidade. Para o autor, a progressão do desenvolvimento psicossexual se dava mediante a organização libidinal em fases: oral, anal e fálica. Na fase fálica, os conflitos e a rivalidade edípicas são precipitadas na relação da criança com seus progenitores, vistos como objeto do desejo infantil e ação de impedimento à realização desse desejo, e a castração é compreendida como a saída da fase fálica, que possibilita a diluição do Complexo de Édipo e a instalação do Superego, a partir da introjeção de qualidades e ideais da figura castradora por identificação e internalização das normas socioculturais. O Superego freudiano forma parte das instâncias psíquicas descritas na Segunda Tópica, tendo seu aparecimento idealmente por volta dos 5 anos de idade e servindo como instância que pune, cobra o Eu e confere suporte à consciência moral.

Por sua vez, Klein entende que há um Superego arcaico que se forma já no bebê mediante as relações de objeto e ansiedades típicas de uma fase primitiva do Eu na qual o sadismo está em plena vigência – o que corresponde, biologicamente, à necessidade de alimentação via seio (ato de sugar) e, psicologicamente, à instalação de fantasias de gratificação, agressão e retaliação que permeiam a introjeção dos objetos parciais que vão povoar o mundo interno do bebê. A oralidade e a analidade exercem um papel importante em sua teoria: morder, triturar, conter, expulsar, introjetar, destruir etc., passam a funcionar como representantes psíquicos de fantasias inconscientes e fantasias de destruição do objeto considerado mau, o que levam a uma intensa experiência de ansiedade, como o medo de objetos internos ou externos que perseguem, punem, promovem retaliações. Fantasia é mais importante na clínica kleiniana do que as experiências reais (os pais/cuidadores reais da criança), o que possibilita interpretações do mundo interno da criança e da forma como ela experencia e organiza os objetos internalizados, o que vai dar o tom do modo como se relaciona com esses objetos e seu mundo interno.

O Superego em Klein é considerado mais cruel do que o Superego em Freud, por ser um perseguidor arcaico do Eu, resultando em inibições que podem impactar o desenvolvimento emocional e intelectual, já que a intensa pressão que exerce, em fantasia, pode impedir a passagem da identificação para simbolização enquanto índice de amadurecimento psicológico. Esse postulado tem reverberações em sua clínica, na medida em que ao não se furtar de interpretar as formas de transferência negativa e proporcionar setting analítico de maior abertura à expressão emocional e aos conteúdos que se reconstroem no brincar, a postura mais flexível do analista junto a criança permite com que os conteúdos possam ser abordados pela via da elucidação das fantasias persecutórias e pela ação sublimatória que leva à simbolização.

1Aluno do Programa de Formação da Escola Paulista de Psicanálise-EPP.

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