As pulsões de morte do capitão Ahab, de Moby Dick, o clássico de Herman Melville sob a visão da psicanálise

Por Marisa Neves1

Neste artigo buscou-se beber em fontes profundas de leituras clássicas, dentre elas, o clássico Moby Dick, de Herman Melville, de 1851, o autor baseou-se no navio Essex que afundou perseguindo uma  baleia.

 

 

 

O clássico Moby Dick narra a saga de um capitão  e sua tripulação em busca da captura de  um dos maiores monstros que habitaram os mares, a baleia Moby Dick. Na busca desesperada pela cachalote que devorou sua perna em um evento anterior, o personagem se esgota utilizando todas as suas energias psíquicas, monetárias e libidinais para atingir o seu intento. Utilizará para isso, sua tripulação composta de homens destemidos como ele para juntos triunfarem ou se destruírem até atingirem seus intentos, e como as pulsões de morte do capitão Ahab, o personagem de Melville, foi arrastado, obstinadamente, até destruir a baleia branca sem preservar a  própria vida ou  a vida de sua tripulação.

Palavras chave: Moby Dick, Pulsões de morte, cachalote

Introdução 

Sanches, (2018), refere que Spielrein está de acordo com Freud quando este atribui ao princípio de prazer a base de todas as nossas produções psíquicas e a força motriz de nosso Eu consciente e inconsciente. Mas é na maneira de conceber o passado a ser assimilado pelo presente que Spielrein começa a se distanciar de Freud e do princípio de prazer: enquanto, para Freud, o passado remonta a experiências vividas na infância, para ela, “a linha de pensamentos adaptadas ao presente é assimilada no inconsciente às ‘vivências’ anteriores de várias gerações”, ao passado filogenético.

O presente artigo apresenta um personagem do clássico da literatura do século 19 e  pretende  abordar as profundas motivações impulsivas da natureza humana.

Capitão Ahab, o personagem movido pelo ódio atroz pela Mobi Dick,  carrega no mais íntimo de seu  ser todas as motivações para abdicar de todas as maravilhas terrenas, pois teve a perna decepada em um  confronto anterior  com Mobi Dick, vindo a necessitar usar uma prótese adaptada com um osso feito  de cartilagem baleia no lugar da perna.

Ahab, de natureza contemplativa preferia a solidão à companhia do resto da tripulação. Pensa-se o quanto doloroso para ele subir até a proa, então o fazia somente quando sentia em suas narinas o cheiro das algas, ou grito desesperado dos albatrozes denunciando bem além, o monstro do mar.

O navio Pequod se dedicava à caça baleeira, de forma que Moby, estava instaurado na alma de Ahab, e era ela a quem ele buscava cada vez que zarpava em direção ao oceano para a caça.

A tripulação do Pequod vagava na mesma ilusão de seu mestre, buscando a notoriedade de se perder com ele no mesmo  misto de ódio e admiração pela cachalote.

A importância deste trabalho  demonstra o quanto o ser humano pode ser vingativo e mortal contra a própria natureza, seja  na ficção ou na realidade.

As pulsões de morte que conduzem a alma ao aniquilamento quando já não bastam os prazeres e a dor de viver, seja com a perda   de um ente ou  um membro do próprio corpo, nos conduzem como um barco errante à própria destruição.

A brutal solidão de Ahab era uma pulsão destrutiva, Mobi Dick tinha o corpo todo cravejado de arpões, flechas e toda sorte de objetos pontiagudos.

A baleia, angustiada, também lutara por sua vida.

Quando os abutres a percebiam, também sabiam que numa golfada triunfal, ela os devoraria certamente, por isso, de forma inconsciente, também desejavam sua morte.

As pulsões de morte 

Gutiérrez, (2002), refere que a  proposição que o leva a pensar que a pulsão de morte é regida pelo "princípio de Nirvana" ou que este princípio é súdito da pulsão de morte, o que vem a dar no mesmo, porque em ambas as circunstâncias trata-se de considerar que a meta da pulsão de morte é levar a inquietação ou a tarefa da vida para o inorgânico. O que, em vista dessa "aspiração mais universal de tudo o que é vivo a voltar para trás, até o repouso do mundo inorgânico" (Idem, p. 60), implica colocar o pulsional na ordem do vital ou no adaptativo, de acordo com o "modelo metabiológico e metacosmológico presente na especulação de Além do princípio do prazer".1 Para o autor,  este propósito creio que não só é oportuno e legítimo, mas também fundamental, destacar que a tendência à descarga total da quantidade de excitação, ou o chamado "princípio de inércia neuronal" (também definido por Freud como "princípio de Nirvana", como tendência ao desinvestimento absoluto) não rege os destinos da vida psíquica como vida pulsional ou sexual, mas somente os modos de evacuação daquilo que é da autoconservação ou das necessidades que se propõem ao ser vivo com a finalidade de manter-se em vida. Isto é, o modelo de abaixamento da tensão e da homeostase é um modelo exclusivamente instintivo, nada pulsional.

Ahab não se conformara da perda de seu membro, o que comprometera suas funções psíquicas, talvez sexuais, pois o tempo passado junto ao mar já o fazia quase um ermitão que dedicava suas forças restantes para perseguir Mobi Dick até o fim de seus dias. O princípio de prazer há muito já fora abolido, restavam agora o retorno em espiral ao seu estado de não ser.

Sang, (2011), refere que "eu em ruína" é a expressão da subjetividade de pessoas com dificuldade em processar o necessário luto, permanecendo impossibilitados de reorganização subjetiva após vivência traumática, submersos em sua dor e perdidos no vazio de si mesmos. Quando o ego se encontra numa situação de excessivo perigo real, que acredita ser incapaz de superar com suas próprias forças (...) sente-se abandonado por  todas as  forças protetoras e deixa-se morrer. Isto pode acontecer como resposta à experiência traumática da perda de um ser amado, de seu amor, ou de algo que tenha ocupado esse lugar, o que leva o eu a sucumbir ao colapso, de forma dramática e, por vezes, integral. O Eu perde 
bases importante de sustentação emocional. Sobrevive sem razão de existir como se o ser amado tivesse levado consigo sua alma.

O capitão  desfizera seu ego, suas mais profundas considerações já não eram mais uma base protegida para si. A perna, seu órgão vital de   fuga não existia mais, suas forças de auto consolo já estavam enraizadas como algo mais profundo nas camadas psíquicas, a revivência do acontecido fazia , não que ele temesse a baleia, mas que ele a reencontrasse, para assim, destruir a causa de seu infortúnio. Ahab não tem mais um conflito existencial, mas tem um profundo desprezo por si mesmo como homem, falta-lhe a perna, o  que lhe compromete, falicamente, em todas as suas instâncias.  

O eu em ruína

Para Sang, 2011, o sofrimento que acompanha o "Eu em ruína" exige a confiança na segurança oferecida pelo analista e seu setting para que se processe o compartilhamento dessa experiência que humaniza. Por quê? Na perspectiva kleiniana a angústia predominante é pela sobrevivência do ego, resultado da ação da pulsão de morte que o submete à influência impiedosa do superego arcaico e dos ideais que ele contém. Dessa maneira, é impedido o reconhecimento do objeto como separado do ego, em relação ao qual é sentido tanto ódio quanto amor, já que na vivência da angústia pela sobrevivência do ego, este se apega ao objeto parcial idealizado que lhe garante segurança de sobreviver. Na melancolia, o superego se torna uma espécie de concentração da pulsão de morte.

A própria destruição, sempre será uma abdicação de algo, o capitão renuncia ao que vem depois, ele se encontra apartado de suas capacidades, a angústia da alma não permite auto piedade, mas arrasta o sujeito ao desmoronamento interior e psíquico. O superego não é capaz de interferir na auto destruição, por vezes se tornará neutro, aguardando uma reação instintiva do próprio ego, porém, quando não encontra um subterfúgio nas bases do eu, este também se tornará inativo por natureza.

A perda de interesse pelo mundo

Para Alves et all, (2012) acentua que as características do luto e da melancolia são descritas: um profundo desânimo, perda do interesse pelo mundo externo, inibição da atividade em geral, incapacidade de amar. A diminuição da auto-estima, acompanhada de intensas autoacusações, podendo culminar até mesmo numa expectativa delirante de punição, é considerada uma característica exclusiva da melancolia. Além disso, o objeto perdido do melancólico é mais idealizado que o do luto, sendo que, na melancolia, estamos lidando com uma perda de objeto que pode ser inconsciente, enquanto no luto esta perda é totalmente consciente. A ambivalência em relação ao objeto perdido é outro aspecto fundamental que diferencia os dois quadros, sendo muito intensa nos melancólicos, que se esquivam dela, voltando contra si a hostilidade que sentiam contra o objeto.

Ahab desejava pôr um fim ao seu sofrimento, pouco pensara na família venturosa de outrora que deixara para traz, substituíra- a por seu membro ausente. Sua hora sagrada seria a hora em que os albatrozes anunciassem a cachalote destruidora e voraz a lhe afrontar, ele tinha uma tripulação inteira ao seu comando de forma que não retornariam à terra firme; também se destruiriam todos em idolatria ao capitão que vira a morte de frente em outros tempos; mas também, seriam arrastados até a morte com ela, a Moby Dick. A destruição do ego, em sintonia com os instintos impulsivos de destruição, são talvez, o último fio de ligação do sujeito com a vida. Moby Dick lhe deixara a sequela mortal da perda de um membro, que pode ser tão dolorido como a perda de um ente querido. Nos dois casos, a melancolia é como uma sombra, que tem saudades não de alguém que partiu, mas do membro ausente, que não está mais lá.

As pulsões de vida desativadas de Ahab

lourenço, (2009) , menciona que  vetores da pulsão de morte levam à descarga total e imediata dos estímulos; enquanto outro conjunto de pulsões atua na direção das ligações psíquicas, exigidas para a sustentação da vida. Isto é, esse conjunto de pulsões busca impedir que o organismo morra antes do tempo. Por isso tais pulsões, nas quais Freud inclusive encontra a força da sexualidade, são agora denominadas “pulsões de vida”.

Ahab já abdicara de suas pulsões de vida, suas forças pulsionais agora estariam em pleno acordo com as forças destrutivas contra o próprio ego. A sexualidade agora, era para Ahab, um conjunto de sintomas angustiantes de um desejo ausente, que desaparecia com a dor da pele contra o osso desconfortável de cartilagem de baleia, material da prótese que substituía sua perna decepada. Esse sofrimento também alimentava o ódio contra o crustáceo, restando-lhe o desprazer em escala muito maior do que momentos exuberantes e contemplativos apreciando o mar na infinita beleza, não havia espaço na alma apequenada que já se rendera à inconsciente perversidade da alma humana, pois a dor também anula a capacidade de desejo.

Mendlowicz, (2000) observa que, permanece fixo, congelado, dentro do ego. Nessa perspectiva, os autores recuperam a introjeção
como um mecanismo enriquecedor e expansor dos interesses do ego, dando a ele uma importância
fundamental no processo de luto.

Para o capitão do Pequod, o sofrimento traumático que reveste o ego foi decisivo no seu processo de perda, pois aniquilou as fundamentações necessárias, impedindo um processo de cura e aceitação de sua condição.

Silva, ( 2009), refere que e a melancolia nos desterra para a solidão do ermo, não deixa de ir conosco a vaidade; e então somos como a ave desgraçada, que por mais que fuja do lugar em que recebeu o golpe, sempre leva no peito atravessada a seta: nunca podemos fugir de nós; para donde quer que vamos imos com nossos mesmos desvarios. 

Para Lannes, (2012), nunca é demais lembrar que o desejo é sem objeto: existe e circula no espaço entre necessidade e demanda, onde constitui um objeto. Resulta da superposição de duas faltas. Da mesma forma, espaço potencial é sem objeto. Nele, diz Adam Phillips, "o desejo se cristaliza", resulta da superposição de duas áreas de jogo. O objeto é constituído, feito, para impedir o vazio, a descontinuidade.

Concluindo esse ensaio psicanalítico sobre o processo doloroso de perda da qual fora vítima o fictício capitão do navio baleeiro, pensamos que talvez esse processo poderia ter sido menos doloroso para o personagem, caso o autor não trouxesse impregnado em sua própria alma e na imaginação,  processos psíquicos enraizados e  latentes inerente de todo o ser.

O capitão Ahab, conduziu toda a tripulação do Pequod à morte, somente um marujo se salvara no embate com a terrível baleia branca.

Os personagens enfrentaram suas fraquezas pulsionais e nenhum deles  resistiu às tentações inconscientes das forças opressoras que regem os princípios de prazer, todos foram arrastados para o fundo do oceano com a cachalote .

A função da psicanálise talvez seja encontrar uma resposta aceitável para explicar que o ser humano é vulnerável ao amor e à morte, dois prazeres pelo qual o sujeito abdica das vontades, preferindo um fim aterrador à uma vida vazia de significado.

Referências: 
1 Alves, Railda Fernandes, Melo, Myriam de Oliveira, Andrade, Samkya Fernandes de Oliveira, Fernandes, Thiago Silva, Gonçalves, Deize Lima, & Freire, Adriano Araújo. (2012). Qualidade de vida em pacientes oncológicos na assistência em casas de apoio. Aletheia, (38-39), 39-54. Recuperado em 28 de abril de 2020, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-03942012000200004

2 Gutiérrez-Terrazas, José. (2002). O conceito de pulsão de morte na obra de FreudÁgora: Estudos em Teoria Psicanalítica5(1), 91-100. https://doi.org/10.1590/S1516-14982002000100007

3 Lannes, Carlos. (2012). Dor de existir: o objeto perdido para sempre. Cadernos de psicanálise (Rio de Janeiro)34(26), 13-24. Recuperado em 28 de abril de 2020, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-62952012000100002&lng=pt&tlng=pt

4 Lourenço, Lara Cristina d'Avila. (2009). A pulsão de morte e a gênese da angústia. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica12(1), 101-117. https://doi.org/10.1590/S1516-14982009000100007

5  Mendlowicz, Eliane. (2000). O luto e seus destinos. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica3(2), 87-96. https://doi.org/10.1590/S1516-14982000000200005

6 Sang, Ernesto René. (2011). O eu em ruína: perda e falência psíquica. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental14(2), 390-395. https://doi.org/10.1590/S1415-47142011000200015

7 Sanches, Aline. (2018). O instinto de morte e o "além do princípio do prazer": um diálogo entre Sabina Spielrein e Gilles Deleuze. Natureza humana 20(1), 98-114. Recuperado em 29 de abril de 2020, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302018000100007&lng=pt&tlng=pt.

8 Silva, Paulo José Carvalho da. (2009). A dor da alma nas reflexões sobre a vaidade de Matias Aires (1952). Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental12(2), 366-378. https://doi.org/10.1590/S1415-47142009000200010 

1Graduanda em psicologia pela Universidade Federal de Rio Grande-FURG

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