O Caso Dora: Ponto Cego

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Por Fernanda Borges Hisaba1

O ano é 1900.
Freud havia migrado definitivamente para o campo da psicologia e estava sedimentando e expandindo seus conhecimentos; tinha grandes expectativas a respeito da publicação de sua “Obra do Século”, a Interpretação dos Sonhos. Trazia angústias também, remanescentes da rejeição pública e contundente que experimentara quando da apresentação de sua Teoria da Sedução para seu ilustrado público. Suas ideias inicialmente causaram repudia, enquanto a base de sua teoria não se sustentava. Ele precisou rever a aplicabilidade de suas teorias e, posteriormente, de sua técnica.

Quando Freud atende Dora, sua técnica necessitava de reparos, de aprimoramento; carecia de experiência de vida.  Suas convicções, no entanto, estavam bem estabelecidas. Dora não somente se encaixava nelas, como trazia um material rico cuja interpretação poderia ser facilmente demonstrável, com grande chance de sucesso terapêutico e acadêmico.

Freud se pautava em seus conhecimentos teóricos, observações de seus pacientes, trabalhava com hipóteses e tornava-se em objeto de suas próprias indagações. Em busca do inconsciente descobriu e nos trouxe os sonhos, e os relacionou em sua origem com os sintomas de seus doentes, e vislumbrou então uma forma de utilizar o material capturado durante a interpretações dos sonhos do paciente para pensar seu sofrimento, desvendar suas resistências e comunica-las ao paciente. Vislumbrou outro caminho para a tão arduamente aspirada cura; queria aplica-lo.

Dora, uma adolescente confiada pelo pai aos cuidados de Freud, dispunha de todo o material que povoava a mente do analista naquele momento. Trazia sonhos ao setting e trazia sintomas histéricos, consistia em oportunidade para que Freud pudesse mais uma vez comprovar suas teorias.

Freud se ocupou em desvendar os mistérios de Dora, guiado por suas demandas pessoais. Falhou ao não disponibilizar a escuta analítica como posteriormente postula.

A atenção equiflutuante e livre de expectativas, a escuta sem restrições, não seriam seu norte nesse caso.

Falhou em não se atentar ao fato de que o momento psíquico do indivíduo em tratamento pode não ser favorável à exposição àquele material provindo do Inconsciente e apontado pelo médico, que irá então falhar em seu intuito pois seus apontamentos não serão adequadamente percebidos e utilizados pelo paciente, e que esta exposição abrupta e deficiente em delicadeza do conteúdo que deveria estar reprimido não é livre de consequências.

Freud, entusiasmado e mantendo como principal foco a análise dos sonhos trazidos por Dora, cria hábeis interpretações, possibilidades dotadas de atributos de material reprimido que poderiam realmente estar corretos já que coerentes, mas interpretações às quais o doente se manifesta de forma contrária, podendo corresponder a uma resistência em aceitar a existência de tal conteúdo ideativo; para Freud, esta seria a única possibilidade, pois postula como dogmática a interpretação do analista, sempre correta, independente da reação do paciente diante dela.  

Ele percebe a existência de um desejo projetado pela paciente em sua figura, e apressa-se em dizer que não se deve ceder a esse desejo. Discorre sobre a necessidade da análise em transcorrer em abstinência, porém não se abstém dos sentimentos por Dora despertados em sua pessoa. Não se abstém de sua hostilidade e se ressente do fato de sua paciente não acolher como verdades suas interpretações.

De fato, percebe a existência da transferência. Não percebe talvez o uso que poderia fazer desta descoberta. *Após 11 semanas do início do tratamento, Dora o interrompe sem maiores explicações.

De sua fala – “quem como eu desperta os demônios mais malignos com que se pode lutar, demônios que habitam não totalmente domesticados no íntimo humano, deve estar preparado para sair ferido nessa contenda” – é possível inferir em Freud uma percepção de que sentimentos serão despertados em seus pacientes, e estes serão vividos na figura do analista, que necessariamente será “afetado” nesse processo, e desenvolverá o que ele chamou depois de contratransferência. Confessa a Ernest Jones “há uma grande dificuldade, se não uma impossibilidade, em reconhecer os verdadeiros processos psíquicos da própria pessoa”.

Posteriormente, Freud passa a se dedicar a sistematizar e normatizar, de certa forma, a prática analítica. Passa a publicar, nos anos seguintes, suas recomendações aos seus discípulos.

O confronto das ideias desenvolvidas nestes pequenos manuais de conduta com o desenvolvimento da análise de Dora nos faz perceber o quão pouco uso Freud fizera até aquele momento de suas próprias regras.

É possível que a inexperiência no manejo desta recém-desenvolvida técnica tenha ocasionado algumas dificuldades. É factível que Freud tenha apreendido algo no manejo da clínica através dessa vivência, e que tenha gerado material que posteriormente fora inserido em suas sistematizações. O provável, no entanto, é que as expectativas de cura, as ambições profissionais, a obsessão em parecer impecável diante de seus colegas, tenham se tornado o foco principal deste tratamento, mobilizando Freud em direção contrária a seus próprios apontamentos, funcionando como um grande ponto cego na condução deste processo.  

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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