A escuta psicanalítica e um lugar para a dor

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Por Alba Tengnom1

“Suave é a dor que fala. A grande dor é silenciosa.”
(Sêneca) 

O sofrimento psíquico sempre esteve, para mim, relacionado à compreensão intelectual. Conhecer minhas próprias dores e as de outros dependia inteiramente de racionalização e interpretação a partir de teorias e técnicas consolidadas.

 

As emoções pareciam até mesmo estar ausentes desse processo de conhecimento. Em minhas idealizações, o tratamento psicanalítico tinha como objetivo central a compreensão de perturbações psíquicas apoiada nos campos teórico e técnico da Psicanálise, que parecia oferecer um caminho seguro para atingir essa compreensão.

Ao iniciar o Curso de Formação em Psicanálise da EPP, várias de minhas preconcepções foram questionadas. A ideia de “cura” foi aos poucos desconstruída para abrir espaço para o conceito de tratamento psicanalítico em intensos debates nos encontros de teoria e técnica, em que meus colegas apresentaram uma leitura que tendia à pluralidade de destinos do tratamento clínico.

Em nossos encontros sempre muito interativos, em que não faltaram boas ideias e uma intensa troca de experiências e impressões, compreendi que um dos objetivos fundamentais do tratamento psicanalítico é fazer falar o sofrimento inconsciente que carregamos na forma do que ficou emudecido, sem expressão, sem representação e, desse modo, aproximar-se do sofrimento através do diálogo interno e promover uma alteração na consciência por intermédio do remanejamento de investimentos libidinais.

O tratamento psicanalítico propõe também restaurar a capacidade de amar e trabalhar, manter relações afetivas e sexuais de qualidade, reconhecer as próprias limitações, sem exigir do outro o que ele ou ela não pode oferecer, e não oferecer ao outro o que não se é capaz de dar. O desenvolvimento da capacidade de sublimar, redirecionando as pulsões, além de capacitar para a vida, diante da aceitação e distinção da realidade e do possível são horizontes do tratamento psicanalítico. Um caminho que se abre para o desenvolvimento de capacidades cognitivas necessárias para exercer uma profissão, viver de modo harmonioso, lutar por interesses e ideais, viver com mais intensidade. A Psicanálise busca ainda ampliar a inteligibilidade e a consciência sobre nossos problemas e os dos outros, bem como renomear experiências, permitindo assumir como sujeitos a vivência de sentimentos e ressignificar experiências emocionais. Seria como retomar parte da nossa narrativa de vida tendo agora um novo fio condutor que permite observar e dar sentido a essas experiências.

O reconhecimento de forças dinâmicas inconscientes que nos impedem de integrar nossos afetos e conhecer sua profundidade, também chamadas de defesas, que militam contra a evolução emocional do sujeito, e a própria dissolução dessas forças, são as tarefas mais importantes do desenvolvimento psíquico almejado pelo tratamento psicanalítico. Para que isso tenha a chance de acontecer, o cuidado volta-se para a recuperação de conexões perdidas ou bloqueadas entre as diversas redes afetivas que se organizaram durante a vida, criando um ambiente interno para o aprofundamento emocional contínuo. Somos estimulados a nos responsabilizar pelo que somos, comprometendo-nos com nossas relações emocionais.

A Psicanálise contemporânea preocupa-se sobretudo com o modo como pensamos, em vez de somente interpretar o conteúdo dos pensamentos em si mesmos. O propósito fundamental aqui é nos fazer evoluir de um estado psíquico em que não conhecemos muito bem nossos sentimentos e comportamentos e somos tomados por eles, para outro estado em que nos tornamos capazes de contextualizá-los, entendendo quais são e como estão relacionados. Ser capaz de contextualizar a raiva, por exemplo, e entender em que situação ela ocorre e que outros sentimentos estão envolvidos exige mais do que coletar fatos passados, torna necessário observar padrões afetivos e atitudes e refletir sobre eles.

Por meio da escuta atenta e consciente do psicanalista busca-se criar um ambiente que acolha e permita a investigação, a elaboração e a superação de resistências com foco na reconstrução de ligações afetivas importantes necessárias para o aprofundamento da vida emocional do sujeito.

No entanto, como sugere a epígrafe de Sêneca, nem tudo o que é doloroso ou patogênico pode ser lembrado ou expresso em palavras. A dimensão inconsciente do sofrimento torna-se inaudível por esconder-se na repetição de comportamentos defensivos, na superficialização de emoções, na negação de afetos, no silêncio.

A escuta como instrumento clínico tornou-se cada vez mais complexa, à medida que teoria e técnica agregaram novos conceitos e desdobramentos. O paciente precisa ser ouvido de diversas maneiras em sua expressão e naquilo que omite. A partir de ideias inovadoras de Melanie Klein, como identificação projetiva e posição que, ao mesmo tempo, consideram e revolucionam as propostas freudianas de escuta, passou-se também a ouvir simultaneamente angústias, defesas e relações de objeto. Outra evolução importante na escuta psicanalítica ocorre com as ideias de Bion sobre ouvir efetivamente o paciente a partir da contratransferência como instrumento clínico, ainda que isso ocorra em uma dimensão inconsciente.

“Os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro o que me impressiona” nos diz Clarice Lispector em A Hora da Estrela. A escuta poética, que desde sempre parece ter estendido uma ponte entre a Psicanálise e o acolhimento da fala do sujeito, está presente na forma como psicanalista e paciente escutam a si mesmos. A linguagem poética, carregada de insólitas e inesperadas correlações entre imagens, sons e ideias restitui ao leitor, psicanalista e paciente, um mundo de afetos e experiências, estranhamento e beleza. O encontro do intelecto e das emoções do poeta com o mundo reverbera o que há de estrangeiro e familiar em todos nós. Por meio da escuta do mundo na linguagem altamente simbólica da poesia e da arte em geral é possível ouvir as ressonâncias de nosso próprio sofrimento e ressignificar a maneira como expressamos vontades e sentimentos. A poesia em seu sentido mais amplo pode transformar a visão de mundo ao ser escutada cuidadosamente em suas estratégias de linguagem, rastros deixados pelo autor que traduzem relações de afeto em palavras.

Atualmente, reconhece-se o valor e as limitações de diversas estratégias de escuta psicanalítica. Há na interpretação um pouco da escuta de sonhos, trilhas associativas na associação livre, estados afetivos, atitudes e comportamentos.

A Psicanálise destina-se a nomear o que somos, e somos muitas coisas em permanente transformação. Conhecer e acolher nossos sentimentos mais profundos parece ser para mim, neste momento, após um diálogo que promete ser permanente com meus colegas, a proposta fundamental do tratamento psicanalítico e um caminho para pensar e desenvolver nossas relações de intimidade, criando em nós uma espécie de espaço interno maior, um lugar em que nossas dores tenham voz e sejam reconhecidas, de algum modo, como parte do que nos faz humanos.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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