Abuso sexual: um perigo próximo

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Por Joseval Campos dos Santos1

Nosso modelo atual de sociedade com relações mais abertas, onde os diálogos são mais possíveis vem aos poucos trazendo à tona a ponta do iceberg já conhecido em sua superfície e que agora começa a se aprofundar – abuso sexual de crianças e adolescentes. As relações familiares menos autoritárias, assim como os mecanismos de proteção legal e os centros de acolhimento, são instrumentos que de alguma forma encorajam os atores desse drama psíquico.

Mesmo sabendo que esses casos são apenas um simulacro da amplitude do problema, já tem servido para fomentar discussões, definir políticas e abrir canais de discussões na sociedade.

O abuso sexual vai muito além do conceito socialmente visível, pois todo ato invasivo não autorizado, seja objetivo ou subjetivo pode ser considerado como abuso, especialmente por personagens mais maduros e com maior poder físico e psicológico. Geralmente protegemos e alertamos crianças e adolescentes sobre a representação de perigo dos estranhos. Mas “baixamos a guarda” com pessoas do convívio familiar que supostamente mantém relações de segurança e proteção. Justamente ai configura-se o lugar do perigo, pois o abusador precisa de proximidade, confiança, tempo e oportunidade para agir livremente. Esses ingredientes dificultam a descoberta espontânea, a denúncia do abusado e a crença por partes de pais e responsáveis.

A dinâmica traumática do abuso, em virtude do poder do agressor, invasivo e ameaçador, termina por vezes desenvolvendo na criança um importante déficit de poder, ou uma visão distorcida do mesmo. O poder ameaçador de figuras que deveriam oferecer proteção e afeto termina formatando personalidades difusas que flertam corriqueiramente com a patologia.

Em virtude da imaturidade, o psiquismo quase sempre transborda para caminhos devastadores, dada a incapacidade em lidar adequadamente com esse contingente sexual, invadido de forma inadequada e antecipada. É relevante frisar, que o abuso sexual firma-se como um dos acontecimentos mais horrendos para o psiquismo infanto-juvenil em virtude de envolver figuras de proximidade e muitas vezes de vínculos afetivos.

A criança ou adolescente abusado, vale-se das mais variadas estratégias de defesa, buscando minimizar as dores psíquicas, esses mecanismos num primeiro momento em que o psiquismo ainda encontra-se imaturo ou fragilizado possuem um papel importante na manutenção de “áreas sadias” que futuramente podem servir de suporte para vencer os traumas. No entanto, se os traumas não forem analisados adequadamente, o mecanismo de defesa improvisado para proteger o psiquismo pode criar raízes permanentes, indo de uma fantasia protetora provisória para o campo da realidade.

A fantasia, portanto,  exerce um papel fundamental nos traumas, especialmente de abuso sexual, pois protege o psiquismo de forma que ele não transborde, o que levaria o indivíduo à psicose. Contudo, quando as fantasias se instalam além do tempo necessário, invadindo a realidade e passando a ser confundida com ela podem também suprimir do indivíduo a capacidade de distinção entre o real e o imaginário. Bergeret (1998)

A psicanálise mostra-se como ferramenta eficiente na interpretação desses fenômenos psíquicos, podendo servir como suporte para que o indivíduo abusado sexualmente possa elaborar adequadamente esses conteúdos, abrindo a possibilidade de ressignificação dos acontecimentos traumáticos, ou seja, uma simbolização tardia, mas que permite tocar a vida com certo equilíbrio.

Para Guiter (2000) a experiência traumática do abuso sexual associa-se, portanto, a dificuldades graves nas relações primárias ou vinculares, às experiências concretas de vivências altamente ansiogênicas, ao estabelecimento de um funcionamento psíquico desorganizado, resultando em falhas estruturais importantes.

Estudos psicanalíticos das mais variadas linhas, apontam que o abuso sexual agride à auto-estima da criança e do adolescente, provocando rebaixamento da visão de si mesma e de suas capacidades, aprofundando, no caso das meninas, a dor da castração e ampliando a angústia de castração no caso dos meninos, que podem no lugar da dor do abuso, preencher com a fantasia de que são “efetivamente” castrados, assumindo uma posição passiva frente à sexualidade, em virtude da forma inadequada como foram introduzidos na vida sexual. No caso das meninas podem construir uma imagem de pênis mal, que agride e causa dor.

Dentro dessa dinâmica o indivíduo pode desenvolver diversas estratégias psíquicas de defesa, visando minimizar as dores do abuso. As possibilidades são diversas e variadas, quase sempre marcadas por forte baixa-estima, submissão, exercício de poder exagerado ou negação da sexualidade, promiscuidade em busca do prazer/dor original, personalidade diversa, afeminada no caso dos meninos e masculinizada no caso das meninas, sem que signifique uma homossexualidade em primeiro plano.

O abuso em todas as suas formas é um encontro perverso entre um psiquismo maduro e um psiquismo frágil ainda em formação, ou seja, uma experiência dramática e injusta. Nesse sentido, a criança ou adolescente ainda não possui maturidade para entender os acontecimentos, não possui recurso para simbolizar os fatos, provocando um turbilhão de sensações, que transitam entre a culpa e o prazer.

O abusado experimenta ao longo da vida uma miscelânea de sentimentos contraditórios e por isso, marcado por muitas ansiedades. Sua vida afetiva dificilmente será tranqüila e “linear”, pois as ansiedades despertadas pelo trauma provocam forte instabilidade de sentimentos. O abuso sexual provoca uma fratura no psiquismo do abusado em função da incapacidade do ego de organizar a experiência traumática. O psiquismo fraturado fica instável, numa sensação constante de incompletude crônica.

A dualidade entre dor e prazer na cena do abuso, deixa uma tatuagem no psiquismo da vítima, despertando no indivíduo uma tempestade de sentimentos contraditórios que transitam entre o certo e errado, bem ou mal, prazer e desprazer. Essas emoções são perturbadores do psiquismo imaturo e se não forem bem equacionadas na análise deixarão o abusado num limbo de dor e sofrimento.  

É muito importante que se tenha em mente que o abusador não possui cara, uma roupa específica, um jeito peculiar, são figuras de psiquismo obscuro que gravitam na órbita de “segurança” das famílias numa relação de vínculo e confiança. Eles agem no intervalo da falsa proteção e alongam o abuso mediante o uso do poder e da ameaça, mantendo a vítima numa condição de cárcere psicológico e seqüestro emocional, dificultando ou impossibilidade a saída do cativeiro. Devemos ampliar o espaço da escuta, pois um grito silencioso pode está à nossa volta buscando um ouvido sensível e um olhar de compreensão.
 

Guiter, J. B. (2000). Traumas precoces. Abuso sexual, daño en la constitución del psiquismo infantil. Revista de Psicoanálisis57, 405- 432.

Bergeret, J. (1998). A personalidade normal e patológica. 3ª ed. Porto Alegre: ArTmed.


¹Aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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