Psicanálise e Zen Budismo

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Por Alê Esclapes1

O trabalho desenvolvido por Bion pode ser dividido em três ou quatro fazes, variando de acordo com o estudioso. Em uma primeira fase Bion vai de debruçar sobre as questões kleinianas de identificação projetiva e o pensamento esquizofrênico.

Em uma segunda fase Bion mantém o seu objeto de estudo, mas muda o seu enfoque, se tornando mais “bioniano” que “kleiniano”, ainda que todos os elementos desse possam ser vislumbrados sem nenhuma dificuldade naquele. Uma tentativa de sistematização quase que matemática (o que lembra Lacan) da psicanálise é tentada por Bion. 

Numa terceira fase, mais amadurecida e já ciente que essa tentativa não teria o sucesso pretendido, Bion vai abandonando lentamente o modelo matemático.

Em uma quarta fase Bion se mostra mais “místico”, mais “holístico” em suas proposições. Não se deve aqui de forma alguma confundir o termo místico com modas e tendências da “nova era”. Bion vai encontrar algumas respostas a suas perguntas em São João da Cruz e Santa Edith Stein. Outro pensamento que sempre permeou o seu trabalho foi o pensamento Zen Budista, sendo nesse último que pretendo escrever, ou melhor dizendo, falar sobre onde podemos encontrar elementos Zen Budistas no pensamento de Bion.

Os limites desses artigos se encontram primeiramente na não especialização do autor sobre Zen Budismo, tendo apenas estudos iniciais sobre o tema. O segundo se trata de identificar o que Bion queria dizer (sobre psicanálise) em sua última fase, que por ser mística, é motivo de diversas interpretações. Os artigos, portanto, são no máximo um exercício sobre as obras de Bion e do Zen Budismo, e não pretendem ser muito mais que isso.

Nessa série de artigos será tratado um único texto do Zen Budismo – os preceitos budistas de acordo com Bodidharma ou Bodaidaruma, considerado o primeiro grande mestre do Zen budismo. Esse texto trata do juramento que o praticante faz para se tornar um “seguidor” oficial do Zen Budismo, ou “preceituado”. Em uma cerimônia especifica o praticante faz um juramento e recebe o seu nome budista. Maiores informações podem ser conseguidas no site do Zendo Brasil – www.zendobrasil.com.br .

Segue abaixo o texto a ser trabalhado nessa série de artigos:

Preceitos budistas de acordo com a escola Soto Zen do Japão.

“Receber é transmitir,
Transmitir é despertar,
E despertar para a mente Buda,
É o verdadeiro Jukai.”

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
No eterno Darma, não surgir o ponto de vista da extinção,
É chamado não matar.

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
No Darma que não pode ser apanhado, não surgir o pensamento de ganho,
É chamado não roubar.

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
No Darma do não-apego, não surgir o ponto de vista do apego,
É chamado não ser ganancioso.

A natureza própria inconcebivelmente  maravilhosa,
No inexplicável Darma, não expor uma palavra,
É chamado não mentir.

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
No Darma intrinsecamente puro, não surgir ignorância,
É o chamado não ficar intoxicado.

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
No Darma sem faltas, não falar sobre erros e faltas,
É não falar sobre erros e faltas.

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
No Darma da equinimidade, não falar do eu e dos outros,
É chamado de não se rebaixar nem se elevar aos outros.

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
No Darma genuíno que está em toda a parte, não pegar uma coisa,
É chamado de não ser avarento.

A natureza própria inconcebivelmente  maravilhosa,
No Darma do não-eu, não conceber uma realidade do eu,
É chamado de não ser dominado pela raiva.

A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,
Não surgir a distinção de Budas e dos seres,
É chamado não falar mal dos Três Tesouros.

Bodaidaruma Daiossho
(Tradução do texto em inglês de Maezumi Roshi pela Moja Coen Roshi).

1Psicanalista, Escritor, Professor e Diretor da EPP e do Instituto Sándor Ferenczi de Psicanálise-ISF.

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