Um olhar para a violência presente na sociedade

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Por Pe. Ernani Maia dos Reis¹ 

Algumas palestras tiveram, como pano de fundo, um dos acontecimentos mais perversos da história humana: o holocausto dos judeus representado em Auschwitz. Ora, “a violência como sintoma da contemporaneidade” está evidente nesse massacre, pondo fim ao sonho de que, em tempos de tantos progressos, a ciência poderia elevar o patamar moral e ético da humanidade.

Auschwitz foi uma fábrica de destruição humana, transformando homens em não-homens. Perversa, justamente por transformar o ser humano em objeto e, este, facilmente descartável. Sem dúvidas, essa perversão que transforma o outro em objeto é uma grande “parte obscura de nós mesmos”.  Existe um convite à compreensão da perversão, já que o sofrimento não compreendido é pior que o sofrimento em si; acabar com ela é uma ilusão.

Freud busca as razões do “mal estar na civilização” devido à agressividade (violência), no fato de o ser humano nascer egoísta, perverso e polimorfo. Ele afirma que o ser humano não consegue manter seu impulso agressivo em repressão, o que evidencia e manifesta sua faceta destrutiva, fazendo-nos conviver com uma violência sem sentido, resultado do retorno da agressividade reprimida que retorna sem nenhum sentido, controle ou representação. No entanto, desculpar-se no fato de tais forças serem inconscientes e, assim, não assumir a própria responsabilidade, é um erro. Freud deixa claro que cada inconsciente com seus processos mentais é de cada pessoa e, por isso, cada um deve se responsabilizar pelo seu próprio inconsciente.

Freud afirma que a agressividade é inata, o que nos deixa uma importante questão: se assim é, o que estamos fazendo com ela? Necessitando ter suas necessidades satisfeitas, mas também querendo ver seus desejos realizados, o ser humano se vê confrontado por obstáculos e sofrimentos. Contornar isso obriga-o a viver em sociedade. No entanto, isso tem um custo: o controle da agressividade, o sacrifício parcial da liberdade, o atraso ou a não realização de certos desejos, etc. Tudo isso gera agressividade e, portanto, o controle da mesma torna-se um grande desafio social. Juntamente a estes fatores externos, temos o superego, como fator interno, que desencadeia a culpa, que se de um lado inibe a agressividade, de outro produz mais conflitos. Junta-se a isso a possibilidade de se ter uma má consciência.  

A busca de respostas obriga-nos a olhar para as causas da perversão: uma tentativa de encontrar sentido para tanto sofrimento presente no mundo: tendência à “terceirização” do mal pessoal culpando os outros, o preconceito – que impõe o desejo pessoal sobre o outro -, a violência silenciosa. Na raiz está uma relação ruim com a maternagem e uma defesa contra o vazio, o desconhecido, a ameaça por coisas incontroláveis, defesas inconscientes.

Penso que, hoje, a tentativa de calar o holocausto – tê-lo como um acontecimento fantasioso – é um sinal claro da incapacidade do ser humano em lidar com sua própria agressividade. O holocausto, que foi uma subjetivação do outro, foi, sem dúvida um acontecimento ilógico, irracional, anti-humano, diabólico. Sem via de dúvidas, um ponto interessante é a não reação judaica, dentro dos campos, porque eles eram constituídos de tal forma que, no fim, a morte fosse desejada. Portanto, era um caminho de total morte da esperança através da garantia de que, ali, seria implantado um “inferno vivo”, arrancando de todos qualquer pequena aresta de dignidade humana. Certamente, pois, o tema-realidade do holocausto expressa a violência gratuita do ser humano-vítima não mais visto como humano, e dos algozes completamente desumanizados por um “ódio sem causa”, sem motivação que justificasse atitude tão desprovida de qualquer propósito, mas tão somente por ódio e violência, portanto esvaziada de qualquer sentido.

O fato é que precisamos “sobreviver à desumanização”, cujo “modelo” está em Auschwitz, lugar onde os seres humanos foram reduzidos a animais através de seu “método” de desumanização. No entanto, além de Auschwitz a desumanização continua na sociedade: a solidariedade substituída pelo egoísmo, condenações injustas, injustiças sociais, subserviência como único meio de sobrevivência, capitalismo, competição, etc. A ausência de sentido para tatos sofrimentos, coloca o ser humano num sofrimento ainda maior: a perda da esperança.

Uma das palestras aponta a necessidade de “trabalhar as causas da violência”. Quais são elas? – levando-se em conta que os desafios continuam num mundo onde as mudanças ocorrem a passos largos. De um lado o progresso em todos os níveis; de outro, no entanto, o crescimento vertiginoso da violência mais ampla e multifacetária. É inegável que o Brasil é “exemplo” disso. Causas? Múltiplas: impunidade, ausência de princípios básicos (amor, carinho, família, religião, educação), a inversão de valores, etc. No bojo o desequilíbrio emocional.

É apontado o caminho da educação (Educação e violência), usando como exemplo o trabalho realizado na Fundação Casa, dedicada à recuperação de menores infratores. No entanto, falar de educar é muito complexo e desafiante, exigindo sabedoria e doação. Tenta-se encontrar explicação na pobreza que gera o crime, uma explicação que não basta, mas que é lícita, válida. Por isso a recuperação é difícil: ao voltar para o seu meio, o jovem retorna ao crime. Podemos, então, falar de uma “cultura do crime” que se funda no desejo de possuir e se baseia no poder: quanto mais mau, mais respeitado. Por isso, a educação exige, antes, um processo de desconstrução, para depois construir algo novo.

Vejo que os assuntos abordados nas palestras são atualíssimos. Quem diria o contrário? Uma pergunta ou busca ficou intermitente: compreender a violência ou “dar sentido a ela”. Pois ela, sem sentido, é mais dolorosa ainda. Penso que o quadro é complexo demais para darmos apenas uma resposta. Questões e respostas do ponto de vista psico-emocional se misturam com outras sociais, políticas, familiares, educacionais. O ideal seria atacar em todas as frentes. Seria possível? Eu mesmo me confundo. Mas, penso que a monja Cohen pelo menos apontou um caminho mais fácil, mesmo que não acessível de pronto a todos: cada um olhar para si mesmo; um olhar para o interior que nos dá a possibilidade de entrarmos em contato com a agressividade que “derramamos” sobre o mundo, o que gera, ou não, a violência.

Há, portanto, sem dúvidas, uma “violência invisível”, só perceptível a quem desenvolve um olhar para si mesmo. A palestra, interessantíssima, começa com uma afirmativa importante: “Se queremos cultivar uma cultura da não-violência, precisamos conhecer com intimidade a nós mesmos”. “Como eu estou me tratando?", seria a pergunta inicial, referindo-se (1) ao próprio corpo - abusando dele e desrespeitando-o em vários níveis; e (2) à própria mente – referente às informações que utilizo para estimulá-la. Se eu me maltrato a mim mesmo, maltratarei a quem me cerca; pois quando estamos num estado de amorosidade e plenitude, somos muito gentis uns com os outros. O autoconhecimento deve levar-nos ao esquecimento do “eu menor” que é egoísta; é a transcendência do corpo e da mente, cujo destino é a humildade. Ora, quando vivemos a dualidade, vivemos a separação do “eu-outro”: os outros se tornam estranhos a mim; rejeito no outro aquilo que eu odeio em mim mesmo; é, também, não dividir o mundo entre o bem e o mal, mas exercer a compaixão para com todos. Poderemos, também, perceber os muitos ranços que trazemos do passado e da cultura, que são germes de violência.

A não-violência não é fruto de uma paz pessoal egoísta; no entanto, à medida que nos transformamos, o mundo se transforma. A abertura do olhar de percepção do não-outro é o mesmo do não-eu: enquanto existe um eu violento, agressivo, existe o outro que se opõe a mim. Mas, quando eu transcendo o eu, crio a paz ao meu redor. Aqui situa-se a meditação como um caminho para descer em mim mesmo, percebendo que a essência do eu é o não-eu: a transcendência de mim mesmo.

Manter as pessoas estagnadas, não permitindo que elas se desenvolvam em seu potencial (autorrealização), é também violência, já que esta leva ao retrocesso. É preciso, também, reconhecer as necessidades básicas do outro, não impondo sobre eles nossas próprias necessidades. O não reconhecimento das necessidades básicas própria e do outro, é também violência; estas não são negociáveis. É o abandono do “eu ganho” rumo ao “nós ganhamos”.

Palestra interessantíssima, acima de tudo quando mostra a importância do autoconhecimento para uma cultura de não-violência: o reconhecimento das raízes do mal em mim, que espalho no mundo, inclusive as forças do mal que brotam do inconsciente. Este seria o caminho para detectar e reconhecer o mal existente em mim e, assim, não deixar transbordar para os outros. Ir rumo à não-violência, portanto, requer auto-observação em todos os níveis e sentidos.

¹Padre e abade do Mosteiro da Trindade em Monte Sião/MG e aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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