O Caso Dora - uma análise

Por Hélio de Lima Júnior1

Freud em seus estudos, nota-se seu interesse sobre a importância dos sonhos e uma descrição de algumas das peculiaridades do pensamento inconsciente. Há apenas vislumbres do orgânico - as zonas erógenas e a bissexualidade.

Neste estudo vem enfocar o  caso de histeria: de Dora, Freud(1901- 05); pois trata-se de uma histeria com tussis nervosa e afonia, cujas origens podem ser encontradas nas características de uma chupadora de dedo; e o papel principal nos processos psíquicos em conflito é desempenhado pela oposição entre uma atração pelos homens e outra pelas mulheres.

No caso de Dora, Freud (1901-05), pois é uma moça de dezoito anos, que tinha um único irmão, um ano e meio mais velho, fora o modelo que ela ambicionara seguir. Nos últimos anos, porém, as relações entre ambos se haviam tornado mais distantes. O rapaz procurava afastar-se o máximo possível das discussões da família, mas, quando se via obrigado a tomar partido, apoiava a mãe. Assim, a costumeira atração sexual aproximara pai e filha, de um lado, e mãe e filho, de outro.

No caso Dora, Freud(1901-05) neste texto vem focalizar da sua análise com Freud; que inicialmente lhe contou  da amizade que ela e o seu pai tinham feito por um casal ali radicado já há muitos anos. O Sr. K. e a Sra.K.  A Sra. K. cuidara do seu pai durante sua longa enfermidade, tendo assim feito jus à sua eterna gratidão. O Sr. K. sempre fora extremamente amável com Dora, levando-a para passear, dando-lhe pequenos presentes, mas ninguém via nenhum mal nisso. Dora esclareceu o estranho comportamento do Sr. K. contando à mãe, para que esta por sua vez o transmitisse ao pai, que o Sr. K. tivera a audácia de lhe fazer uma proposta amorosa, durante uma caminhada depois de um passeio pelo lago.

A experiência de Dora com o Sr. K. - suas propostas amorosas a ela e a conseqüente afronta a sua honra - parece fornecer, no caso da paciente, o trauma psíquico que Breuer e Freud declararam ser a condição prévia indispensável para a gênese de um estado patológico histérico.

O Sr. K. combinara com Dora e com sua mulher para que, à tarde, elas fossem encontrá-lo em sua loja comercial, na praça principal para dali assistirem a um festival religioso. Mas ele induziu sua mulher a ficar em casa, despachou os empregados e estava sozinho quando a moça entrou na loja. Ao se aproximar a hora da procissão, pediu à moça que o aguardasse na porta que dava para a escada que levava ao andar superior. Em seguida voltou e, ao invés de sair pela porta aberta, estreitou subitamente a moça contra si e depois  lhe um beijo nos lábios. Era justamente a situação que, numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e passou correndo por ele. O caso da paciente Dora ainda não fica suficientemente caracterizado acentuando-se apenas a inversão do afeto; é preciso dizer, além disso, que houve aqui um deslocamento da sensação. Na paranóia, a projeção da censura em outrem sem qualquer alteração do conteúdo, e sem nenhum apoio na realidade, torna-se manifesta como processo de formação do delírio.

A afonia de Dora, portanto, admitia a seguinte interpretação simbólica: quando o amado estava longe, ela renunciava à fala; esta perdia seu valor, já que não podia falar com ele.
Nos relatos de Dora, ela expõe sobre o relacionamento do pai com a Sra. K. pois, que ela só amava seu pai porque ele era um homem de posses, como se expressou um homem sem recursos. Isso só poderia ser entendido num sentido sexual - que seu pai, como homem, era sem recursos, era impotente. A maneira de se obter satisfação sexual, precisamente nas partes do corpo que nela se achavam em estado de irritação - a garganta e a cavidade bucal.  Mas era irrecusável a complementação de que, com sua tosse espasmódica - que, como de hábito, tinha por estímulo uma sensação de cócega na garganta -, ela representava uma cena de satisfação sexual.

Primeiro sonho de Dora: “Uma casa estava em chamas. Papai estava ao lado da minha cama e me acordou. Vesti-me rapidamente. Mamãe ainda queria salvar sua caixa de jóias, mas papai disse: `Não quero que eu e meus dois filhos nos queimemos por causa da sua caixa de jóias.’ Descemos a escada às pressas e, logo que me vi do lado de fora, acordei.” Segundo sonho: Narrou Dora: “Eu estava passeando por uma cidade que não conhecia, vendo ruas e praças que me eram estranhas. Cheguei então a uma casa onde eu morava, fui até meu quarto e ali encontrei uma carta de mamãe. Dizia que, como eu saíra de casa sem o conhecimento de meus pais, ela não quisera escrever-me que papai estava doente.`Agora ele morreu e, se quiser, você pode vir.’ Fui então para a estação e perguntei umas cem vezes: `Onde fica a estação?’ Recebia sempre a resposta: `Cinco minutos.’ Vi depois à minha frente um bosque espesso no qual penetrei, e ali fiz a pergunta a um homem que encontrei. Disse-me: `Mais duas horas e meia.’ Pediu-me que o deixasse acompanhar-me. Recusei e fui sozinha. Vi a estação à minha frente e não conseguia alcancá-la. Aí me veio o sentimento habitual de angústia de quando, nos sonhos, não se consegue ir adiante. Depois, eu estava em casa; nesse meio tempo, tinha de ter viajado, mas nada sei sobre isso. Dirigi-me à portaria e perguntei ao porteiro por nossa casa. A criada abriu para mim e respondeu: `A mamãe e os outros já estão no cemitério.” (Freud, 1901 – 05).

No primeiro sonho nota-se que a jóia não interessa a Dora, mas o estojo. No caso da enurese, está relacionada com identificação com o irmão. A senhora K. é aquela capaz de sustentar o desejo do seu pai e também de acolher o desejo do Sr. K. E o segundo sonho ressalta que o pai simbólico e o pai morto se alcança a partir do lugar do vazio. De um lado a castração de um pai idealizado, e de outro da assunção ou não do sujeito feminino ser privado do prazer. Freud,  na questão edípica enfatiza sobre à censura da menina à sua mãe por não tê-la criado como menino. Tal como o primeiro sonho significara o afastamento do homem amado em direção ao pai, ou seja, a fuga da vida para a doença, esse segundo sonho anunciou que ela se desprenderia do pai e ficaria recuperada para a vida.

Na infância há grande ocorrência de traumas, que provoca a neurose. Nota-se neste caso o registro das identificações imaginárias, que emergiu a identificação com o pai ideal. O que é ser homem o que é ser mulher? Para Dora sua identificação ao homem portador de pênis lhe serve de instrumento imginário para apreender o que ela não chega a simbolizar, o que seria uma mulher. A histérica ama por procuração, ela é alguém cujo objeto é homossexual, ela aborda este objeto homossexual, por identificação a alguém do mesmo sexo. (Laznik, 2008). Entretanto Dora ama seu pai, ela o ama por aquilo que ele não lhe dá. A Sra. K. é objeto de preenchimento naquilo que lhe falta, pois a Sra. K encarna a função feminina.O sintoma histérico é a mascara do desejo inconsciente. A Sra. K. será o desejo de Dora, na medida em que ela é o desejo do pai, desejo este barrado. A impotência do pai permite a Sra. K. ocupar o lugar do desejo insatisfeito.

Portanto, a incapacidade para o atendimento de uma demanda amorosa real é um dos traços mais essenciais da neurose; os doentes são dominados pela oposição entre a realidade e a fantasia. Aquilo que por mais intensamente anseiam em suas fantasias é justamente aquilo de que fogem quando lhes é apresentado pela realidade, e com maior gosto se entregam a suas fantasias quando já não precisam temer a realização delas.

1Psicólogo e aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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