A psicanálise, o inconsciente, Goethe, Baudelaire e a resposta de Zimmerman

by Administrador

 Por Marisa Neves1

Este artigo usa fontes bibliográficas para fazer um passeio entre a Psicanálise, o Inconsciente, Goethe e Baudelaire. O que a Psicanálise diria hoje para os poetas, sob um olhar patológico? 

O presente trabalho trás á tona dois poetas importantes e inesquecíveis do período de ouro da literatura, e a psicanálise e o inconsciente estarão presentes como forma de um bálsamo tranquilizador entre a arte e a palavra. 

Não foi pouca a contribuição de Goethe e Baudelaire, e lembra-los neste século, conversar com os autores que falam sobre e traçar um possível paralelo entre tudo isso é uma grande pretensão, porém a intenção é passear entre estes mundos e dando a Goethe e Baudelaire a oportunidade de serem relembrados para que continuem vivos e recebam antes tarde, uma resposta para seus corações atormentados. Muitos dirão que este trabalho não se sustenta sendo ele pobre de recursos, e argumentos, porém não tem ele a intenção de ser um regramento  de estudo, mas sim, uma visão do autor para os que apreciam e compartilham também outras visões para uso da psicanálise, senão o divã.

Palavras chave: Goethe: Baudelaire: Psicanálise: Inconsciente.


Summary

Su This article uses literature sources to take a ride between psychoanalysis, the Unconscious, Goethe and Baudelaire. What psychoanalysis would say today to the poets under pathological look? This paper brings up two important and unforgettable poets of the golden age of literature and psychoanalysis and the unconscious will be present as a way of soothing balm between art and the word. There was little the contribution of Goethe and Baudelaire, and remember them in this world, talk to the authors who talk about and draw a possible parallel between all this is a big claim, but the intention is to walk between these worlds and giving Goethe and Baudelaire the opportunity to be reminded to continue living and receive better late, an answer to their troubled hearts. Many will say that this work does not hold him being poor in resources, and arguments, but he has no intention of being a regramento study but rather a view of the author for those who appreciate and also share other views for use of psychoanalysis , but the diva.

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Introdução

A psicanálise, o inconsciente ,Goethe, Baudelaire e a resposta de Zimmerman, é  um passeio entre a arte dos poetas e suas angústias vistas sob um prisma psicanalítico, um passeio entre esse mundo contemporâneo e aquele idealizado pelos poetas da época de ouro da literatura, onde os poetas viviam mas abdicavam da alegria de viver por fazerem das suas angustias um estado natural. Naquela época muitos pereciam do mal de amor principalmente os escritores e poetas por isso  esse parâmetro com a psicanálise e o inconsciente, tentando embora que de forma imaginária e simbólica dar-lhes uma resposta nos dias de hoje.

O presente trabalho não tem a intenção de servir como uma resposta real, pois não é pretensioso, mas o fato de mencionar Goethe e Baudelaire e tentar situá-los num canto, mesmo que turvo da psicanálise já justifica a objetividade deste artigo. Trazer à tona a inconstância, representada pelo reprimido inconsciente é mastigá-lo e tentar devorá-lo, extraindo o ser humano que resta por detrás das lacunas da solidão humana.

 A arte que todos mencionam e que foi apreciada por mentes tão brilhantes certamente aponta a direção de algo maior e ao mesmo tempo o pano de fundo e o consolo para aqueles que desfocam – se do mundo  para contemplar apenas o  que há de mais belo em outras dimensões.

A psicanálise é a cura pela palavra. Certamente encontraria um caminho e devolveria não o prazer de viver, mas ajudaria hoje, Goethe e Baudelaire a  desenrolar seus carretéis, conduzindo-os por veredas que talvez aliviasse suas dores e seus dogmas.

O inconsciente carrega como prefixo o ''in'', para que ele próprio nunca se esqueça da sua própria dualidade de ser e não ser, estar e não estar.

E para que nunca se esqueça da força representativa que ele tem, mas que também não tem. Este passeio pelos escritos trás à tona a profunda relação instintiva dos poetas com a psicanálise e o inconsciente. Digo instintiva, pois nos escritos de Goethe e Baudelaire, eles vislumbraram a realidade difusa das coisas que não são pois estavam suspensas apenas na ilusão. Assim como a psicanálise é a palavra da alma e para a alma, são também os escritos destes um bálsamo para os espíritos que sofrem e encontram na literatura descanso para a alma.

É reconfortante saber que alguém viu estas paisagens, alguém viveu tais amores, alguém sofreu realmente da forma que só os poetas sonhadores conseguem ,e se por acaso prolongaram seus dias sobre a terra, foi pelos seus escritos.

A Psicanálise

(..) Somos não apenas passivos, mas também ativos em nossa própria ruína, não só nos deixamos ficar embaixo de uma casa que desaba, mas a puxamos para cima de nós; e não somos unicamente executados, mas também executores e executadores de nós mesmos'' (Sacks,O.pag.256)

A psicanálise e os primórdios

''O termo psicanálise e o nome Sigmund Freud são amplamente conhecidos no mundo moderno. Outros nomes de destaque na história da Psicologia, tais como, Fechner,Wundt e Titchener , são poucos conhecidos fora da área, diferentemente de Freud, que mantém até hoje alto grau de notoriedade entre o público em geral. Ele apareceu na revista Times três vezes, sendo a última, cerca de 60 anos após sua morte. E sem dúvida, ele concordaria em que está entre as poucas figuras da história da civilização a provocarem uma alteração na visão que o ser humano tem de si mesmo''( Schultz e Schultz,2005,p.345)

A psicanálise em seus primórdios teve um papel importante na descoberta das neuroses que estavam na mente e que por muito tempo eram tratadas como coisas demoníacas. A psicanálise além de situar o sujeito para localizar e tratar melhor suas zonas de conflitos é até hoje um mérito de Freud.

''Para mim, Freud é sagrado exatamente por isso. Ele faz aquilo que eu chamo de habitar o Mitho, ou seja, ele é um daqueles que reconheço como sendo o espaço dos falantes que dá sustentação para o que aí se constituiu como sujeito vir a ser operado por objetos que se formam de sonhos aí mesmo sonhados. No que só isso é suficiente para que se faça uma  ideia do que é um gênio, muitos por aí  se farão identificar, quer pelo reconhecimento que, a partir deste caminho, se faça; quer pela identificação imaginária, que aí haverá para cada neurótico se apropriar da genialidade como fardão-(Mello,1987, pag.97)

À cerca disso, a psicanálise se comporta na existência  das lembranças como um hóspede sempre desejado, porque são estas lembranças fugidias que darão o suporte que se precisa para a compreensão de algo que não pode ser  comprovado nem aferido, mas que está lá. A organização da vida psíquica precisa tem um véu de censura impressionante, alguém já disse, pois não é qualquer um que consegue descer este véu para situá-lo na esfera da realidade, os neuróticos podem, eles tem imaginação.


A Psicanálise como método de tratamento

''Freud sentia que o método de associação nem sempre funcionava de fato, livremente. Cedo ou tarde os pacientes chegavam a um ponto das recordações que se sentiam incapacitados ou indispostos para continuar. Freud pensava que essas resistências, indicava que os pacientes teriam trazido à tona lembranças vergonhosas demais para encararem. Desse modo, a resistência seria uma espécie de proteção contra a angústia emocional. A simples presença do sofrimento, no entanto, indicava que o processo de análise estava próximo da origem do problema e o analista devia prosseguir naquela linha de pensamento.'' (Schultz e Schultz,2005, p.369)

A repressão muitas vezes dificulta a compreensão dos fatos, tornando-os mais difíceis e inacessíveis, e esse mergulho entre analisado e analisando simplifica e aproxima de forma que a reintegração da memória e os lapsos, os ditos e os não ditos em algum ponto vão se cruzar, trazendo à tona compreensões de medos e situações mascaradas e ocultas pela simbologia dos sonhos.

Cada mente, conforme Freud diz, sentirá o prazer de uma forma, dependendo de seu aparato psíquico, bem como sua história de vida, seus dramas, seus dogmas seus conflitos e também seus sucessos e também suas decepções. Cada ser humano vai enxergar seu sofrimento de uma forma e vai lidar com seus conflitos da forma que vivenciou e aprendeu. Muitos nos surpreenderão com suas respostas de sucesso, assim como muitos continuarão adoecidos por desconhecer um método terapêutico eficaz como a Psicanálise.

O ser humano é um jogo alucinante em que peças se encaixam perfeitamente, porém outras parecem não se encaixar em lugar nenhum do aparato psíquico, tamanha a diferença de agir e pensar entre comportamentos e situações positivas e negativas. Freud, nos diz, acerca dos sonhos, o mais lindo tratado entre a vida onírica e seu amplo campo na psicanálise, ele diz:

''Os sonhos permitem um cumprimento dos desejos naturalmente, desejos inconscientes que emergem disfarçados para censurar a consciência, para sonhar tem que dormir. Quando dorme o organismo dá satisfação à sua necessidade de repouso, há uma redução da tensão, a mais completa, Freud relaciona esse estado  a uma volta á existência pré natal, e ele tem duas teses ''O sonho é o guardião do dormir'' e ''O sonho é uma realização de desejos''.(TORTOSA,cap.16,p.228)

A importância que a psicanálise deu aos sonhos, é a importância significativa que eles representam no histórico da vida sublimada, esta representação que existe num estado de dormência é o que se busca nos quartos da memória e que nem sempre é claro e nem sempre emerge de forma real. O sonho está lá, mas desvendá-lo e situá-lo no campo da realidade pode assustar, mas pode trazer compreensão quando revelados e compreendidos. Quando dormimos desligamos e não desligamos, alguém precisa vigiar a máquina, nosso corpo necessita desse guardião, é ele quem nos faz retornar e nos possibilita a volta do sono.  

Entre muitos aspectos abarca a amplitude da arte, é quase impossível dissociá-las, sobre isso leia:

A psicanálise demonstrou como as obras primas da arte (poesia, literatura, pintura, etc...) eram em muitas ocasiões resultantes das projeções dos próprios conflitos e complexos afetivos de seus autores. Em 1913, Freud publicou na revista ''Imago'' sua primeira contribuição a respeito do assunto psicanalisando a famosa obra de Shakespeare, o Mercador de Veneza. Comparando a cena da escolha de uma das três caixas (de ouro, prata e chumbo). Com cenas semelhantes de outras obras da tragédia O Rei Lear, o pastor Paris, terá que fazer a escolha de uma das três deusas . Chegou à conclusão de que trata do simbolismo da escolha que o homem faz diante de três mulheres.  Tal escolha se faz sempre em favor da terceira, que amo e se esconde no fundo; é modesta e desaparece na profundidade como o chumbo. A psicanálise faz da imagem desta terceira irmã o símbolo da morte silenciosa e oculta na profundidade que é por sua vez o símbolo do amor, e por curiosa antinomia. Não esqueçamos que Garcia Lorca denominava o êxtase  amoroso de "la muerte chiquita’’ (a pequena morte).   (Emílio Mira Y Lopez, 1948,p.116)

Quanto a isso é muito importante ressaltar que estamos avançando, onde chegaremos em Goethe e Baudelaire e tentaremos, conforme foi mencionado demonstrar sua importância na arte e seus gritos inconscientes através da sua arte da escrita para reencontrar um sentido na busca feroz na interioridade dos escritos destes e onde eles se encontrarão com a psicanálise.

Também outros autores foram alvo da psicanálise, como aborda o autor:

''De modo semelhante foram psicanalisadas diversas obras de Leonardo da Vinci, A Gradiva, de W. Jensem, A vida amorosa de Lenau (Sadger), A Devoção, de Zizendorf ,  O Holandês errante, de Wagner, O complexo Edipiano, de Hamlet, O simbolismo de ''A tentação de Santo Antônio, de Flaubert, A figura de Juan Tenório, Val Buena etc...'' ( Mira, E. Y Lopez,1948, P.116) 

A psicanálise foca o caos a desordem e sua terapia busca o equilíbrio para uma melhor qualidade de vida, os degenerados, os desajustados, os viciados, os neuróticos são por este motivo seus alvos de estudo. Sobre isso os autores dizem:

O terror das três esferas (símbolos da sensualidade , da ambição e da preguiça), seu encontro com Virgílio, sua visitação ao inferno, sua ascensão  ao monte da purificação, seus exércitos expiatórios e sua união à Beatriz (símbolo efetivo da alma enobrecida) plasmam a fantasia do autor em ações visando libertá-lo de seus conflitos e proporcionar-lhe a paz interior.(Mira, E. Y Lopez, P.116)

Para sustentar mais o jogo psicanálise e literatura Emilio Mira Y Lopez, o autor diz:

''Em língua espanhola, Angel Garma publica um interessante ensaio psicanalítico do poeta Arthur Rimbaud e de suas obras.(Revista de Psiquiatria Criminologia, junho 1940, Buenos Aires)’’

Ainda podemos acrescentar aqui neste ensaio da psicanálise com a arte, Donnne, citado  em Tempos de despertar:

(...) Assim como o outro mundo produz Serpentes e víboras, criaturas malignas e peçonhentas, e vermes e larvas que se empenham em devorar o mundo que o produz(...) também este mundo ,nós mesmos ,produz tudo isso em nós, criando doenças  e males de toda espécie ; doenças virulentas e infecciosas ,doenças que corroem e consomem, e moléstias múltiplas e combinadas compostas de vários males (...)  Ó miserável abundância, ó fartura de misérias!  (Sacks, O. 1997, p.25)

Dito isso, importa saber que apesar de não poder ser aferida, a Psicanálise representa o tudo e ao mesmo tempo o nada, mas isso não a desclassifica e não diminui sua importância, pois é ela um campo dos visionários, daqueles que vêem na vida onírica um campo fértil, por isso que procuramos nos proteger de um mundo que nos adoece e aniquila nos confins da psicanálise.


O Inconsciente

''O inconsciente é estruturado como uma linguagem''; e o segundo, ''Não existe relação sexual''. Eu diria que estes dois princípios são os pilares de sustentação do edifício teórico da psicanálise, as premissas de onde tudo ocorre e para onde tudo retorna, e que fundam uma ética do psicanalista. De fato, quando o psicanalista reconhece essas preposições e submete as  à prova de sua clínica, sua escuta é singularmente edificada por elas.''(Nasio,1993,pág.11) 

''Até onde o inconsciente pode levar-nos, que digam os poetas''

 ''Na mente dos poetas, as formas, os estados de espírito, as visões dos papéis e das peças estão continuamente passando pelo processo de vir a ser. Estão sempre em vários estágios de desenvolvimento em seu interior.''

Na mente dos  poetas e escritores  seria quase que um estado permanente a realização do ato, porque nunca se acaba a palavra, ela é o caminho a percorrer para um ato simbólico e imaginativo posto no papel para que outro goze. 

Aquele que idealiza a cena e cria a paisagem. É uma liberdade de criação que vem a esmo, se instala e vai elaborando seus escritos, suas alucinações, para que estas adquiram a forma desejada na imaginação, por isso que o autor afirma que ''...passando pelo processo de vir a ser.''

''Fechner também estudava o inconsciente e, embora aceitasse a noção de limitar, foi sua analogia entre a mente e o iceberg que provocou maior impacto em Freud. Fechner afirmava que, assim como a maior porção do iceberg, grande parte da mente fica escondida debaixo da superfície e é influenciada por forças não observáveis.''(Schultz e Schultz,P.349)

Sendo assim, nosso inconsciente, ou a maior parte dele ficaria protegido, a parte que fica de fora seria o mínimo. Por isso ele é inconsciente por estar submerso é muito difícil requisitá-lo. O feroz reprimido, o desconhecido , este está ausente, submerso e só um mergulho muito profundo para acessá-lo.

A noção da capacidade das forças inconscientes de suplantar e dominar a porção mais racional do indivíduo, logo estava presente na literatura popular. No romance do escritor Robert L. Stevenson, Dr. Jekill and Mr. Hyde (O médico e o monstro) publicado em 1889,o bom Dr. bebe uma porção misteriosa que liberta um lado diferente da sua personalidade, dotado de todas as formas de imperfeição. Essa personalidade inferior, essa exigente presença amoral, gradualmente consome a personalidade imoral, íntegra e racional. Observa-se assim, não haver sido Freud o primeiro a discutir com seriedade a mente humana inconsciente. Freud reconhecia que outros escritores e filósofos antes dele abordaram profundamente esse tema, mas alegava ser ele o descobridor da forma científica para o estudo do inconsciente.  (TORTOSA,2006)

Não questionamos a importância de Freud e suas descobertas para desvendar o reprimido, pois ele abrilhantou como alguém já disse, as paisagens da Psicologia, conceituando e esclarecendo sobre os labirintos da mente humana. 

Porém o inconsciente sempre esteve presente na arte, na literatura e no imaginário de muitos autores. Tudo o que está dentro precisa de alguma forma ser externado, porém não encontra uma forma objetiva. O artista tem, a capacidade de externar a irrealidade materializando-a na arte, na literatura, na filosofia e em todos os gêneros de criatividade de dentro para fora, a arte é um tormento interno que flui. Sendo a mente, inconsciente fértil celeiro onde o artista encontra neste ''depósito de coisas velhas'', como objetivava Freud, um meio de agraciar a humanidade com suas obras e levar adiante a cultura e a arte. 

Na sua ''Nau do desejo'', a autora diz:

Freud lança mão de uma certa verificação experimental em sua argumentação em prol do inconsciente. Aqui também não podemos esquecer que é a partir de tal verificação a clínica que Freud edifica sua hipótese. O sintoma que faz sofrer o neurótico se coloca com um enigma na qual em sua decifração surge a evidência de um saber que não se sabe, que escapa à apreensão da consciência. Entretanto o que é possível de ser desvelado através do esforço de investigação que veio a constituir o método psicanalítico exige uma certa articulação em palavras da ''coisa'' inconsciente sem o que esta permanece como coisa. (Maurano,D.1995, p.36) 

Se o inconsciente é acessado para buscar algo que não está claro, então ele é incógnito porque se esconde na imensidão das nossas próprias impossibilidades de procura.

A ele temos acesso, nos sonhos tão somente, lá ele é senhor contrariando a física, e os métodos científicos que anseiam por explicações acerca de tudo.

Lá estão nossas mazelas, o que foi dito e também o que não foi, o beijo que demos e também o tapa que levamos e não lembramos, o por quê deste amor e não daquele; por quê tal pessoa mexeu comigo e não aquela?

 Ele é o mestre e senhor   de algo oculto e reprimido, porque se viesse á tona sem ser solicitado, seria um intruso, e não precisaríamos buscar na psicanálise a cura para nossos dogmas. A sensorialidade necessária para entender e compreender o que se quer buscar é fatigante e exaustiva, por isso, dorme ele, acordando somente quando solicitado.

Wolfgang Goethe (1749-1832) - Uma alma atormentada

''Sentes em meus poemas que sou dois em um só?''

Já no prefácio da obra, o autor diz: -''Como objetivo, tivemos unicamente de filmar todas as paisagens da alma estudada, desde a juventude até a morte. E o nosso ideal se resumiu em obter a verossimilhança psicológica de um romance, guardando a precisão histórica de um diário íntimo. Ainda que estudada como nenhuma outra, a história psicológica de Goethe da mesma maneira que a de outras personagens históricas, não foi adaptada ao verdadeiro molde da biografia. Essa alma se desenvolveu segundo uma progressão contínua, cujo relato teria de ocupar perto de setenta capítulos. Isso além de constituir uma tarefa impossível iria fatigar o leitor. '' (Goethe Ludwig,E.1949) 

Conforme os escritos literários que falam de Goethe, foi ele uma alma atormentada pelo mundo, é o fato de Goethe ter habitado este mundo, é inegável sua forte ligação com toda a sentimentalidade que uma nobre alma pôde suportar. Sentiu-se neste estudo, uma ligação mais forte de Goethe com a figura materna.

Aquele vazio de que sofrem os poetas, as paixões fugidias também, a falta de uma completude familiar como forma de um maior preenchimento do abandono humano. Nada em Goethe havia que não fosse coordenado pela lembrança de coisas e pessoas queridas que fervilhavam sua mente, como se ele próprio absorvesse ou transferisse as sentimentalidades para seus personagens. Ora sendo ele mesmo o homem, ora ele personagem. Eis a questão, ao considerar-se um homem feliz, Goethe contraria o que se diz sobre a felicidade, que, ''ela é também a triste luz soturna dos espíritos altos. Soturnando a felicidade, e fazendo dela uma companhia agradável, essa ode dos poetas em enaltecer a dor e enegrecer a alegria, só eles sabem, e isso não se questiona. Em um trecho de sua biografia, Goethe pede para ser amado, reclamado, como se tivesse deixado longe seus amores e seu coração ansiasse  por toda a expectativa e o medo dos retornos de quem deixa o navio ancorado no porto e não sabe se vai encontrá-lo, diz o autor em certo trecho. 

Em outro momento, Goethe agradece aos deuses sua solidão e desgraça, apesar de tudo, reafirmando a solidão que enobrece e enriquece o espírito humano. Apesar de seu constante introspectivismo, ele olhava para fora também, aspirava o todo, mesmo distante e melancólico.

Relatos dão conta de que um bispo ao ir ter com Goethe, lamentou a solidão de sua alma e percebeu o quanto Goethe sofria em sua agonia ,seu inferno particular e sua irreal e ilusória permanência no mundo real. Um visitante do tempo, como diria Lacan.

O personagem Mefistófeles de Fausto, parece ser o seu próprio demônio. A criatura fantasiada, travestida de ilusão saltou da mente para habitar as páginas de ''Fausto''. Seria Mefistófeles um inquilino permanente que se alojou na mente de Goethe e jogou a chave fora? Mefistófeles, poderia ser a depressão de Goethe, assim como os objetos irreais que habita a mente dos lunáticos.

Talvez a patologia hoje, classificasse Goethe como bipolar, borderline, não sei, isso é só um ensaio. Mas devido a sua inconstância e instabilidade emocional, depressivo também. Naquela época, foi ele um gênio da literatura que viu o que poucos viram, e são eles que conseguem enxergar a verdadeira realidade para transmiti-la ao mundo.

(...) Oh, jovem volúvel e, todavia, encantadora dizei-me: que fiz para que me aflijas semelhante tortura, faltando a tua palavra?

O autor relata:

 ''Um dia Goethe encontra no armário seus últimos poemas de amor sob o crânio de Rafael, um acaso os havia colocado debaixo dessa reprodução. Sorriu e viu nisso um símbolo, como esses poemas são o mais puro símbolo de sua transformação desde os primeiros que havia escrito para Cristina...a visita e queixa-se , nota-se o tom firme e alegre de um homem cujo amor tornou feliz por si mesmo, muito mais do que pelo seu objeto. É a paixão que põe molas em sua articulação, é um jogo sem nenhum misticismo. O poema não é rimado'' (Goethe Ludwig,E.1949,p.349) 

''Nem sempre estou disposto para os grandes sentimentos e, sem eles nada sou.''

Goethe, ora alegre ora triste, ostenta a bandeira da bipolaridade sua inconstância emocional, por conta dos amores não correspondido o leva ao cume do pessimismo.

Tudo piora á medida que seus arroubos não são correspondidos, parece sempre uma afronta não ser amado, mas do amor deve se dizer, e talvez, esse não dito que ficou no seu imaginário foi o motivo maior de sua angústia.

''Se esta fosse minha língua, e eu me encontrasse no meu País, gostaria de dirigir esse bando. ''Escreve de Roma que é necessário colher a felicidade que passa, em vez de  aquietar-se de um modo geral com ela e com a desgraça. É um momento de bom humor, expressa-se assim numa carta a seus amigos: Se conservais a lembrança de mim, recordai-me como um homem feliz''  ( Goethe Ludwig,E.pág,326)

A obra de Goethe pertence ao romantismo, a valorização dos sentimentos altos, nobres, as emoções ,a valorização da figura feminina que é a causa de toda a dor e de toda a tristeza. Em Werther diz: 

''Sinto meu pobre coração muito mais pobre e enfermo do que aqueles que definham sobre um leito de morte.'' 

A valorização da dor como um sentimento vasto e que nunca se acaba, um sentimento que se arrasta para além da vida, tornando um fardo pesado, mas também prazeroso de carregar. Sim Goethe era um sofredor masoquista assumido. Tomou para si as paixões de seus personagens e fez delas seu mundo, sua vida e seus escritos. Onde acaba um e começa outro, eu não sei!

Goethe escreve antes de retornar ao Norte, apossado de uma tristeza demoníaca: 

'' Há um germe de loucura em uma tal desolação. É preciso abandonar esse pensamento em vez de alimentá-lo e cultivá-lo...amai-me, fazei com que eu regresse cheio de alegria. Reclamai-me.'' (Goethe Ludwig,E. pág.326)

Goethe queria ser cobrado, reclamado, era tudo tão  seu... ele ia tão somente para poder retornar e fazer desse retorno uma mudança, mas a mudança que ele esperava nunca acontecia. Mas que espírito grandioso e que alma equilibrada a que vive os dias a observar o mundo e suas mediocridades extraindo dele um rico material para a escrita. Penso ser este o objetivo de tanta renúncia. Enquanto o peito queima de amores risíveis extrai-se o sumo da arte, o melhor, o que não se encontra em lugar nenhum, pois para criar, é preciso sofrer.

''Como vos agradecer, oh deuses! Vós me destes tudo o que o homem implora e seus desejos, isto é, quase nada.''

Disse dele um bispo: ''-É um homem muito desgraçado, que deve viver em luta permanente contra si mesmo.''

''Porque despertai-me, ó brisa da primavera, tu me acaricias e dizes: Derrame  sobre ti as gotas celestiais de orvalho mas aproxima-se o tempo em que murcharei; aproximarei a tempestade que me arrancará as folhas... amanhã virá o caminhante, virá aquele que me viu em plena beleza, seus olhos hão de procurar-me por toda a campina, e não me encontrarão mais.''

Aqui, já um Goethe amargurado, todavia, fremente da solidão visionada e escancarada. 

Apartado disso o puro amor perpetrado, amor dos reis, dos que embalsamaram a alma no mel da boca das sereias, dos que caminharam pelas verdes campinas e sentiram toda a fúria enraivecida do vento no rosto. Sim ele amou de verdade!

(...) Em 22 de março de 1832, Goethe está sentado na poltrona, ao lado de sua cama. Seu estado de saúde havia piorado nos últimos dias, por causa de um resfriado. Começa a amanhecer, mas o quarto está escuro. Goethe respira com dificuldades, faz um sinal ao seu criado (como se estivesse pedindo algo) o criado se aproxima e ouve as últimas palavras pronunciadas por entre espasmos.  ''Abram a janela do quarto, para que entre mais luz.''

 ''O autor não narrou a infância do escritor porque faltavam documentos autênticos sobre sua vida nessa época, cuja influência é muito mais fraca do que nos assegura a lenda. Também deixamos no lusco fusco as circunstâncias  da atualidade cuja influência  foi tão fraca sobre Goethe, como a sua ação sobre a época em que viveu pois a ascendência e descendência desse gênio estão separados dele por séculos.'' 

CHARLES PIERRE BAUDELAIRE (1821-1867)

Nascido em Paris, em 9 de abril de 1821, poeta e teórico das artes, de influência simbolista. De sua maneira de ser, originaram-se na França os poetas malditos, retrata a inquietude, o degredo e as paixões da alma humana.

 Sua obra teórica ultrapassa a existência. Sua infância foi atormentada, perdeu o pai aos seis anos e perdeu-se na boemia em Paris ainda jovem.  Como estratégia, Baudelaire incorporou à realidade o romantismo com sua linguagem sublimada, criando a poesia moderna.

Processado por subversão em ''As flores do mal'', foi obrigado a retirar seis poemas originais .

''As flores do mal'', foi dedicado ao venerado amigo e mestre Theóphile Gaultier ''com os sentimentos da mais profunda humildade, dedico estas flores doentias.'' (Baudelaire, Charles,2003).

Talvez só um desabafo pelo peso de seu mundo interior. o fato é que Baudelaire nos trás um carretel dicotômico entre céu e inferno, a ambiguidade presente entre o bem e o mal. Com ele vêm também o tormento de caminhar e transitar nestes dois mundos com a leveza e a suavidade que só os poetas conseguem. No poema ''A morte dos pobres'', o poeta diz:

''Vivemos pela morte, e só ela é quem afaga. É a única esperança e o mais alto prazer que como um elixir nos transporta e embriaga, e nos faz caminhar até o amanhecer.''

A extensão desses versos corrompe o sistema normal da estrutura emocional humana. É preciso ser muito forte para  não ser atingido esta catástrofe poética. Baudelaire via na morte um prazer mórbido acompanhado do torpor sempre, de um gole a mais. Quem quer a normalidade? Charles Baudelaire ansiava pelo supremo prazer, que para ele, só seria atingido de forma plena e satisfatória com a morte. Oh poetas que dignidade esta renúncia trás! Abdicação da vida é clara desmotivação e falta de ânimo para seguir adiante, sim, seus poemas arranham a alma e eternizam o prazer na morte. Baudelaire era um adepto das artes, de forma que usa a mitologia nas suas metáforas.

Baudelaire viveu e morreu para o belo. Entregou sua alma enfadonha cedo, vindo a sofrer da plenitude da satisfação, que nada mais é do que a causa justa dos desajustados e das inconformidades psicológicas presente na bela alma.

Mais adiante ele diz: ''É através da tormenta e da neve e da vaga/é o vibrante clarão de nosso escuro ser/albergue inscrito em livro e que nunca se apaga/feito para jantar e para adormecer...'' 

A escuridão do poeta era real, ela não se dissipava nos becos escuros e nem tampouco na claridade do dia, ela o acompanhava na mesa, nas galerias de sua mente desfilava sempre o tormento juramentado da nostalgia, que imperava da dor, na renúncia escancarada e no desatino também.

Em ''Alegoria'', o poeta diz: ''E quando vier, ó noite, o seu fim ilusório, há de encarar a morte sem nenhum gemido, sem ódio e sem rancor, como um recém-nascido.''

Baudelaire também se referia à morte como um navio na solidão "... e ao farol, que são como olhos, olhos que não olham, mas que brilham como consciência e resplandecem na noite, ora iluminando, ora plácido.'' 

Essas metáforas poéticas são muito comuns na literatura, onde o imaginário insiste em se apresentar como vínculo entre essas realidades duplas, essas alegorias do mundo taciturno dos escritores e poetas é quase uma constante até mesmo na literatura moderna, o imaginário insiste em se apresentar num contexto enfeitado para atingir o seu alvo, que é tocar o coração do leitor.

''Se alguma vez recuperar o vigor e a energia que já possuí então esbanjarei minha cólera através de livros horripilantes. Quero incitar toda a raça humana contra mim. Seria para mim uma volúpia que me compensaria por tudo.''(Benjamim W. 1989)

Segundo o autor, o livro ''As flores do mal'' de Baudelaire, foi o livro que se transformou no decorrer das décadas e foi um dos mais editados.

Baudelaire era o mestre da contemplação, só ele conseguia distorcer e fazer com que o leitor concluísse que só ele como escritor, ser o sujeito adequado para tal experiência.

''Fica por conta do acaso, se cada indivíduo adquire ou não uma imagem de si mesmo, e se pode ou não se apossar de sua própria experiência.'' (Benjamim W.1989 pág.106)

Se refere ainda à estreita relação entre Baudelaire e as massas urbanas, ''Essa multidão entre amorfa de passantes, de simples pessoas normais.''  (Benjamim W,1989.p.103)

Essas pessoas estão ocultas  e impressas no seu processo de criação, como impregnadas no poeta, o subúrbio e o contraste com os fantasmas humanos, suas dores e a busca pelos versos nos prostíbulos.

Segundo o autor, ''A experiência do choque é uma das que se tornaram determinantes para a estrutura de Baudelaire... intermitências entre imagem e a ideia , a palavra e o objeto ,nas quais a emoção poética de Baudelaire encontraria sua verdadeira sede.'' (Benjamim W.1989) 

Era o rei, era o mendigo, era o homem e era também o prostituto. Era o céu e o inferno, o fogo e a água. Era Baudelaire, o príncipe dos poetas, saído do mundo das trevas para enfeitar para sempre a literatura. Aí está ele!

A resposta da Psicanálise e  Zimmerman aos  pacientes somatizadores

A literatura conta episódios de relação drogas e criatividade:

A espantosa história é contada brilhantemente na biografia escrita por Ernest Jones (ver vol. I, pp.86-18- "episódio da cocaína’’ As citações a seguir foram extraídas dessa obra: Freud em meados de 1880, às voltas com trabalhos árduos de todos os tipos ,pobre, quase desconhecido e ávido por fama, ’’vivia constantemente ocupado no afã de granjear reputação descobrindo algo importante na medicina clínica ou patológica". Um dos esforços que o absorvia era a ideia de dar ao mundo uma droga maravilhosa. O "interesse secundário" que tanto o fascinava originava-se da ideia de que a depressão, lassitude e sofrimento neurótico deviam-se a uma deficiência no cérebro-uma neurastenia-, e que essa deficiência podia ser retificada pela administração de cocaína. De fato, a cocaína quase não poderia ser considerada como uma droga –meramente restaurava a pessoa a normalidade; assim escreveu sobre o ’’contentamento e duradoura euforia que em nenhum aspecto difere da euforia de uma pessoa saudável (...)." (Sacks,p.350/351) 

Aqui, não nos cabe fazer apologias, mas houve sim uma época em que as drogas psicotrópicas não tinham um poder tão devastador sobre a sociedade, mas mais sobre os sujeitos.

(...) Ai de você minha princesa quando eu chegar (...) verá quem é o mais forte, uma delicada mocinha que não come o suficiente ou um homem grande e arrebatado que tem cocaína no corpo... Em minha última depressão grave tomei coca novamente, e uma pequena dose elevou-me às alturas de uma maneira maravilhosa. Estou nesse exato momento ocupado em coligir a literatura para uma canção de louvor a essa substância magica. (Sacks, p.351)

Outro autor que utilizava álcool e drogas como refúgio substâncias ativadoras, o relato a seguir foi extraído de The varieties of religious experience,pp.304-8

"O passo seguinte em direção aos estados místicos leva-nos a uma esfera que a opinião pública e a filosofia ética há muito tem rotulado como patológica, embora a prática privada e certas inclinações líricas da poesia pareçam ainda atestar sua idealidade. Refiro-me à percepção produzida por intoxicantes, especialmente pelo álcool. O poder do álcool sobre a humanidade é inquestionável devido á sua capacidade de estimular as capacidades místicas da natureza humana, em geral pulverizadas pelos fatos frios e as críticas áridas das horas sóbrias. A sobriedade reduz, discrimina e diz não; a embriaguez expande, une e diz sim. Ela é, de fato, a grande devota da função do sim no homem... Não é por mera perversidade que os homens a perseguem. Para os pobres e iletrados, ela toma o lugar dos consertos sinfônicos e da literatura; e faz parte dos mistérios mais profundos da vida que os bafejos e  vislumbres de algo que imediatamente reconhecemos como excelente venham a ser concedidos a tantos de nós tão somente nas fugidias fases iniciais do que é em sua totalidade um envenenamento tão degradante(...)  (Sacks,p.353)  

"O paciente deprimido, em especial se a depressão for do tipo melancólica encontra-se em situação de suicídio.'' (Simonetti A.2011,P.122)

Depressão: ''A depressão diante da doença é uma reação esperada, por isso o psicólogo deve cuidar atenciosamente do seu paciente sem criticá-lo por estar deprimido, servindo mesmo de suporte enquanto ele atravessa essa fase difícil de sua órbita em torno da doença. Entretanto se a depressão se tornar muito profunda, ou muito prolongada, deixando de ser fase e virando e virando estado, deve-se então considerar-se a possibilidade de tratamento médico com o uso de antidepressivos.'' (Simonetti,A.2011,p.121)

O sofrimento: ''A simples presença do sofrimento, no entanto, indicava que o processo de análise estava próximo da origem do problema e o analista devia prosseguir naquela linha de pensamento. A descoberta de Freud à cerca da resistência dos pacientes levou-o a formular o princípio fundamental da repressão, descrito como o processo de expulsão ou exclusão de qualquer ideia, lembrança e desejo inaceitáveis da consciência, deixando-os no entanto apenas no inconsciente. Freud se referia à repressão como única explicação possível para a resistência. As ideias ou impulsos desagradáveis não eram apenas expulsos da consciência, como também forçados a permanecer fora. O terapeuta deve ajudar o paciente a trazer esse material reprimido para o consciente à fim de enfrentá-lo e aprender a lidar com ele.''(  Schultz e Schultz ,pag. 369)

A neurose da angústia: Como foi referido, trata-se de uma das formas de ''neurose atual'', sendo que o termo angústia,''angos'', que em latim, quer dizer ''estreitamento'', o que bem define aquilo que acontece nos seus habituais sintomas típicos. Constantes de um ''aperto'' pré cordial que lhe representa ser uma ameaça de um enfarte letal, em uma sensação de obstrução respiratória, como nas dispneias suspirosas, em uma dor que aperta a cabeça do sujeito á ponto de parecer que ele vai enlouquecer, etc...A neurose da angústia é a concomitante física da angústia de origem psíquica, sendo que o sintoma varia conforme o estímulo psicogêno, incide no sistema nervoso simpático (secreção adrenalítica , com taquicardia, hipertensão etc...,ou no parassimpático, uma lentificação generalizada , como bradicardia, hipotenção, etc...) ( Zimmerman David. pag.248)

"Tais crises fóbicas também são caracterizadas por aqueles sintomas típicos descritos na neurose da angústia. Daquela época para cá, começou haver uma discriminação mais refinada entre a crise de angústia fóbica e a crise de transtorno do pânico, pelo contrário, não obedece a claros e específicos fatores desencadeantes e habitualmente costuma ter uma excelente resposta clínica ao uso adequado da moderna farmacoterapia da família dos anti-depressivos... assim não era raro acontecer que pacientes diagnosticados como ''fóbicos'', cuja angústia não desaparecia no curso de uma análise de longa duração, apresentassem uma dramática resposta de melhora poucas semanas após serem medicados adequadamente por psiquiatras competentes.’’  (ZImmerman, David. pág. 249)

Na Teoria de Jacques Lacan, o autor diz: ''... uma felicidade modesta. Na verdade, a psicanálise descobre que nós, os seres falantes, afinal nos contentamos com muito pouco. Vocês sabem a felicidade efetiva, quero dizer, a felicidade concretamente encontrada é , de fato , uma um satisfação extremamente limitada, obtida com poucos meios. Qualquer outra satisfação que ultrapasse esse limite é o que a psicanálise lacaniana chama de gozo do outro. De um ponto de vista ético, a posição Psicanalítica é subversiva, porque, diversamente de algumas correntes filosóficas que reconhecem no homem a busca da felicidade como busca do bem supremo, a psicanálise diz: certo, o ser humano aspira o bem supremo, desde que admitamos que, mal iniciada a busca do ideal, este se transforma na realidade concreta de uma satisfação muito reduzida... (Nasio,1993, p.34)

Aqui concluímos dizendo deste prazer e desta felicidade sempre buscada e desejada, mas que para alguns, ela sempre estará bem melhor representada se for no papel , sim, muitas vezes nem sabemos o que fazer com a felicidade, e preferimos apenas observá-la. ''O ser falante não quer o gozo desmedido, recusa-se a gozar, não quer e nem pode gozar.'' (Nasio,J.D.1993, p.35)

 

Conclusão

Em todos esses relatos sobre a psicanálise, o inconsciente e os poetas que aqui apresentamos brada mais forte a vontade de uma viagem de retorno a uma bela época, época que não se desejaria nunca que se acabasse, mas como não foi possível perpetrar esse tempo, os que tem conhecimento da época de ouro da literatura, ficarão felizes com este artigo.

O papel do inconsciente aqui, é ser um pouco vago, é somente o depósito de coisas velhas como Freud mencionou lá no começo, onde armazenamos os traumas, as lembranças menos solicitadas e tudo aquilo que não queremos trazer à tona com muita frequência, mas o papel da psicanálise é muito importante, pois é ela quem conversa com os poetas em seu divã confortavelmente instalados.

Hoje, eles desafogariam suas mágoas e teriam, senão mais qualidade de vida, melhores perspectivas ao tratar suas angústias e suas dores mais íntimas.

Os poetas foram criaturas iluminadas que com sua força e clareza percorreram pradarias imaginárias e sofreram como ninguém todo o infortúnio de uma época que doravante dolorosa e questionadora, empurrava para o calabouço do desespero as mentes iluminadas e infelizes, os que tinham a noção da via dolorosa que era lidar os sentimentos, os amores e a fúria de viver.

Todo aquele pessimismo da época atormentava e aturdia quem ousava se embrenhar nas sentimentalidades frívolas de levar uma vida regada a boemia e artística, o preço era alto e era difícil retornar para as fronteiras da realidade depois que se experimentava um mundo de paixões e boemia, porque esses amores nunca eram correspondidos e se o eram, eram proibidos e eram as prostitutas que lascivamente sustentavam essa gana de amar.

Esses espíritos doentes de uma época de rara beleza, padeciam  do desespero de amor, essa pressa de amar, de concretizar esses amores, amor que adoecia e escancarava uma dor e uma angústia que parecia não ter fim. 

O próprio embalsamento da relação negando a realidade como forma de proteção e autopreservação, direcionando para a escrita, atingia-se o alvo.

O que restava aos poetas além dessa dor toda, esse tormento em desespero era transmitir ao papel todo o delírio de suas paixões, criando suas obras que de rara beleza são. Uma marca registrada daquela época, os rostos encovados daqueles que desejavam padecer, era uma marca magistral da dor que cada um desejava sofrer. Cada um desejava ser a alma que tinha o privilégio de sofrer aquele amor. O amor nunca esteve tão em alta conta, tão desejado e buscado como naquela época e naquelas tabernas!

O álcool, como um pano de fundo dessas loucas alegrias também iludia, mas o amor consumia como um vorás e esfomeado vazio, fazendo vítimas os sonhadores escritores que bebiam desse néctar sim, porque era bom, e porque era preciso! 

Esse desgosto que eles provavam era um desgaste emocional grande, todavia era preciso suportar a dor da existência, e esse fardo cabia nas costas dos poetas!

A solidão e o abandono foi sempre companheira dos incompreendidos, daqueles que não se encaixavam. 

No caso de Goethe, sente-se um abandono e uma profunda angústia por não ser reclamado como sujeito em determinada época de sua existência, não que ninguém o tenha amado, mas é o amor de quem amamos que reclamamos! 

É esse amor que desespera e que consome as cercanias do desespero e devora como um carcinoma maligno o íntimo de suas vítimas, não restando no final outra alternativa, senão trocar este prazer por uma realidade menos desejada, mas aceitável de um ponto de vista sexual.

A importância do olhar do outro sobre nós é algo engrandecedor, este olhar que cuida se importa e protege é muitas vezes um lenitivo para as doenças da alma.

Sabemos que nos desenvolvemos melhor e de forma mais saudável quando temos amor, sim, o amor completa e auxilia o ser humano muito mais do que um remédio. Uma pessoa que desenvolve sua capacidade de amar, mas em nenhum estágio de sua vida foi amada de forma real, seja por seus familiares, seja por uma outra pessoa, por certo tenderá a ser mais desafortunada em matéria de qualidade de vida e relacionamentos.

Sem ter como prosseguir sozinho, buscamos no outro a nossa completude, quando isso só se dá através de relações fugidias e mundanas, não aquecemos a chama do verdadeiro amor e buscamos mais e mais!

 A solidão faz o sujeito réu e refém, doente e cativo em todas as áreas. Seremos bem sucedidos ou não, mas seremos mais completos se tivermos o amor como destino.

Então, que outros autores também tenham a audácia de despertar outros poetas e trazê-los à tona para que sejam objetos de  discussão na  modernidade e sejam proclamados e lembrados por seus sofrimentos grandes e suas obras extraordinárias.

Acordai, Goethe, acordai Baudelaire! 

 

Referências Bibliográficas:

Baudelaire,Charles. Les Fleurs du mal, Ed. Martin Claret,2003, p. 68-vol.I

Benjamim,Walter. Charles Baudelaire, Um lírico no auge do capitalismo,1989.1º Ed.São Paulo

Cinco lições da Psicanálise, Leonardo da Vinci e outros Trabalhos,p.149 2º cap.

H .Haidt de S Melo. Acta de Psicanálise,1987,Linha Gráfica Ed.Brasília,DF

Ludwig,Emil. Goethe, História de um Homem,voII,Trad. Gilberto Miranda,1940.

Lopez, Emílio Mira y . Os Fundamentos da Psicanálise, Trad. Joubert T. Barbosa. RJ.

Mello, Maurano, Denise. Nau do desejo, Um percurso da ética de Freud a Lacan, 1995,Rio de Janeiro

Moreno. Levi Jacob, e Kukier. Rosa, 5 Palavras, Vocabulário de Citações do psicodrama, da Psicoterapia do grupo, do Sociodrama e da Sociometria, São Paulo, Àgora , 2002, p.72.

Nietzsche, Os pensadores-Vol,32,2° ed.-1979

Nasio, Juan David. Cinco lições sobre a Teoria de Jacques Lacan, Trad. Vera Ribeiro, Rio de Janeiro,1993

O livro de ouro da Psicanálise ,O pensamento de Freud Jung, Melanie Klein, Lacan, Winnicott e outros, Rio de Janeiro,2007

Schultz,P Duane & Schultz,Sdney Ellen,História da Psicologia Moderna,Trad. da 9º ed.  Norte Americana.

Sacks, Oliver. Tempo de despertar, São Paulo, Companhia das letras, 1997 págs.255/256,350,351,352 São Paulo.

Simonetti, A. Manual de Psicologia Hospitalar, o mapa da doença-6ºed.São Paulo,2011

Tortosa,Francisco,Cristina,História de La Psicologia.Mc Graw-Hill,2006

*Zimmermam, David. E. Fundamentos Psicanalíticos, teoria  técnica e clínica

www.infoescola.com/biografias,Charlesbaudelaire

*Estudante de Psicologia-Universidade Federal de Rio Grande-FURG

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