Pulsão de Morte uma construção metapsicológica de Freud

Por Mauro Costa1

Após ter formulado uma teoria pulsional que estava sob o domínio do Princípio do Prazer e Princípio da Realidade, Freud começa a perceber que essa teoria não era capaz de explicar alguns comportamentos, como aquele observado em soldados que participaram da 1ª Grande Guerra e que tendiam a repetir experiências dolorosas.

  

Assim, Freud constata que tais comportamentos não eram regidos pelo princípio do prazer e que sua teoria pulsional resulta insatisfatória para explicar esses casos de repetição de experiências dolorosas.

Diante dessa constatação, Freud apresenta em seu texto, Para Além do Princípio do Prazer (1920), uma reformulação de sua teoria das pulsões, introduzindo o conceito de pulsão de morte como uma oposição à pulsão sexual e à pulsão de autoproteção, que passam a serem unificadas como pulsão de vida. 

Para fundamentar a pulsão de morte Freud vai buscar auxílio na biologia onde, de uma forma um tanto quanto forçada, “deduz" que toda a vida tem uma origem inorgânica e que toda forma de vida tende a voltar para essa condição. Desta maneira, a pulsão de morte se contrapõe à pulsão de vida e tende para a redução completa das tensões, reconduzindo o ser vivo ao estado "originário" inorgânico. 

A partir desta perspectiva, as pulsões de morte seriam definidas como traumáticas, inicialmente voltadas para o interior, tendendo à autodestruição, e secundariamente dirigidas para o exterior, manifestando-se então sob a forma da pulsão de agressão ou de destruição. Outra característica inerente à pulsão de morte seria a sua tendência à repetição.   

Em 1919, Freud havia escrito o ensaio Das Unheimliche, que teve seu título traduzido para o português de diferentes formas, como: o estranho, o infamiliar, o inquietante. A dificuldade em encontrar uma tradução única para o termo não é de causar espanto, visto que o próprio ensaio começa com Freud fazendo uma pesquisa sobre possíveis traduções para o termo Das Unheimliche em diferentes línguas. Tal pesquisa é acrescida de uma investigação semântica e etimológica sobre quais seriam os possíveis significados e origem do termo. Essa  investigação termina por revelar um paradoxo da ambivalência daquilo que é familiar e infamiliar simultaneamente. 

Na segunda parte do ensaio, Freud desenvolve uma apreciação investigativa sobre o paradoxo mencionado, buscando identificar onde e como esse sentimento peculiar pode ocorrer. Começa se aproximando de textos da literatura fantástica como o conto O Homem da areia, de Ernst Hoffmann. Segue, expandindo sua exploração para vários exemplos de situações onde o estranho infamiliar se manifesta. Um dos exemplos que cita é o caso de equívocos pessoais, como quando, certa vez, em viagem na Itália, chega acidentalmente a uma praça onde havia um bordel e, ao tentar se desviar, retorna por duas vezes ao mesmo local, ou, ainda, por ocasião de uma viagem de trem, quando está sozinho em um vagão, se levanta à noite e se depara com um outro homem no reflexo, infamiliar,  mas que, por fim, era ele mesmo. 

Assim, aglutina diversas experiências como tradução desse mesmo afeto, qual seja, a experiência infamiliar e, ao aprofundar no exame da aparente contradição entre algo que é familiar e ao mesmo tempo infamiliar, se aproxima analogamente a um IN-COMODO, algo que se encontra dentro do cômodo, um lugar da casa e, portanto, familiar, mas que, ao mesmo tempo, incomoda, causa certa estranheza e desconforto, sensações de angústia, confusão, estranhamento e até mesmo de terror. 

Como causa para esses afetos Freud elenca uma diversidade de possibilidades a partir de experiências com pessoas, coisas, eventos e situações, dentre as quais podemos citar magia, fábulas, onipotência de pensamentos, superstição e crenças. 

Por fim, Freud, na terceira parte do ensaio, vai se dedicar à interpretação metapsicológica desses afetos inquietantes que foram descritos anteriormente,  elencando hipóteses sobre a origem desses acontecimentos com intuito de justificar essa sensação de angustia e estranhamento. Assim, ele formula algumas possibilidades teóricas que servem de embasamento psicanalítico para de que maneira esses eventos se relacionam com o sujeito apresentando como possíveis elos de ligação às angústias infantis, os complexos reprimidos, a angústia de castração, a regressão ao ventre materno, a neurose obsessiva e, dentre todas, a destacada como principal: o Recalque. 

Em um outro texto de 1919 entitulado Bate-se numa criança, Freud vai se dedicar ao estudo da origem das perversões sexuais e das fantasias. Freud já havia se aproximado do tema da Perversão em Três Ensaios da Sexualidade, porém nesse artigo vai se aprofundar no assunto estabelecendo uma correlação entre as perversões e as fantasias. 

Inicialmente, é necessário esclarecer que Freud considera como perversão as formas atípicas de obtenção de prazer sexual, ou seja, tudo que foge do que chamava de meta sexual normal, que, para ele, era a relação sexual pênis-vagina. Dessa maneira, seriam consideradas como perversões os fetiches, o exibicionismo, a pedofilia, a ninfomania, o voyerismo, o sadismo e masoquismo, dentre outros. 

Da mesma forma, Freud considera em seu texto que Fantasia é uma ideia, representação ou situação imaginada ligada a sentimentos elevados de prazer, podendo ser reproduzida inúmeras vezes, de maneira inconsciente ou consciente.

Outra questão que merece destaque nesse texto é o fato de nele estarem presentes os temas centrais de toda a teoria psicanalítica de Freud: sexualidade, infância e pulsão. Nesse texto, Freud vai utilizar alguns casos clínicos para levar a termo sua discussão sobre a estrutura das fantasias e a etiologia das perversões. Desta forma, centra sua análise na relação entre o paciente neurótico e a fantasia perversa. 

Para Freud, todas as perversões derivam do complexo de Édipo em relação ao amor incestuoso, que é o núcleo das neuroses. Quando o Édipo se resolve, permanece a carga emocional que fica como uma reminiscência, carregada com um sentimento de culpa a ela ligado.

Em relação à fantasia infantil da surra contida no texto, Freud deu maior atenção àquelas ocorridas com as meninas, de modo que lista 3 fases evolutivas dessas fantasias, sendo a 1ª e a 3ª de caráter sádico e consciente e a 2ª de caráter inconsciente e masoquista.  

Detalhando cada uma dessas fases, Freud evidencia que na 1ª fase a fantasia é de que o pai está batendo em outra criança. Nesse caso, a fantasia é de qualidade consciente na qual quem bate é o pai, quem apanha é a outra criança odiada pela filha, e a satisfação da filha é sádica pelo sentimento de triunfo por ser a preferida do pai.

Na 2ª fase, a fantasia é que o pai bate na filha. Aqui a qualidade é consciente e quem apanha é a própria filha que narra. Para Freud, essa era a fase mais importante que tem origem no sentimento de culpa da criança. Essa fase ocorre quando o recalque é realizado e o sentimento de culpa transforma o sadismo em masoquismo. O desejo original que provoca a fantasia era o de ser possuída fisicamente pelo pai, que, ao ser reprimido em sua origem foi deslocado para ser submetida fisicamente ao pai resultando na satisfação de cunho masoquista. Tal situação evidencia a transformação do sadismo em masoquismo por regressão da libido, através da influência do sentimento de culpa.

Por fim, a 3ª fase na qual outros batem em outras crianças. Nesse caso, a qualidade é consciente, quem bate é o adulto em posição de autoridade e quem apanha são outras crianças, preferencialmente meninos. O prazer aqui é novamente sádico e também masoquista porque a criança que apanha também representa quem fantasia.

Os textos freudianos aqui abordados fazem parte de uma série de publicações que ficaram conhecidos como Artigos Metapsicológicos e vale ressaltar que a reformulação da teoria pulsional constitui um importante marco que representa uma mudança significativa na teoria e prática psicanalítica. Contudo, o conceito de pulsão de morte foi um dos quais Freud não conseguiu impor aos discípulos e à posteridade, sendo, portanto, objeto de controvérsia entre muitos psicanalistas resultando em uma questão polêmica que perdura até hoje. 

1Aluno do Programa de Formação da Escola Paulista de Psicanálise-EPP.

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