Das revoluções e insubmissões de Melanie Klein sobre o pensar e o fazer psicanalítico

Por Maria Teresa Manfredo 1

A psicanálise, que em princípio era uma técnica criada para ser aplicada somente em adultos, passou na primeira metade do século XX por um conjunto de modificações, abarcando também a análise voltada para as crianças. A grande responsável por essa inovação técnica e teórica foi Melanie Klein.

Com efeito, essas transformações não ficaram restritas ao público infantil e, rapidamente, tornaram-se pilares para também balizar novos olhares sobre o funcionamento mental de uma maneira ampla.

Em “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, livro que reúne textos de Klein de 1921 a 1945, podemos verificar o modo como a autora descreve o início e a evolução da sua atividade analítica dedicada à infância. Naquela época, a análise voltada para esse público era considerada algo inferior dentro da psicanálise; acreditava-se que o trilhar analítico que poderia ser realizado com uma criança pequena deveria ter apenas um caráter educativo, aproximando-se da pedagogia. Isso porque, de acordo com a técnica freudiana, a psique das crianças ainda se encontraria em estado incompleto – já que o Complexo de Édipo não estaria formado até os sete anos de idade, aproximadamente, segundo o autor.

Ao longo do desenvolvimento de seus estudos analíticos, clínicos – e aqui podemos destacar, por exemplo, o capítulo “Princípios Psicológicos da Análise de Crianças Pequenas”, texto escrito em 1926, presente no livro citado acima – Klein defende que é, sim, possível a análise das crianças com cunho estritamente interpretativo, ou seja, seguindo os padrões da psicanálise.

Ainda tendo como referência o livro “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, é interessante ressaltar que, até a década de 1930, Klein traça um trajeto intelectual e analítico em que o uso das noções freudianas das fases do desenvolvimento psíquico (oral, anal, fálico, latente, genital), bem como do Complexo de Édipo e de castração, estão muito presentes.

Pouco a pouco, com o avançar de seus estudos e observações clínicas, Klein começa a fazer uma série de descobertas que contradizem as teorias básicas de Sigmund Freud, sobretudo no que tange às fases de desenvolvimento. Por exemplo, ela começa a observar que mesmo em crianças muito pequenas, menores de cinco anos de idade, pode ser observado o Complexo de Édipo.

Com isso, a autora traz a luz instâncias como a do Superego arcaico – ideia segundo a qual a força do Superego é, antes de tudo, pulsional, biológica e provém totalmente do sadismo inerente a cada bebê quando se relaciona com o mundo a sua volta. Klein identifica, ainda, um certo contraste entre a rigidez que o Superego pode desenvolver e a tolerância dos pais. Mas, para a autora, a formação do Ego não encontraria sua base nas interdições familiares. De uma forma um tanto revolucionária, porque muito inovadora, Klein argumenta que o que exerce grande influência nessa formação não seriam os pais reais, mas o que ela chama de imago dos pais, criada no psiquismo do bebê desde os primeiros meses de vida. Daí teríamos que a noção de Complexo de Ego para Klein ocorre de maneira muito distinta, já que muito mais tenra em termos etários, do que a noção de Complexo de Ego em Freud.

Além de outros pontos importantes, vale destacar que, em Klein, diferentemente do que ocorre na obra de Freud, a questão moral, ou a influência social e cultural, ficam em plano secundário. Assim, pouco a pouco, Klein acaba estabelecendo a matriz das relações de objeto como pressuposto principal dentro da psicanálise. Dito de outro modo, o que passa a importar em psicanálise a partir de Klein não é a libido, tal qual postulava seu antecessor teórico de maior peso, Freud; importa, sim, como o sujeito se relaciona com outros objetos (e por objetos podemos entender as pessoas, as coisas, os acontecimentos, as situações... Tudo aquilo que dá forma ao mundo e que passa pelo juízo da criança). Ora, em termos de paradigma psicanalítico, isso significa uma expressiva revolução.

Ainda assim, é possível de se perceber na obra de Klein um certo receio de ser expulsa do círculo psicanalítico da época, já que suas descobertas confrontavam as de Freud, grande fundador e portador das teorias psicanalíticas naquele período. Dessa forma, é possível fazer a seguinte leitura em muitos dos escritos de Klein, principalmente até meados da década de 1930: a autora se ocupava de uma tarefa ambígua; de um lado, refazer a teoria psicanalítica frente às suas descobertas e, de outro, não discordar diretamente de Freud.

Em suma, devemos destacar que, até Melanie Klein, a psicanálise pensava desenvolvimento psíquico tal como Freud o imaginara, qual seja, em termos de fases de desenvolvimento. Paulatinamente, ao se tornar mais independente intelectualmente em relação a Freud, Klein desenvolve a noção de posição. Por conseguinte, podemos afirmar que a grande consolidação kleiniana em termos teóricos e técnicos se dá entre 1935 e 1946, com estabelecimento completo do seu famoso sistema de posições. Nele, basicamente não teríamos mais fases lineares de desenvolvimento psíquico e sim a ideia de que ora o sujeito está numa posição (esquizo-paranoide) e ora noutra, (posição depressiva). Enquanto seres humanos, nossas mentes estariam sempre vibrando numa dessas duas posições, tal qual um pêndulo, a depender tanto da internalização dos objetos que tivemos em nossas experiências enquanto bebês quanto de nossas relações objetais no momento presente.

Dito isso, no que tange às diferenças e aproximações entre a forma de condução dos casos clínicos entre Freud e Klein, poderíamos afirmar que, em sua escrita, Klein expõem mais os detalhes e meandros dos casos clínicos, suas dúvidas, demonstrando, por vezes, que o caminho interpretativo da mente humana pode não ser algo tão assertivo quanto os textos de Freud podem sugerir. Também, devemos observar que Klein se afasta da descrição quase investigativa que muitas vezes Freud imprimiu na exposição de seus casos clínicos; com isso, a psicanálise passa cada vez mais a ganhar em termos de complexidade.

1Aluna do Programa de Formação da Escola Paulista de Psicanálise-EPP.

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