A liberdade kleiniana de sermos tudo ao mesmo tempo agora

Por Lia Stella Paiva Fontenele 1

Melanie Klein teorizou que a dinâmica de nossa psiquê acontece num movimento pendular que envolve um conjunto de elementos como relações objetais, fantasias inconscientes, ansiedades, ego, defesas, infância arcaica permeados pelas pulsões de vida e morte. Ela nomeou essa dinâmica de Teoria das Posições.

Posição para Klein é um movimento intrapsíquico que ocorre na infância mais rudimentar, acompanha o sujeito ao longo da vida e é responsável por demarcar sua relação com o objeto. Ela dividiu essas posições em duas: Esquizo-Paranóide e Depressiva.

Klein se denominava freudiana, ela se aprofundou na Psicanálise do mestre, mas criou suas próprias bases. Foi pioneira na Clínica Analítica Infantil com o uso de atividades lúdicas, jogos infantis e brincadeiras de modo a buscar correlação entre o funcionamento psíquico e as relações de objeto. Ela concentrou seus estudos na infância mais primitiva, tendo como ponto de partida a agressividade, ao contrário da teoria freudiana que teve a sexualidade como tema determinante em seu trabalho. Outro ponto de divergência em relação à teoria freudiana se deu sobre os estágios de maturação biológica do sujeito. Ele postula que esses estágios são acompanhados por fases psicossexuais que têm início no nascimento e se desenvolvem até a fase adulta.

Para Freud, o desenvolvimento psicossexual evolui de forma linear, dimensionado em 5 fases distintas, denominadas: oral, anal, fálica, latência e genital. Com exceção do período de latência que não é um estágio sexual e sim de repressão dos desejos inconscientes, as demais fases são a expressão da libido em diferentes partes do corpo.

Diferente da linearidade de Freud, Klein pensa o modelo de Posição como um movimento de dentro e fora, de entra e sai, de um lado e outro. Funcionamos numa dinâmica oscilante, num movimento pendular que surge no nascimento e nunca mais nos abandona. De um lado a posição depressiva, do outro a paranoide, num constante embate. A diferença é que nesse duelo de forças não existe ser somente isso OU aquilo, as posições não são excludentes, elas coabitam. A ideia é sobreviver ao ser isso E ser aquilo ao mesmo tempo, com razoável equilíbrio. Aceitar que somos seres paradoxais, incoerentes por natureza.

O grande desafio é que, por vezes, o pêndulo tem o deslocamento muito acentuado. A psicanálise entra como um desacelerador do processo, nunca como um freio. Joga luz nas ansiedades e respectivos mecanismos de defesa desencadeados por cada uma das posições.

Em seus estudos sobre a psique infantil, Klein inferiu que o bebê já nasce mergulhado na posição Paranoide como consequência da imaturidade do EGO. Ele permanece nessa posição até os 5 meses de vida, aproximadamente. A 1ª manifestação da consciência é de ansiedade, de medo porque é a 1ª relação do bebê como o mundo externo, representado pelo seio materno ou objeto parcial como conceituou Klein. Essa ansiedade é persecutória, aqui vige a ‘Lei de Talião’: o que eu fizer com esse seio voltará para mim. O bebê neste momento está apenas preocupado em se salvar e salvar o objeto bom. Como o EGO está imaturo e fragmentado, o seio também está. Existe o seio bom e o mau e são excludentes. O bom gratifica e o mau frustra.

Para se defender da persecutoriedade inerente à posição Paranoide, alguns mecanismos são acionados como: idealização, projeção, introjeção, cisão, negação e identificação projetiva. A idealização é uma defesa que leva o objeto para os extremos para torná-lo mais fácil de manejar. Com esse afastamento fica claro qual objeto que deve ser atacado e qual deve ser preservado.

Nos 1os momentos de vida, o EGO tenta guardar a ideia de si mesmo apenas como lugar de satisfação e sentimentos bons. Tensão e desprazer são projetados para objetos externos que então são vistos como persecutórios. Essa projeção assim como a introjeção servem como atenuantes para o instinto de morte. A introjeção de boas sensações e vivências torna possível a formação do EGO. Já a introjeção de experiências ruins tende a cindir o EGO.

A cisão é uma defesa maniqueísta. Divide o bom do mau, o joio do trigo. Essa divisão atua para salvar o sujeito do perigo que ele imagina ser constante. Já a negação é a forma que o EGO encontrou para se relacionar com o objeto mau. Esse mecanismo é muito comum em processos de luto, perdas. A psiquê nega os objetos, despreza-os de forma a não entrar em contato com a dor.

Por último, a identificação projetiva apesar de não ser um conceito original de Klein entra como ponto alto na sua Teoria. Nessa defesa, o bebê coloca uma parte de seu EGO num objeto. Essa projeção pode ser tanto da parte boa como da ruim. Tem como característica ser anal porque projeta numa tentativa de controlar o objeto. Esse controle é o que difere a identificação projetiva da projeção. Essa defesa aumenta a persecutoriedade por saber que uma parte de mim está no outro e me sinto ameaçado.

A posição Depressiva começa a ser desenhada por volta dos 6 meses de vida. Ela tem como característica uma maior aproximação com a realidade. Enquanto a preocupação na Esquizo-Paranoide é com o objeto parcial, a Depressiva se ocupa do objeto total, ou seja, a mãe. Aqui há a integralização do EGO, anteriormente fragmentado. A ansiedade nessa posição é pesarosa, uma angústia de colocar em perigo o objeto que foi incorporado, teme por arruinar esse objeto amado.

Considerando que a natureza das defesas nessa posição é de reparação, os mecanismos de defesa se apresentam abrandados. A clivagem, projeção e idealização diminuem de intensidade. Nenhum objeto é agudamente bom ou mau. Há uma aproximação desses pólos opostos, mas ainda assim existe ataques aos objetos maus porque a ansiedade ainda se faz presente.

Já a introjeção nessa posição é expandida. Quando a criança passa a ter uma maior consciência de si, ela já percebe a mãe como um objeto apartado dele e quer introjeta-lo como forma de se fundir com o objeto amado. Mais importante que preservar o EGO é preservar o objeto bom. Nessa posição a criança aprende a amar e a ter sentimentos de gratidão.

1Aluna do Programa de Formação da Escola Paulista de Psicanálise-EPP.

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