Dora: paradigma da transformação da técnica psicanalítica

Por Luiz Barbosa 1

O caso Dora é um episódio central na história da Psicanálise. Embora Freud afirme, ainda no prefácio do texto de sua comunicação, que não foi possível atingir a “meta fixada”, em função da interrupção precoce do tratamento

(“por vontade da paciente”), o caso foi o primeiro em que se registrou o uso de certos procedimentos técnicos que viriam a ser definitivamente incorporados à clínica, além de reafirmar, categoricamente, a necessidade do domínio dos postulados de A Interpretação dos Sonhos para o pleno exercício da Psicanálise, e a correção das inferências apresentadas nos seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

Isso não significa, entretanto, que aquilo que seria fixado como a técnica psicanalítica tenha sido aplicado em sua exatidão ou completude. É verdade que, no tratamento de Dora, Freud lança mão da associação livre, “descoberta” pelo psicanalista quando de sua percepção das limitações da hipnose e da sugestão a essa associada. Porém, à medida que o relato do caso avança, é possível perceber um Freud vacilante na adoção das próprias inovações técnicas que busca introduzir. A leitura do relato, aliás, permite vislumbrar, em mais de uma passagem, uma espécie de ansiedade em preencher as lacunas dos relatos da paciente com sugestões e apressadas conclusões relacionadas à sexualidade de Dora.

De fato, tem-se a impressão de que Freud, embalado pelas descobertas e conclusões de sua pesquisa, adota uma postura proselitista, que é possível perceber mesmo em sua comunicação do caso. É como se o psicanalista, invertendo uma lógica que sempre lhe pareceu cara, deixasse que a tese – neste caso, a afirmação da técnica de interpretação dos sonhos e as conclusões acerca da importância da sexualidade na etiologia das neuroses – antecedesse a análise da narrativa da doença de Dora e lhe ditasse o sentido das conclusões, a despeito dos fatos em si.

Assim, Freud, em substituição à hipnose e à sugestão, adota a livre associação como método de trabalho. Mas, ao invés de adotar a neutralidade e a abstinência que viria a enfatizar em seus textos posteriores, aqui o psicanalista, tão logo percebe no relato da paciente algum indício que aponte no sentido de seus postulados teóricos, apressa-se em entabular conclusões, antes mesmo de deixar que outras falas, ações ou reações de Dora permitam descortinar suas verdadeiras razões. Quando a jovem relata, por exemplo, o episódio em que o senhor K. a beija nos lábios em sua loja, imediatamente Freud conclui de que o comportamento de Dora é “completamente histérico”, além de tecer uma série de considerações sobre um possível deslocamento da sensação genital, numa incisiva tentativa de ligar a reação de nojo referida pela moça a uma problemática sexual ainda impossível de se afirmar, de acordo com a própria exposição do caso.

Por outro lado, é preciso que se diga, a livre associação e a técnica de interpretação dos sonhos mostram seu valor como ferramentas do trabalho clínico. De fato, uma e outra se combinam para fazer avançar o tratamento quando Dora leva os sonhos para o divã. É a oportunidade para Freud pedir-lhe que busque falar tão livremente quanto possível acerca das memórias oníricas e das impressões que lhe causaram, uma vez que ele já instruíra a paciente na interpretação de seus sonhos. Ao mesmo tempo, seria uma oportunidade para que o próprio Freud colocasse em prática o que ele viria denominar atenção flutuante e as já referidas neutralidade e abstinência, o que não ocorreu de todo. A interpretação do segundo sonho de Dora, infelizmente, não foi concluída, visto que o tratamento foi interrompido pela paciente.

Como se vê, a importância do caso Dora está em sua particularidade de ser o primeiro relato de caso de Freud em que está uma relatada uma tentativa de abandonar a técnica sugestiva da hipnose e a de enfrentar um caso clínico armado com a técnica de interpretação dos sonhos e os postulados teóricos acerca do papel da sexualidade na etiologia das neuroses – “as manifestações patológicas são, por assim dizer, a atividade sexual dos doentes”.

Além disso, Freud chama a atenção para outro fenômeno observado durante o tratamento de Dora, que ele vai chamar de transferência e que considera “a parte mais difícil do trabalho”. Isso porque essa reedição dos impulsos e fantasias do paciente, além de inevitável, precisa ser apreendida pelo psicanalista “quase sem ajuda, com base em coisas mínimas e evitando inferências arbitrárias”. Mas é também imprescindível ao sucesso do tratamento, posto que somente “depois que ela é resolvida o paciente se sente convencido da validez dos nexos construídos na análise”.

Nesse sentido, cabe perguntar: qual foi o manejo da transferência por Freud no caso Dora? Visto que o tratamento foi precocemente interrompido, qual o alcance da solução obtida? Se se toma a desistência de Dora como índice do fenômeno, pode-se concluir, além da ocorrência de uma transferência negativa dela para com o analista, que houve falha na forma como ele lidou com a circunstância? Considerando-se a importância que Freud deu à transferência em seus trabalhos posteriores, pode-se concluir que esse percebeu a necessidade de melhor compreender o fenômeno e de aprimorar a técnica no que tange à sua manipulação, tendo em vista o ocorrido no tratamento de Dora. Não por acaso, entre os trabalhos publicados posteriormente ao caso Dora, Freud demostra clara preocupação em municiar os médicos que se dedicam, e virão a se dedicar à Psicanálise, com um verdadeiro arsenal de recomendações para que evitem cometer o mesmo erro que ele próprio cometeu. Nesse sentido, pode-se afirmar que, no caso Dora, Freud não maneja corretamente a técnica psicanalítica que vinha elaborando e que seguirá aperfeiçoando nos anos seguintes.

De fato, no que diz respeito ao modo como lidou com a transferência da paciente em relação a ele, o analista deixou a desejar, fazendo com que a jovem abdicasse do tratamento. Mas, além disso, diferentemente do que viria a afirmar posteriormente, Freud falhou ao lidar com as resistências do inconsciente da paciente. Ora, se a transferência é uma reedição de sintomas, não passa de um mecanismo das forças de resistência em seu trabalho de recalcamento. Como vencê-lo? De acordo com o próprio Freud, a solução está na fórmula “recordar, repetir, elaborar”. Para que o paciente recorde o que repete sob a forma da transferência e, finalmente, elabore, é preciso, antes, que a resistência que está na base do processo se lhe torne familiar. Somente assim ele pode vir a conhecê-la e, através do trabalho de análise, elaborar. A falta de tato de Freud, ao lidar com a transferência de Dora em relação a si, roubou-lhe essa oportunidade.

Aparentemente, a despeito de afirmar em seu texto que o caso não foi completamente solucionado em função da desistência de Dora, Freud parece ter tomado esse caso para si como um paradigma. Quase como um modelo de fato, o caso Dora serviu para que, a partir dele, o psicanalista avançasse na reformulação da técnica – que já vinha em reconstrução desde seu rompimento com Breuer e o abandono da hipnose e da sugestão – e elaborasse uma série de postulados teóricos e preceitos para atuação na clínica, muitos dos quais ainda em uso na clínica contemporânea. Dessa forma, pode-se dizer que, na condução do caso Dora, Freud respeitou parcialmente apenas as regras da técnica psicanalítica, mas, paradoxalmente, esse caso foi essencial para a elaboração da técnica tal como a conhecemos hoje.

1Aluno do Programa de Formação da Escola Paulista de Psicanálise-EPP.

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Comentários

  • Guest (MARIA INES BERLOFFA)

    Parabéns pelo texto questionador. Corajoso!