Dica de Filme: A professora de piano

Por Ale Esclapes¹

Direção: Michael Haneke 
Atores: Isabelle Huppert 
(Erika), 
Benoît Magimel (Walter), Annie Girardot (mãe) 
Plataforma: MUBI

Assisti “A professora de piano” no mesmo dia em que assisti “A avó” de David Linch, o que me desencadeou uma série de reflexões acerca do papel da psicanálise e da análise em geral na construção pelo diretor e posterior apreensão por parte do espectador do filme. No filme de Haneke, a personagem principal Érica apresenta comportamentos que poderiam ser chamados comumente de sadismo, masoquismo, automutilação, incesto entre outros. Erika tem uma relação maquiavélica com seus alunos, incestuosa em termos psicológicos com sua mãe, seu pai morreu louco em um hospício, entre outros detalhes que Haneke nos deixa entrever. Algumas perguntas que surgiram: como esse personagem foi construído? Como se espera que esse personagem seja apreendido pelo expectador, se é que se espera? Entre esses pontos, assumo deliberadamente que possa estar a psicanálise, e a partir dessa liberdade que tomo, posso pensar em algumas questões sobre a diferença entre “explicar” e “descrever” em psicanálise. Só para deixar bem claro: não estou dizendo que a psicanálise esteja aí, só me é útil pensar que esteja, uma vez que sou psicanalista e que não tenho a menor ideia de como Haneke construiu esse personagem.  

A noção que “A professora de piano” seja um “drama psicossexual” é repetido em vários sites de resenhas de filmes. O que isso me indica é que a presença da noção de que o maquiavelismo com que Erika trata seus alunos, sua sexualidade entre a automutilação e o par sadismo masoquismo, bem como a relação com a sua mãe estariam interligados através de uma “explicação”. É justamente no lugar dessa “explicação” é que entraria a psicanálise que permitiria diretor e expectador de alguma forma decodificá-lo. Aqui é tentador como expectador buscar tal explicação para esse “drama psicossexual” nas teorias de Freud, Lacan, Laplanche, etc. Não seria difícil encontrar uma explicação plausível que unisse todos esses elementos apresentados pelo filme. E esse é um dos maiores desafios que um psicanalista sério encontra: não explicar.  

Existem na clínica muitas situações como essa: conteúdos manifestos que brilham na frente do analista, mas que não passam do brilho de uma lâmpada para uma mariposa. E aqui temos algo de interessante: quando retiramos todo esse brilho caricato do personagem, não nos sobra muita coisa. Não é um personagem complexo, ele é excessivamente complexo, excessivamente teórico, excessivamente psicanalítico, excessivo, e quando jogamos um facho de escuridão, não nos sobra muita coisa do que falar sobre o personagem que se esconde por trás de tanto excesso – talvez isso já seja um “algo” sobre Erika.  

Na melhor observação que consigo fazer, sexo e amor se encontram dissociados e entrelaçados com ódio e violência. Quando amor se manifesta, seus pares entrelaçados assumem o controle; e da mesma forma o amor. Sua relação com a mãe é permeada de ódio e violência e onde poderia haver amor, aparece o sexo. Na sua relação com seus alunos, o amor de um professor é substituído pelo sentimento que eles não podem ser melhores que Erika, custe o que custar. O sexo consigo mesmo é manifestado através da automutilação.  

Mas o que acabo de fazer não é uma explicação, é uma observação. Esse movimento é muito importante em termos de psicanálise: descrever o que observo, descrever como funciona aquilo que observo, e não lhe dar uma explicação, são posturas muito distintas, pois na maioria das vezes “explicar” em psicanálise implica em sobre-entendimento teórico. Uma descrição pode usar qualquer modelo disponível para chamar atenção para o desconhecido no material.  

¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Ékatus de Psicanálise. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

Deixe seu comentário

Comentários

  • Não existem comentários.