Melanie Klein e o Édipo precoce

Por Adriana Silveira1

O complexo de Édipo é central para os trabalhos desenvolvidos por Freud, como sabemos. Freud acreditava que os complexos de Édipo e de castração teriam início na fase fálica, momento em que os genitais são o centro da libido infantil.
Haveria aí a descoberta, pelo menino, do pênis, bem como da ausência do pênis na menina, o que levaria à castração e ao Édipo.

Diante da rivalidade em relação ao pai, bem como da impossibilidade de ter a mãe como objeto de desejo e do medo de perder o pênis (em virtude do onanismo), o menino ressignifica sua relação com os pais, identificando-se com a figura paterna. Nesse momento, dissolve-se o complexo de Édipo e tem início a formação do Superego- instância inicialmente formada a partir da introjeção da relação parental.

No caso da menina, haveria um ressentimento quanto à ausência de um pênis, sendo a castração um produto desse processo. Nesse caso, a castração antecederia o complexo de Édipo. A menina passaria a desejar inconscientemente o pênis do pai e ter um filho com ele. A não-concretização desse desejo levaria à dissolução do complexo de Édipo e à formação tardia, se comparada ao menino, do Superego.

Melanie Klein, no início da publicação de seus escritos, também defende que a formação do Superego está vinculada aos complexos de Édipo e de castração. Porém, o trabalho direto com crianças - um grande diferencial em relação a Freud, que analisava adultos - permitiu-lhe observar que o Édipo teria início antes do que Freud acreditava. Apesar de, inicialmente, Klein estar presa aos estágios sexuais de desenvolvimento infantil, ela concluiu que esses estágios aconteceriam mais precoce e rapidamente. O Édipo, para ela, ocorreria nas fases iniciais do desenvolvimento infantil, chegando ao período de desmame  e às frustrações anais advindas dos rituais de higiene.

Na descrição desse processo, Klein já introduz a noção de posição, ou seja, da relação estabelecida (posição ocupada) entre o bebê e o outro. Fazendo também uma comparação entre o menino e a menina, Klein revela que aquele, na passagem da fase oral e anal pela genital, mudaria de posição e passaria a ter como objetivo a penetração, associado ao pênis e à figura materna como objeto amoroso. A menina, ao chegar na fase genital, manteria o objetivo receptivo, desenvolvendo, a partir das frustrações das fases oral e anal relativas à mãe, a receptividade para o pênis, tendo o pai como objeto amoroso.  

A castração ocupa também lugar importante nas publicações de Klein. Quanto ao menino, destaca a “fase da feminilidade”, quando este vê a figura paterna como fortemente castradora e, fugindo aos impulsos genitais, prende-se à fase sádico-anal. Ao ódio pela figura materna e temor pela destruição de seu corpo soma-se, pois, o temor da figura paterna. A junção desses fatores desencadeia a formação de um superego primitivo, extremamente rigoroso e tirânico.

Na menina, Klein destaca que o onanismo não possibilita uma saída adequada para a quantidade de excitação, do modo como ocorre com os meninos. Existe um desejo pelo pênis que lhe falta e, consequentemente, um desejo pelo pênis do pai, possuído pela mãe, a quem dirige seu ódio. Há, desse modo, um desejo forte de destruição da figura materna, bem como a identificação com a figura paterna, que se torna o objeto amoroso.

Ao elaborar suas ideias em torno do Superego arcaico, Klein mais uma vez apoia-se no conceito de posições. Tanto no caso do menino quanto da menina, o bebê, ao desenvolver uma visão mais realista e total do objeto amoroso (inicialmente, a mãe), deixando de vê-lo de modo fantasiosamente ambivalente (seio bom X seio mau) e incorporando o objeto bom dentro de si, sairia de uma posição paranoide para uma posição depressiva,  por volta dos quatro meses de idade. Consequentemente, ocorreria a identificação com o objeto amoroso e a necessidade de preservá-lo. Surgem aí a ansiedade, a culpa pelo desejo de destruição do objeto mau (típica da posição anterior, ligada à fase sádico-anal) e o desejo de reparação. Nesse momento, para Klein, seria formado o Superego arcaico.

Melanie Klein atuou no tratamento de crianças e defendeu a análise infantil, diferentemente de Anna Freud, por exemplo. A fim de atuar no tratamento de crianças e de auxiliá-las no manejo de sua ansiedade, desenvolveu a técnica do brincar. Por meio da observação e da interação com a criança durante as brincadeiras, chegou às fantasias inconscientes do bebê. Assim, foi possível compreender melhor seus sentimentos e as relações estabelecidas entre a criança e a realidade.  

Em alguns dos casos clínicos inicialmente publicados por Klein, pode-se verificar a efetividade de sua técnica. O ponto de partida é, sobretudo, a observação, no brincar, do relacionamento da criança com os adultos que dela cuidam, sob a perspectiva do desenvolvimento sexual infantil, com foco nos aspectos edipianos. No entanto, a perspectiva da formação do Édipo e do Superego precoces – e dos consequentes sentimentos de ansiedade, culpa e reparação – são um diferencial importante para o desenvolvimento de sua técnica, considerando-se, nela, a análise das posições.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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