Édipo em Freud e Klein: Contribuições psicanalíticas sobre a clínica da primeira infância

Por Diego da Silva Geoffroy1

Na teoria psicanalítica, as temáticas em torno do complexo de Édipo são de extrema importância, tanto para a teoria Freudiana, quanto Kleiniana. Ambos destacam a importância de se observar como o sujeito se posiciona e se relaciona com os objetos, a partir do modo pelo qual se passa pelo complexo de Édipo.

 

 

Mas é claro que eles apresentavam algumas diferenças em termos de como ele se estrutura e o tempo em que acontecem. Freud, acreditava que o complexo de Édipo tinha início por volta dos 4 ou 5 anos, e que o superego seria o herdeiro desse complexo e a base do seu trabalho era fundamentada na sexualidade infantil. Para Klein, o complexo de Édipo tinha início muito mais cedo, por volta de 1 ano e 6 meses a 2 anos, e a ênfase do seu trabalho estava ligada ao sentimento da inveja, e a presença de um superego arcaico que já estaria presente e atuante desde o início da vida.

Freud em seu processo de construção teórica partiu do estudo dos adultos para chegar na criança, algo que virou uma questão central em sua obra, e que culminou na importância dada a sexualidade infantil. Klein fez um movimento contrário ao de Freud, ela vai partir da análise da criança para a construção de sua teoria. A partir disso, já se estabelece aqui uma diferença importante que parece ser relevante na maneira como cada um descreve suas percepções e desenvolve seu modelo teórico.

A partir de suas observações clínicas, Klein pode perceber a presença do superego muito antes daquele período que Freud havia assinalado, e esse superego era anterior ao complexo de Édipo em Freud. Para Klein ele era extremamente rígido, cruel, e primitivo, e por isso, a criança acabava desenvolvendo culpa e ansiedade muito cedo. Para Freud, o superego seria herdeiro do complexo de Édipo, e todas as questões ligadas a moralidade, e ao sentimento de culpa iniciava-se a partir deste ponto.

Klein vai dizer que é possível sim analisar crianças, que a forma delas poderem se comunicar através do brincar tinha status e valor equivalente a associação livre no adulto, e que a relação transferencial já estava presente no mesmo momento em que a criança entrava pela porta do consultório. O inconsciente era acessível e ela foi desenvolvendo formas de acesso a esse inconsciente e alcançando seus resultados na clínica.

Pelo brincar a criança expressava suas ansiedades inconscientes, e por meio de interpretações Klein ajudava as crianças a representar uma realidade interna cercada de medos e inibições que eram passíveis de serem ouvidas e ressignificadas. Ela considerava o acesso ao inconsciente da criança mais fácil do que no adulto.

Esse modelo que Klein desenvolve está pautado no conceito de posições. Para ela seria natural que no início da vida a criança passasse pela posição esquizo-paranoide, que seria uma fase em que a criança se relaciona com o mundo de forma fragmentada e persecutória, e com a presença de ansiedades importantes no contexto de sua teoria. Seria um modo de funcionamento das psicoses, e, portanto, passível de tratamento analítico, na medida em que ela considerava possível o caminho para acessar o inconsciente e trabalhar essas ansiedades. 

A partir disso podemos perceber que ela vai criando um caminho para sua teoria, sem romper definitivamente com Freud, tentando manter uma base psicanalítica, mas ao mesmo tempo propondo mudanças clínicas a partir de sua experiência.

Para Freud o complexo de édipo surge entre os 3 e 5 primeiros anos de vida da criança. A partir da relação que Freud faz com o mito de Édipo, nesta fase se desenvolve um “desejo incestuoso” da criança pela mãe, ao mesmo tempo que cria uma relação de conflito e disputa com o pai. Este processo tem peculiaridades para meninos e meninas, mas em suma é uma forma de estruturação do sujeito a partir da relação na tríade parental.

O complexo de Édipo descrito por Freud pos­sui três elementos essenciais, que independe do sexo da criança. O primeiro elemen­to diz da necessidade de um casal de pais que pode ser real ou simbólico. No segundo, tem-se o desejo de morte em relação ao ge­nitor do mesmo sexo. No terceiro e último elemento verifica-se a existência de um so­nho ou mito de realização do desejo de to­mar o lugar de um dos pais e casar-se com o outro. 

Para Klein o édipo começa bem antes, logo após o desmame da criança. A partir da relação com as imagos do seio que ela introjeta, podendo ter características boas e más, a criança projeta nos objetos externos que ela se relaciona todas as suas fantasias. Nesse período há uma intensa presença do sadismo oral atuando, que interfere diretamente em como a criança desenvolve sentimentos hostis em relação aos objetos, bem como o caráter persecutório e punitivo que espera receber deles.

Neste momento, a criança começa a perceber que o mesmo objeto que traz satisfação é o mesmo que traz insatisfação e está ligado ao seu objeto de amor: a mãe. Então, é aí que começa um conflito de am­bivalência de sentimentos, pois a mãe a quem direcionou seus impulsos destrutivos é a mesma mãe a quem di­reciona amor. Isso faz com que a criança vivencie ansiedades e sentimentos de culpa em relação à mãe, e anseie consertar o mau que a fez a mesma. A esse funcionamento Klein chamou de posição depressiva.

Em Klein o trabalho analítico encontra lugar já no início da vida, em um tempo em que Freud não adentrou em sua prática clínica. O olhar Kleiniano permite que as ansiedades da criança sejam trabalhadas em períodos bem mais primitivos do desenvolvimento, podendo trazer benefícios significativos ao modo como as crianças estabelecem relações com seus objetos de amor, e com o mundo de maneira geral.

1Aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

Deixe seu comentário

Comentários

  • Não existem comentários.