A Teoria da Sedução um equívoco

Por  Raul Hamilton de Souza1

A teoria da sedução, formulada por Sigmund Freud, como uma explicação para as crises de histeria de pacientes sob tratamento, está presente em seus escritos desde a chamada “comunicação preliminar”, cuja autoria se deu em parceria com Josef Breuer. Nesse escrito, a Comunicação Preliminar, já havia a concepção segundo a qual “o sintoma era trauma do passado que, quando vindo à tona, se manifestava nos sintomas neuróticos.

 

Continha ainda a comunicação preliminar a proposição, por influência do pensamento de Janet, que a parte psíquica “não consciente” fosse designada como “estados hipnoides”.

Para Freud (1895/1897), o abuso sexual sofrido na infância era a origem da neurose, mormente da histeria. Segundo a sua concepção, tudo o que se passava ‘na e com a’ histeria estava ligado a traumas da sexualidade infantil. Seu método era o catártico, que teve a sua origem na escuta da pessoa sob sofrimento, e muito contribuiu para o conhecimento psicanalítico.

Aqui está, por assim dizer, a gênese do equívoco da teoria da sedução, pois derivando da hipnose, a técnica catártica de Breuer e Freud trazia consigo a crença de que tudo o que vinha do paciente sob hipnose era a mais cristalina verdade, isto é, a resposta do paciente era tomada como expressão da verdade.

Constatando o fato de que nem todos os pacientes se submetiam ao processo hipnótico, ou melhor, que nem todos eram hipnotizáveis, Freud abandonou a prática dessa técnica e criou o método da ‘livre associação’, mas seguiu ainda alimentando a crença de que o conteúdo vindo do paciente representava a declaração da verdade de modo total. A questão que se coloca nesse momento é a de que Freud começou a se valer da livre associação menos como técnica investigatória e mais como meio para provar a sua tese, fato esse que contaminou o campo de investigação das neuroses.

Foi nesse contexto ou circunstância da sua trajetória em seu labor terapêutico que ele publicou o artigo “Notas Adicionais - As Neuropsicoses de Defesa” (1896), no qual tocou em dois pontos sensíveis: 1) Que a sexualidade é a única etiologia da histeria; 2) Que os pacientes histéricos foram abusados ainda em tenra idade, ou seja, foram seduzidos sexualmente na infância por uma pessoa mais velha, por um irmão, por algum outro familiar próximo, ou até mesmo pela babá, sendo a sedução concebida ou vista como algo real, acontecido. Por conta dessa sua posição, a sua tese não foi bem recebida, ficando, em consequência disso, sozinho.

Em 1897, Freud já constatou que a sua teoria da sedução era insustentável, duvidosa, mas evasivamente afirmou ter sido enganado pelas pacientes histéricas, e seguiu ainda sustentando sua tese, mas o seu erro, na realidade, se deu mais na esfera da observação. Tornou-se consciente de que a teoria da sedução não era algo real, vera. Reconheceu que os abusos traumáticos podiam ter acontecido, bem como, também, podiam não ter ocorrido. Mas somente em 1906, quando publicou seu artigo intitulado “Minhas Teses Sobre o Papel da Sexualidade na Etiologia das Neuroses” é que admitiu publicamente seu erro, convicto de que era impossível a ocorrência de tantas seduções infantis, e por “intuição pessoal”, aliada às suas observações, propôs a teoria das fantasias histéricas, entendidas como ficções que ocorriam na fase infantil e que concorreriam em muito para a elucidação dos sintomas das neuroses.

Assim como na história da histeria temos o equívoco de sua concepção como doença do útero, que - segundo  crença – e não como formulação embasada em pesquisa, movia-se dentro do corpo da mulher, e para a qual a prescrição de tratamento  indicava o uso da inalação de vapores provindos de produtos  excêntricos e de atividades físicas que concorriam para a recolocação do útero em seu devido lugar, e até mesmo a indicação da prática de atos sexuais como medida preventiva contra o acometimento da histeria, Sigmund Freud também cometeu seu equívoco mais escudado pela “crença” persistente de que os relatos dos pacientes sob hipnose eram totalmente verdadeiros, do que, como era plausível dele se esperar, na aplicação de técnica investigatória.

As teorias, em quaisquer áreas ou dimensões do saber, são sempre passíveis de equívocos, de revisões e de reformulações.

1Aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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