A Teoria da Sedução: um ato falho de Freud

Por Gustavo Henrique Borges da Costa 1

No final do século XIX, Sigmund Freud seguia desenvolvendo seus estudos sobre histeria. A partir da apresentação de Sobre os Mecanismos Psíquicos dos Fenômenos Histéricos (Uma Conferência), em janeiro de 1893, realizada quase que concomitantemente à publicação da Comunicação Preliminar, em que assina juntamente com Josef Breuer, sobre o método de tratamento da histeria, e também em publicações subsequentes, Freud defende que um trauma sexual real está na origem da formação dos sintomas da histeria e de outras neuroses: a Teoria da Sedução.


Baseado nos estudos sobre histeria iniciados por Jean-Martin Charcot, com quem trabalhou em Salpetrière, em Paris, Freud descreve que a origem dos sintomas histéricos é psíquica, mesmo sendo manifestados fisicamente no corpo. Observa-se que há regularidade e padrão nestes sintomas, como se obedecessem a uma lei de causa e efeito. Há aqui a constatação de que a manifestação no corpo destes sintomas seguiria a lógica de que um trauma grave, ameaçador, relacionado a uma parte do corpo, gerou afetos perturbadores que se ligaram a representação dessa parte do corpo. A lembrança destes acontecimentos seria capaz de provocar o retorno do afeto e a perturbação psíquica correspondente, gerando no corpo sintomas físicos.

Com isso, reconstituir psiquicamente este trauma poderia causar perturbações físicas reais, mesmo que induzidas pela sugestão verbal, e por isso, a hipnose surge como um recurso técnico utilizado para acessar as lembranças traumáticas. Isto se dá porque, segundo Freud, os pacientes muitas vezes não têm consciência do contexto em que os seus sintomas se apresentam. Observou-se que o sintoma surge com frequência acompanhado de um afeto específico. Freud dá o exemplo do afeto de repulsa que acompanha sintomas como anorexia, náusea, insônia e outras formas de perturbação do sono.

Com o trauma psíquico haveria, portanto, uma relação simbólica entre o acontecimento traumático real, o afeto gerado pela experiência traumática e um sintoma associado. Com o desenvolvimento dos estudos sobre histeria durante a parceria estabelecida entre Freud e Josef Breuer, chega-se a percepção de que o uso da linguagem é um meio importante para a expressão dos afetos perturbadores envolvidos no trauma psíquico e, desta forma, poder fazer “escoar” um fluxo energético represado no corpo e, assim, cessar o sintoma. A hipnose seria a forma de induzir a expressão destes afetos e gerar a catarse necessária para a ab-reação: o método catártico de Breuer.

Desta forma, ao conduzir sua clínica, Freud observou que muitas de suas pacientes histéricas demonstravam ter na questão sexual parte importante na origem de seus traumas. Inclusive, percebeu que havia muita resistência das pacientes em falar a respeito ou mesmo admitir pensamentos de cunho sexual, como se erigissem barreiras a si e ao analista. Freud descreve, nos casos de histeria que publica, as questões que estariam na base dos quadros histéricos de suas pacientes como abstinência sexual (Emmy v. N.); necessidade de amor (Miss Lucy R.); angústia virginal (Katharina); e, desejo proibido (Emily v. R.).

Com isso, Sigmund Freud concebe uma teoria em que a gênese das neuroses eram traumas sexuais sofridos por pacientes em idade pré-sexual, tanto de forma passiva como ativa, praticados por um adulto. Para cada forma de trauma corresponderia uma conversão diferente, desencadeando estruturas histéricas, obsessivas, de angústia (fobias) ou psicóticas. A culpa, a repulsa, a vergonha seriam sentimentos partícipes desta forma de recalque dos afetos perturbadores causados por esse acontecimento traumático.

Isto não seria menos do que a sistematização do entendimento de que a origem dos sintomas é psíquico; que estes sintomas possuem regularidade; que têm origem traumática relevante tendo provocado afetos perturbadores que foram associados a representações simbólicas; são manifestos no corpo; e, a percepção por Freud de que os relatos de suas pacientes apontaram dificuldades na experiência de seus desejos sexuais.

Entretanto, uma questão tende a pesar. Será que todos os quadros histéricos, obsessivos ou psicóticos sofreram necessariamente traumas sexuais reais? Aqui temos uma falha importante da Teoria da Sedução pois não era possível determinar que a totalidade dos traumas psíquicos teriam surgido de eventos sexuais violentos, ativos ou passivos, praticados por adultos em crianças. Além disso, desde as primeiras teorias sobre pacientes histéricas já se falava que a questão sexual estaria na origem do quadro e que, a prática do sexo poderia ser, inclusive, um remédio eficaz, porém pouco desse raciocínio acrescentou ao diagnóstico, tratamento ou cura da histeria ao longo da história.

Considerando que já se entendeu que a origem da estrutura histérica é psíquica e, ainda,  que é possível estabelecer quadros imaginários que retomem o afeto perturbador por meio da sugestão verbal (hipnose, por exemplo), já se pode imaginar que, em sendo o afeto que desloca o sintoma para o corpo, esse afeto pode ter origem exclusivamente psíquica. Isto é, o trauma pode ser emocional, sobre determinado – múltiplos eventos causadores- e fruto de uma fantasia que haveria provocado a associação entre o afeto perturbador e a representação simbólica.

Sigmund Freud percebeu, ainda, que, sendo a hipnose um mecanismo de sugestão verbal capaz de criar quadros imaginários com potencial gerador de afetos e sintomas, não se era possível determinar de fato que um acontecimento sexual traumático teria concretamente acontecido. Tanto a hipnose como a Teoria da Sedução se mostraram falhas como teoria e técnica adequadas para o tratamento da histeria.

Haverá, pois, o analista de buscar interpretar o conteúdo dos relatos dos pacientes, considerando as resistências e mesmo os afetos construídos na relação dentro do consultório. Estes relatos são conteúdos manifestos que sofreram transformações, deturpações, no esforço de lembrança. E que apenas por meio do processo contínuo de análise é possível percorrer os caminhos que podem identificar os traumas psíquicos.

1Aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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