Entre homens, ratos, lobos e lobisomens: Casos clínicos de Freud

Por  Camila Avila1

"O gato preto cruzou a estrada/ Passou por debaixo da escada/ E lá no fundo azul/ Na noite da floresta/ A lua iluminou/ A dança, a roda, a festa.../ Vira! Vira! Vira!/ Vira! Vira!/ Vira Homem/ Vira! Vira!/ Vira! Vira! Lobisomem.../ Bailam corujas e pirilampos/ Entre os sacis e as fadas/ E lá no fundo azul/ Na noite da floresta/ A lua iluminou/ A dança, a roda, a festa.../ Bailam corujas e pirilampos/ Entre os sacis e as fadas"/ (João Ricardo e Luli)

 

A voz de Ney Matogrosso, a melodia e os acordes de Secos e Molhados apresentando “O vira” se desenhou instantaneamente quando pensei em escrever sobre dois casos clínicos de Sigmund Freud que rementem ao “universo masculino” e o mundo animal: “O homem dos ratos” e o “O homem dos lobos”. Caro leitor entenda que chamei de universo masculino a descrição de casos de pacientes do sexo masculino e essa descrição já inundou meus pensamentos (sem que eu pudesse contê-los de pronto) em quantos desdobramentos as palavras “universo” e “masculino” poderiam desencadear. O que eu entendo por universo? O que eu entendo por masculino? Deveria usar outras palavras e não estas? Como as pessoas iriam interpretar? E agora, deleto tudo e recomeço, ou, simplesmente continuo? Ansiedade, angustia, inconsciente, emoções, razão .... Pensamento obsessivo ou fantasias?

Em o Homem dos Ratos, Freud discorre sobre um caso de neurose obsessiva em que o paciente, assim como iniciei meu discurso, não conseguia controlar o fluxo de pensamentos. Para o paciente caso não concluísse uma determinada ação algo ruim aconteceria com alguém de seu convívio (no caso seu pai, ou uma dama que estava interessado). Detalhe importante é que o pai já havia falecido. Tais ideias obsessivas eram vistas em determinados momentos como irracionais por ele, mas ainda assim não conseguia conter os pensamentos. O caso clínico recebeu essa denominação pois o homem relatou a Freud uma história sádica que ouviu de seu tenente sobre um castigo  em que a pessoa era amarrada nua sentada em um balde com ratos. O transtorno obsessivo compulsivo (TOC) tem essa característica: pensamentos obsessivos involuntários e compulsões (comportamentos / rituais) que objetivam eliminar as ideias obsessivas.

Faz-se importante destacar enquanto técnica psicanalítica que diferente de outros casos publicados em que ficava focado na interpretação de sonhos, Freud deu prioridade aqui aos comportamentos e palavras. Os comportamentos repetidos e a interpretação das palavras para realizar as construções psicanalíticas necessárias. Ainda muito preocupado em preencher as lacunas da história de vida do paciente e não atento às questões transferenciais na sua relação médico / paciente.

No caso do Homem dos Lobos, Sigmund Freud focou seu trabalho analítico à interpretação de um sonho do paciente. A História de uma neurose infantil, ao contrário do título diz respeito a análise de um adulto. Ainda na ideia de compreender o sintoma atual Freud buscava detalhes da infância do paciente. Momento em que o paciente relata um sonho no qual esta dormindo e uma janela se abre, diante da janela há uma arvore com vários galhos secos e na ponta dos galhos um lobo. Em um dos galhos, um lobo branco olha fixamente para o paciente que acorda muito angustiado.

Durante as sessões Freud interpreta o sonho e o relaciona a um evento denominado cena primária na qual o paciente teria presenciado uma cena de coito anal entre seus pais. Para Freud a repressão deste evento desencadeou no jovem os sintomas de uma neurose. Dois pontos merecem destaques, o primeiro diz respeito acontecimento relatado pelo paciente, seria realidade ou fantasia? E o segundo ponto, a proposta de Freud para que o termino da análise tivesse data marcada. O que de fato ocorreu.

Em uma perspectiva mais pragmática sobre técnica psicanalista, de Freud aos autores mais atuais da psicanálise (não que eu não considere Freud atual, é tipo aquele pretinho básico do guarda roupas que nunca sai de moda, mas precisa sempre de complementos para se atualizar), avanços podem ser percebidos hodiernamente. A formação médica de Freud e a preocupação com sintomas, diagnósticos e cura se fazem presentes em seus escritos. A falta de cuidado com a transferência e a contra-transferência é visível, além da busca pela história pregressa do paciente como componente da técnica psicanalítica dos atendimentos clínicos apesar do destaque já dado á associação livre. A Psicanálise de hoje se ocupa muito mais da transferência e contratransferência do que a elaboração de um relato detalhado da história de vida do paciente. O compromisso é com a realidade e verdade do paciente naquele encontro com o analista, não precisa ter compromisso com a realidade histórica tão buscada por Freud. Diagnósticos e rótulos já não ganham mais espaço, assim como a tão sonhada cura. Busca-se uma ressignificação, uma compreensão do mundo interno para uma ampliação das formas de viver e lidar com a vida.

Fazendo um gancho com as ideias iniciais deste artigo em que cito lobos, ratos e lobisomens, o inconsciente e suas armadilhas bailam por toda parte (ao som de Ney Matogrosso e Secos e Molhados). Inconsciente dos pacientes, inconsciente de Freud e inconsciente desta escritora aqui. Quantos bichos e comportamentos escondem sentimentos e desejos inconscientes. O que povoa nossas fantasias e nos amedrontam diante da vida? Como tirar a máscara e olhar para o espelho? Como seria para o Homem dos Ratos passar por baixo de uma escada ou ver o gato preto cruzando a estrada? Será que o Homem dos Lobos acreditava em sacis e fadas?

Entre avanços e retrocessos Sigmund desbravou o início deste percurso que cada um de nós deveria percorrer em busca de nossa própria história através da análise pessoal. A lua pode iluminar a noite na floresta e nos mostrar as corujas e os pirilampos e assim virarmos homem. Ou seria lobisomem?

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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