O Complexo de Édipo para Freud e Klein: suas implicações

Por  Raquel C. R. Mariano1

A leitura do ser humano pode ser feita por diferentes ópticas, isso se aplicou tanto para Freud quanto para Klein, ambos psicanalistas de fundamental importância e de grande contribuição para o desenvolvimento da psicanálise. Freud, acreditava que o Complexo de Édipo tinha início próximo dos 4-5 anos, que o super-ego era herdeiro desse complexo e o núcleo do seu trabalho era fundamentado na sexualidade infantil, enquanto para Melanie Klein, o Complexo de Édipo tinha início muito mais cedo, por volta de 1 ano e 6 meses, 2 anos, o núcleo do seu trabalho era genuinamente a inveja e o super-ego já existia muito antes que o Freudiano.

Na análise de crianças, Klein percebeu que o super-ego era formado muito antes do complexo de édipo, que ele era extremamente rígido, cruel, primitivo e por isso, a criança acabava desenvolvendo a culpa e ansiedade muito cedo, diferente de Freud, onde, o super-ego é herdeiro do Complexo de Édipo e a compreensão de moral, culpa iniciava a partir daí.

Klein acreditava e provou que era possível atender crianças, que elas eram passíveis de serem analisadas e não somente educadas, como Freud pontuava, Klein enfatiza a importância da figura feminina em sua teoria, enquanto Freud dava maior ênfase na figura masculina. Para Klein as relações eram objetais, enquanto para Freud, eram transferenciais.

Klein percebeu que no processo do brincar analítico, a criança representa papéis, se identifica com diversos personagens, expressa sua realidade interna, suas experiências emocionais, suas fantasias, o que auxilia o analista a compreender o mundo interno da criança sem tantas defesas, pois o inconsciente da criança é mais acessível que o do adulto.

Uma outra diferença importante a salientar na diferença entre as teorias kleinianas e freudianas é que Klein abre espaço para a clínica das psicoses, enquanto Freud dava ênfase às neuroses. Quando Klein trabalha com as relações objetais e mecanismos de defesa, percebe que a criança possui um funcionamento mais próximo do psicótico, pois ela é mais concreta e não diferencia as coisas.

Frente a tantas diferenças, o Complexo de Édipo, também não poderia ser igual.

Para Klein, o desenvolvimento inicial e a conclusão do complexo de édipo masculino passa pela fase oral, anal e genital, onde o objetivo é a penetração, é a posse do pênis. A posição libidinal e seu objetivo se mantém, assim como o objeto amoroso. Já para as meninas o desenvolvimento é um pouco diferente, inicia-se na fase oral, passa para a genital, muda a posição libidinal e seu mantém seu objetivo, o que leva à frustração frente à mãe. A menina vai desenvolver reciprocidade ao pênis e o pai será seu objeto de amor.

Para Klein, quanto mais cruel for o super-ego, mais medo o menino terá de ser castrado pelo pai e mais força esse usará para fugir dos seus impulsos genitais e mais fragilizado ficará sua estrutura egóica.

No complexo de édipo kleiniano, há a fase da feminilidade, onde a ansiedade está relacionada ao útero da mãe e ao pênis do pai, isto é, o menino acredita que o útero da mãe pode devorá-lo, mutilá-lo e o pai castrá-lo, então condensa a imagem do pai e da mãe juntos, como se eles fossem um só, e denomina-se pais combinados. O menino teme a mãe e o pai juntos.

O menino deseja a capacidade de ter bebês, assim como a mãe, se identifica com a mãe, mas como percebe que é diferente, que tem um pênis e que a mãe não tem, precisa recalcar o desejo de ser igual a ela e identifica-se com o pai. A inveja infantil do filho menino será solucionada quando encontrar uma esposa e puder ser pai.

A menina, num primeiro momento identifica-se com a mãe, percebe-se como ela, mas que para fazer bebê, precisa de um pênis. Então identifica-se com a mãe e acredita que assim tem o pênis do pai, porém, este a recusa. Nesse momento, a menina passa pela segunda frustração da vida dela, onde a primeira foi o desmame e agora, a rejeição do pai. Sendo assim, a menina acaba fazendo alguns ataques sádicos à mãe e busca ter um marido para que ela possa ter um filho.

Já para Freud, o menino apaixona-se pela mãe e vê o pai como seu rival, e deseja mata-lo para ficar com a mãe. Como o filho percebe que o pai é mais forte que ele e teme ser castrado, abandona a mãe, identifica-se com o pai e busca outra mulher que substitua a mãe. Já a menina, na fase I, apaixona-se pela mãe, acredita que ela lhe dará um pênis, mas como isso não ocorre, culpa a mãe por não ter lhe dado, mas como a mãe é possuidora desse pai, logo ela possui um pênis, então inicia-se a rivalidade entre mãe e filha e o início da fase II desse complexo, onde abandona o investimento pela mãe e passa esse ao pai, que lhe nega o amor, então identifica-se com a mãe e busca na maternidade a completude do falo.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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