Observações sobre o movimento, o pensamento e a capacidade de continência

Por  Dr. Emir Tomazelli1

O trabalho com pessoas em crise, bloqueadas em casa por determinação do Poder Público, para que se evite ao máximo a disseminação do covid19 e o sistema hospitalar não colapse, fez ficar bem evidente certos tipos de emoção e certos tipos de sintoma que costumeiramente passam despercebidos.

Estes sintomas são comuns ao homem do dia-a-dia em sua indetenível aceleração, e minimizam os danos da complexa condução dos seus fazeres necessários à sua sobrevivência, tanto quanto aos cuidados de sua angústia. Mas cobram seu preço em loucura. Ou seja, há fazeres que encobrem manifestações patológicas transformando-as em hábitos que, infelizmente, escondem angústias, sabidamente problemáticas, há muito observadas pelos psicanalistas, e denominadas de angústias psicóticas.

Todos sabem que agir é uma benção. Mesmo porque pensar2 é penoso. A ação descarrega, o pensamento carrega, pesa, exige, mesmo que depois de tudo seja a única solução madura para quem tem que aceitar que ter um psíquico é uma tarefa sem solução, e que esta tarefa exige treino e tempo.

A angústia da inação, agora, é associada a uma angústia determinada pelo governo. Esta é não só resultante de uma apatia diante da vida (como acontece nas melancolias), mas resultante também de um compromisso com a solidariedade que se exige de todos nós esforços duríssimos quando os que governam não sabem o que fazer.

Seja como for, não agir é uma angústia, é um tipo de abatimento pela privação de ação significativa que pode esclarecer e iluminar o quanto precisamos do nosso corpo e de nossa inteligência para descansar mente e coração, tanto quanto para alimentá-los.

Num certo sentido somos o que fazemos, somos o resultado de nossas práticas, de nossos atos e, para pensarmos, dependemos do corpo, naquilo que, o agir ajuda a mitigar, ajuda a medicar a angústia elevada, que precisa do remédio derivado estritamente do fazer, do “trabalhar”, do estar ligado e concentrado no executar que tem um fim e um sentido – um para quê.

Não se costuma observar, mas tudo na mente está organizado para resolver a repetição pulsional, e tirá-la da monotonia da pressão que busca a descarga de qualquer modo. Porém, como carecemos de instintos que ofereçam “paterns” de ações prontas que nos indiquem para que direção ir; a pulsão, motor que nos empurra para todos os lados, exerce apenas uma exigência: descarrega-me. E, para isto, precisamos construir um eu que faça o papel de conduzir.

Por sua vez, essa descarga passa por um processo de decantação que exige trabalho contínuo do aparelho psicossomático. Mas o processo todo, como acabo de dizer, precisa de um guia, precisa de esteios, precisa de convenções. Como está claro que não temos esse guia, ele deve ser construído por tudo que lhe possa oferecer forma e sentido. As terapias ajudam a fazermos isso. Desnecessário dizer que sem guia interno, a descarga é sem direção, e colapsa o sujeito possível de se manifestar, pois o leva à produção de sintomas.

Esse guia, é, em parte, ligado ao agir, ao aprender e à capacidade para compreender o que se está vivendo. O agir que é regido pela descarga de tensão excessiva é só um agir louco. O que se necessita é a construção de uma ordem. É necessário que se crie um campo organizado de tal forma que seja um sistema que, espontaneamente cuide de suprir demanda e buscar solução que a alivie. Uma mente imatura evita o pensamento, e o faz agindo, ainda não mostra sinais de haver aprendido da experiência. Executa um ato automático, não usa categorias e sim reações sem inteligência. Se usar pensamento vai ter que compreender que este último envolve que o psíquico se torne um centro de digestão do estímulo, e que seja capaz de sentir dor mental para poder constituir ações ligadas à realidade e ao senso comum.

Mesmo que Marx acentue o problema do trabalho como exploração do homem pelo homem – do que não duvido, e, menos ainda, discordo -, o que está em jogo, do ponto de vista da psicanálise, é que, sem a ação disciplinada e organizada no cotidiano, o que resulta do viver repetitivo é dispersão de atos sem direção, extremamente perigosos, principalmente porque serão atos formalizados mesmo que não tenham propósito.

Socialmente isso pode se traduzir em abuso ou em desastre humano. Por isso, teríamos de pensar que disciplina, concentração e ação são caminhos de vida, são sentidos de direção, e não se pode construí-los em plataformas não éticas. O ‘cuidado com’ e o ‘cuidado do’ outro exige muito de todos nós. Sem isso, não haverá mundo dito humano. Mesmo que se considere seriamente que essa rede possa se formar de modo coletivo e inconsciente, ainda assim devemos formalizá-la conscientemente.

Construção de laços entre nós, mesmo que tenhamos capacidade para tê-los, desde bebês, sem precisarmos de aprendizado para isso, ainda assim se necessita construir um senso de similaridade, um senso de empatia que indica que, juntos, podemos nos proteger de nossa própria dispersão quando estamos em estado de massa! Coletividade sem direção é manobrável pelo uso da estupidez e por machos alfa que são estúpidos, uma vez que só sabem transformar a ignorância em ato de violência. O estúpido não tem curiosidade, não formula conhecimento. O medo, se bem guiado por um líder psicótico - que é estúpido, mas não é burro - se transforma em força para sustentar qualquer ação de ódio. É por esta razão que as dificuldades de aprendizado, em qualquer nível que se fale, são, frequentemente, vistas e transformadas em atos de brutalidade. Não existe só a burrice ou a limitação para aprender e compreender, há, isto sim, um desejo profundo e arraigado em nós, que é o desejo de ignorar e o de servir sem ter que pensar.

É, exatamente, nessa capacidade(?) de agir sem propósito, que reside a tragédia do homem.  É esta a base emocional de qualquer um de nós. Este é o mal-estar, a angústia sem ligação a objetos e ações. Este estado primário é o mesmo que uma bomba relógio armada, cujo ‘timer’ decide quando dispara, e só dispara num momento desconhecido, e por fato inesperado.

Façamos, agora, uma brevíssima distinção entre agir e atuar.

Ação e atuação, para a psicanálise, são expressões diferentes, que envolvem estados mentais qualitativamente diferentes. Pertencem, no entanto, ao campo das possibilidades humanas, principalmente quando somos convocados a fazer frente a estímulos - vindos do mundo - e às pulsões - vindas de dentro. A ação é pensamento; a atuação (acting out) é  ato que escapa, é a impulsividade, é a automaticidade sem relações que se liguem aos fatos, à verdade ou ao conhecimento.

Esse é o ponto que me interessa.

Sem agir, o dia se abre para uma angustia que depende e demanda ação, e sem ação ninguém acalma o impulso. E sem ação não há como pensar os pensamentos baseados na realidade. Sem ação ninguém reduz o pulso! Ninguém pega o compasso! Ninguém sintoniza.

Um impulso que possa se transferir para o universo do agir, precisa poder ser experimentado de um modo minimamente seguro. Isto exige a presença de cultura humana e liberdade para encenar no âmbito social. Por isso há que se constituir um espaço onde caiba homem e pensamento, e ação inteligente, e onde se construa uma temporalidade que torne possível de se observar o quanto de continência cada humano exige para poder vir a ser. E essa continência só pode vir de uma comunidade, de uma coletividade, uma vez que são estes territórios que garantem o mundo onde um eu se publica, e se garante vivo em sua teatralização expressiva.

Junto a isso também teríamos que expandir esse campo que faz do ato – pura descarga - um agir – pensamento/corpo. Esta passagem implica na complicada confecção de um território sagrado que possa dar ao ato o seu estatuto de agir, uma vez que se constitui em um campo que poderia ser definido como lúdico - no sentido que Huizinga dá ao termo, em seu livro Homo Ludens.

Ainda assim, esse ato precisa ser repetitivo e suficientemente simples e seguro para que possa ser feito sem pensar, por todos que necessitarem dele. O agir que o confinamento detém é esse, esse que é o agir que é pensar, e que também é algo que ajuda a conter o estado ansioso.  Este é o agir que pode nos conter e nos dar uma chance de não passar ao ato sem mediação ética ou moral. Não se pode parar o movimento do homem vivo. E ponto. Porém, é necessário fazê-lo ser um agir que é cabível no interior dessas linhas imaginárias que chamamos de território lúdico.

Não é a calma que nos acalma, não é só o sono que nos descansa e refaz. São nossos envoltórios que nos dão continência, e, É A CONTINÊNCIA QUE NOS ACALMA. E, por favor, anotem: agir pode ser a solução de quase todas as coisas, mas, cuidado, ele pode se transformar no maior perigo que nos ronda, porque pode nos levar - e certamente leva - à submissão a comandos de ação inconscientes, autoritário e cruéis. E isto por sua vez leva a um tipo de obediência a esses comandos, dando vazão a atos violentos, que não passaram pelo pensamento, nem pela humanização.

É necessário que seja uma ação que nos leve à solução da turbulência que nossa experiência de ansiedade gera. É necessário que se crie um continente e um ritmo, já que não vimos internamente com um programa que nos imponha um hábito, um sentido e uma direção. Não sabemos para onde ir, só podemos construir uma disciplina quando nos falta direção. E é dela que dependemos.

Alerto, claro, não sou ingênuo: os guias que dissolvem as angústias diárias dão brecha, lógico, ao oportunismo estúpido dos homens estúpidos que tendem uns a mandar, e outros a obedecer. Como quando juntos somos manada, e, infelizmente, por isso precisamos ser guiados por líderes que beiram a estupidez, como Freud esclareceu em O Mal Estar na Civilização.

Não são os homens éticos que nos guiam. Somos guiados por estúpidos, que aceitamos nos liderar. Eles usam nossas formações primitivas e rudimentares de encarar a realidade, e usam das formas rudimentares de julgamento sobre nós – formas que não respeitam a realidade comum, quebrando nosso contato com o mundo – e fazem de nosso agir cognitivo um mar de lama. Ou seja, onde se poderia buscar os gestos mais complexos para diminuir angústias violentas com ações produtivas, encontramos dejetos escatológicos. Pois, em nossa urgência e ânsia de nos livrarmos de angústia, nos livramos também de inteligência.

Por outro lado, e para nosso espanto, também se observa que a desaceleração gera uma aceleração perturbadora e angustiante, e impede que o pensamento (dor necessária) seja usado para guiar o fazer e transformar-se em ferramenta capaz de conter a angústia fantasiada, buscando uma ação possível, e que corresponda a uma tentativa de solução do problema pelas vias que a cultura nos oferece e valida.

Outro aspecto que gostaria de marcar é que, o excesso de informação desinforma e gera angústia desnecessária, e movimento inútil, impedindo o pensar, suscitando um processo curioso que é a transformação de angústia em loucura. O desespero ansioso está para além daquilo que somos capazes de elaborar. O mundo previsto, antecipado por índices, todos baseados em informações e fatos de fontes seguras, torna-se um impeditivo da capacidade de ver vida além do presente que promete futuro avassalador. Desse modo, o único que criamos é um tipo de futuro que é apenas a continuidade lógica de um raciocínio que não inclui a surpresa como um elemento possível dentro das chances abertas.

O medo do invisível presente está além daquilo que somos capazes de elaborar sem ficar loucos, porque muitas vezes a experiência de saber gera um tipo de desespero. Somos incapazes de lidar com categorias ausentes e criadas em um lugar sem tempo e sem fato a observar. Não sabemos o que fazer diante dos objetos microscópicos, sem presença sensível. A mente sobrecarregada de fatos é medo. Hipóteses enlouquecem os homens que não estejam preparados para lidar com não coisas e não fatos.

Acrescente-se a isso o medo de si e da própria mente. E acrescente-se que isto venha a gerar aflição quando impedida de sonho e movimento. Não sabemos o que fazer se não estivermos em um mundo mais calmo, menos aflitivo, menos agressivo. A vida humana não sobrevive à própria tensão que produz quando antecipa o que desconhece. E quando vive em uma comunidade que não sabe o que é o cuidar de todos, sem afligi-los. Sem zelo profundo e hospitalidade, não haverá nada que nos acolha. Necessitamos de muito mais, precisamos viver em um lugar onde não estejamos com medo. Se a calma é dificultada por não podermos formular fantasia de esperança e a ilusão, necessárias para dar suporte ao sem sentido do cotidiano, anódino e sem promessa, a vida acaba porque vira em desespero psicótico.

A vida viva depende do movimento, e a capacidade de desenvolvimento de cada um depende do sonho de cada um. Parados estamos mortos. Portanto não atue, aja! Proteja-se do nada, labore.

São Paulo, 03 de junho de 2020

1Psicólogo e Psicanalista, mestre e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Há 45 anos atua na área clínica em Consultório no Brooklin, Sp. Autor de livros de psicanálise e referência acadêmica.

2Uso a palavra pensamento de modo a não confundir com a palavra imaginação. Pensamento não é a imaginação.

 

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Comentários

  • Guest (Adegmar Alves)

    Exelente matéria ,ensinamentos ou melhor um escaneamento do que na realidade somos.

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