Por que Klein?

Por Glaudston Cordeiro de Lima1

Escrever sobre os impactos causados ao ler uma parte da clínica kleiniana é, para mim, acompanhar a originalidade e expansão dos seus conceitos. As pessoas que estudaram sua obra, psicanalistas ou não, são de acordo que é uma obra profícua, ou seja, que contém sementes de desenvolvimento de vários pensamentos.

A participação no grupo de leitura, facilitado pelo psicanalista Marcos Capelli (Psicanalista da EPP), possibilitou a descoberta das contribuições metapsicológicas e técnicas de uma das autoras mais importantes no progresso da psicanálise. Para quem não conhece a autora vale uma rápida biografia. Melanie Klein (1882-1960) psicanalista austríaca, ela marcou a consolidação da psicanálise inglesa. 

Seu primeiro contato com a obra freudiana foi em 1916 no congresso de Budapeste. Fez análise com Sàndor Ferenczi, e dali passou a ser estimulada a iniciar o atendimento com crianças, contrariando e criticando as ideias de Anna Freud. O grande mérito de Klein foi o de recuperar a soberania dos processos inconscientes, contrapondo-se radicalmente a Anna Freud. A clínica de Klein representa outra forma de fazer a relação entre psicanálise educação; conclui a autora que o tratamento psicanalítico é uma reeducação da capacidade de fantasiar. Ao estudar Klein a neurose infantil passa a ser percebida como uma formação defensiva, ou seja, pode aparecer bem cedo na vida como forma de proteger a criança contra as situações de angústia de traço psicótico. Neste sentido, a criança é colocada no status de indivíduo que pode ser tratada, no sentido psicanalítico, porque vivem em um campo de forças intrapsíquicas em conflito. Por isso, a importância de em 1924 Klein apresentar no VIII Congresso Internacional de Psicanálise o trabalho intitulado “A técnica da Análise de Crianças Pequenas”. 

No referido grupo de estudo sobre Klein tratamos de alguns dos trabalhos de Klein dos anos de 1921 a 1945, advertindo que seria impossível dar conta de todos os debates, reflexões e apontamentos que aconteceram em diversos encontros. E por que Klein? Porque ela apresenta o desafio de uma clínica psicanalítica de crianças, ousa rever bases da teoria Freudiana da sexualidade e apresenta as bases para um tipo de tratamento baseado na observação e interpretação das ansiedades, fantasias, defesas e relações de objeto. O seu projeto já inspira a proposta de entrar em contato com a experiência emocional e a importância dos objetos internos, sem esses objetos não podemos viver, ou seja, dão-nos uma arrumação, mesmo que instável. Entre as forças pulsionais e a cadeia de simbolizações, sem esses objetos as pulsões só abririam passagens através da repetição, do acting out e dos enactments (uma espécie de encenação). 

No momento, a escolha foi pelo trabalho psicanalítico de Klein apresentado na tese sobre a “psicogênese do tique”, que consolida os resultados clínicos sobre as inibições, tratando-as como expressão do mal estar, mas com possibilidades de modulações. O artigo de referência é o de 1925 “Uma Contribuição a Psicogênese dos Tiques”. A autora descreve dois casos importantes que apontam para o estilo kleiniano. Pode-se intuir que Klein mantém-se na técnica freudiana, e o que isso significa? Significa que seu manejo dos casos aponta para a reconstrução ou restituição do passado, ou seja, trata-se de recuperar o passado reprimido que se instituiu na história dos pacientes. Nesse caso, o inconsciente, em Klein, ainda continuaria a ser o da teoria freudiana baseada no tripé o infantil, o recalcado e o sexual. 

Na época, Klein indica que o tique era considerado um sintoma secundário, com a continuidade do tratamento percebeu o papel que desempenhava no desenvolvimento da sexualidade, da neurose e do caráter dos pacientes. Grosso modo, o tique se apresentou como uma forma substituta da masturbação como descarga da ansiedade. Apreende-se que Klein usa o modelo ligado ao complexo e a ansiedade de castração, ansiedade que se instalou na história dos pacientes a partir da observação do coito (cena primária) e, no caso Félix, intensificada com a ablação do prepúcio. Essa intervenção provou uma experiência traumática, já que o menino encontrava-se em idade de clímax da sexualidade infantil. Vale salientar que Freud admite o trauma no segundo tempo, ou seja, na ordem da reminiscência (ordem da inscrição) e não da ordem do fato. O caso Felix é considerado como a primeira análise mais longa (1921-1924, 370 sessões) e profunda, definido por Klein como uma análise que chegou a bom termo. 

No desenvolvimento do atendimento de Felix, Klein anuncia que as situações acima descritas produziram a inscrição de um trauma que culminou em situação edipiana invertida, aumento da ansiedade de castração e regressão no desenvolvimento da sexualidade a fase sádico-anal e, ainda maior, para o narcisismo. Parafraseando a autora, pode-se concluir que assim estavam instaladas as condições para a rejeição do mundo externo. Neste sentido, as atividades do mundo externo (jogos, tarefas escolares, a escola, uma cabana e outras) atuavam como objetos das fantasias ligadas ao coito, as ameaças do pai, a tensão sexual, ou seja, havia uma identificação das atividades com as relações sexuais, submetidas à ansiedade de castração. Esse ato da clínica kleiniana passa a acentuar a necessidade de interpretar as fantasias subjacentes nas atividades do mundo externo. 

Pode-se observar, na leitura do texto, que todas as atividades na sala de análise ou fora dela passavam a compor uma “constelação” em que algo sempre era semelhante, uma repetição a despeito das variações. Nesse ponto, vala salientar que no modelo kleiniano a escuta psicanalítica se destina aos vértices da “fantasmatização” e da ansiedade. Vértices em que os elementos se repetem através das variações, ou seja, dentro da fantasia há elementos que se repetem em tais variações, culminando na ideia de que a estrutura fundamental do sintoma é a repetição. Essa forma de manejo clínico parece apontar para a futura predileção de Klein pela pulsão de morte ao lidar com o modelo energético de Freud (metapsicologia da economia psíquica). Ouso afirmar que ela passou a considerar a pulsão de morte como a única pulsão, quebrando a divisão pulsão de vida e de morte. 

Klein parece ter elaborado na observação das variantes da fantasia uma teoria sobre a gênese das organizações das fantasias como regra da interpretação. Quiçá a tentativa de uma primeira teoria de tratamento psicanalítico baseada na fantasia. Um exemplo no texto é também o caso de Werner, que acentua a importância da “cena primária” e dos processos de identificação com o pai, possibilitando um contraponto a teoria clássica do narcisismo e a consolidação do conceito de fantasia como operador clínico. 

Se para Freud sob a batuta do processo secundário há possibilidade de uma operação racional, sem as infiltrações da fantasia, salvo em situações regressivas, Klein aponta para a importância da fantasia na organização da vida mental, conclusão das suas observações e interpretação das fantasias dos pacientes, fantasias que não se infiltram e sim organizam. A criança kleiniana tem uma configuração bastante peculiar. A história da criança é a história da pulsão. Ela é determinada pela quantidade dos instintos de vida e de morte presentes na inveja e no ciúme. 

O objeto real externo é contingente, ou seja, não tem nenhum poder de estruturar o psiquismo do sujeito. Assim, Klein indica uma clínica em que a relação com o outro, com a mãe real, é acidental e não estrutural. As fantasias inconscientes já estão presentes na fase mais primitiva da vida. Aliás, essa autora privilegia a dimensão imaginária da fantasia e faz dela o eixo principal em torno do qual giram suas concepções. 

Uma (In)conclusão é saber que a única realidade psíquica para Klein é a fantasia. Propõe uma posição imaginária para o objeto mãe. É esse um ponto de crucial diferença de Melanie Klein em relação a Freud, ou seja, a teoria kleiniana se apresenta na centralização do relacionamento de objeto, seja este parcial ou total. Neste sentido, o modelo kleiniano baseia-se em definir o sujeito e sua história a partir dos destinos da relação de objeto.

1Psicanalista formado pela Escola Paulista de Psicanálise-EPP e membro do Instituto Melanie Klein-IMK. 

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