Análise a três: uma visão crítica sobre o trabalho técnico de Freud no caso Dora

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Por Alan Araújo da Costa1

Analisar o trabalho terapêutico desenvolvido por Freud no caso Dora sempre será bastante curioso. Se passando no início da estruturação da técnica psicanalítica, logo após abandonar a hipnose e começando a utilizar a livre associação, percebemos com riqueza de detalhes o desenvolvimento do seu trabalho como terapeuta, os seus deslizes e a base da ideia daquilo que viria a se tornar a técnica clínica da psicanálise.

   

Logo no prefácio, Freud esclarece que não foi possível chegar até a meta fixada, pois a paciente abandonou antes que chegassem nela. Essa questão da expectativa dele em relação ao atendimento de Dora me leva a refletir sobre a tal meta fixada, sobre quem estipulou, se era algo combinado, e principalmente qual a relação de um ponto em um tratamento analítico. Essas questões, assim como o texto por si só, mostram que Freud vivia em função de buscar um espaço para sua teoria, de “fixar” a psicanálise no meio do corpo médico, e o quanto ele pecou em não se desprender disso, tanto que posteriormente em outras obras ele estabelece que o terapeuta deve manter a neutralidade dentro do setting analítico, o que é algo que não encontramos ao ler o caso Dora. Outro importante conceito da técnica que posso destacar é a abstinência do terapeuta, dado que deixou suas expectativas serem levadas durante à análise, ou melhor dizendo o “planejamento” do caso.

Nessa época Freud já havia abandonado a hipnose, o tratamento sugestivo, e tinha recém adotado o método da livre associação, pois via como sendo uma técnica essencial para combater as forças da resistência. No entanto, na tentativa de estabelecer a livre associação vemos um Freud ainda muito ligado com a técnica da sugestão, pois na tentativa de ouvir o paciente ele acabava voltando sua atenção para si próprio e para seus conteúdos. Isso mostra o desuso da atenção que ele mencionaria posteriormente, que deveria permanecer de forma flutuante a fim de que não se fixasse a nenhum conteúdo específico, estando aberto para as questões que o paciente livre associaria.

Uma forma de pensar sobre os desusos da técnica psicanalítica no caso Dora pode ser vista no contexto em que ele se encontrava, logo após ter desenvolvido a interpretação dos sonhos ele se confrontava com a necessidade de mostrar (para si) seus conceitos na clínica, e como resultado disso vemos uma incessante procura para tentar provar a teoria, deixando ocupado o espaço da atenção que escutaria os conteúdos do paciente.

O método investigativo de Freud o fez pecar também em trabalhar a transferência dentro deste caso. É possível observar que ele já iniciava o atendimento com suas próprias respostas, tendo apenas o trabalho de encaixá-las na história da paciente. A transferência tem um peso impar para o funcionamento da análise, e olhar um trabalho terapêutico realizado por um psicanalista que ignora tal fator pode ser considerado (o que ele mesmo chamou de) selvageria.

O caso Dora me leva a acreditar que poderia não ter sido denominado de tal maneira, pois a paciente Dora foi a última a ser analisada nesse meio. Nos atendimentos, Freud colocava suas próprias premissas, e fundamentos no meio da relação terapêutica, o que leva a compreender a sua ilusão de estar analisando Dora, e que na verdade estava (inconscientemente) analisando a si próprio e sua teoria.

Vale destacar da mesma forma a postura do terapeuta diante da sintomatologia da paciente neurose, no qual Freud demonstrava voltar sua atenção para a eliminação dos sintomas, representando estar procurando uma cura, o que é incompreensível ao ponto de vista psicanalítico acerca do tratamento. A psicanálise não dá o que o paciente quer, dá o que ele precisa. Não existe essa relação médico-paciente dentro da análise.

De acordo com o texto de 1910 sobre a psicanalise selvagem podemos refletir que tais atitudes causam mais danos a própria psicanálise do que ao doente. Esse texto ao ser analisado de forma crítica parece ser sido escrito por ele ao olhar suas posturas diante da técnica clínica, mesmo que seja de forma inconsciente, que ao recomendar para os médicos ele também estivesse si incluindo.     

Dessa forma, vemos uma prática ainda engatinhando na época do caso Dora. Juntamente com isso, também vemos um Freud carregando suas incertezas em relação à teoria e o tratamento psicanalítico, e que olhando de forma positiva serviu para que posteriormente reajustasse pontos importantes e solidificasse o tratamento dentro do contexto cultural no qual se encontrava.

1Aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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