Estruturação Psíquica Freudiana: a que mestre servimos?

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Por Fernanda Borges Hisaba1

Nesta série de textos, publicados entre 1924 e 1940, Freud discute a relação do Ego com o Id e o Superego, instâncias que se definem em sua segunda tópica, seu modelo estrutural do ser humano.

 

 

 

Como o ser humano se comporta diante do mundo? Somos todos iguais? Que possibilidades o Ego tem quando se defronta com a realidade? Como lida com os desejos do Id? E com as regras impostas pelo Superego? Quais as ansiedades geradas neste processo, como eu me estruturo e que mecanismos de defesa desenvolvo no meu caminhar?

À luz da primeira tópica freudiana, um modelo topográfico, a psique seria constituída por uma Consciência, onde estariam localizados o sistema perceptivo, o sistema motor e a Censura, ou seja, meu contato com o mundo externo e interno e o controle que exerço sobre os impulsos inconscientes. Este Inconsciente seria formado, em sua quase totalidade, por desejos reprimidos oriundos do desenvolvimento sexual infantil. O acúmulo energético provocado por essas necessidades pulsionais seria gerador de uma enorme ansiedade; os desejos reprimidos estariam todo o tempo procurando satisfação na Consciência, e tentariam das mais diversas formas driblar a Censura para que, através desta satisfação, pudessem liberar um quantum de energia. Porém a Censura, vigilante e incansável, não o permite. Mas o aumento da pressão faz com que o Inconsciente encontre meios de “perfurar” essa barreira, e assim, através de recursos como o ato falho, o chiste, os sintomas, os sonhos e a transferência, podemos observar emergir na Consciência esses desejos, sempre fantasiados, de tal forma que os soldados censores não os identifiquem, não os percebam, permitam sua satisfação e não os reenviem prontamente de volta ao cárcere.

Esse seria o modelo básico do funcionamento psíquico do ser humano, para um Freud no início de seus trabalhos. De acordo com este mesmo autor, nos estruturamos psiquicamente em três possíveis formas: a neurótica, a psicótica e a perversa. Vejamos então como cada um desses indivíduos se constitui dentro desta primeira tópica freudiana.

Suponhamos o nascer de um desejo, cuja realização é intolerável à Consciência, posto que contrária às normas estabelecidas pela sociedade e àquela consciência moral por mim estabelecida. Uma vez consciente, este desejo é prontamente identificado como inimigo e, sob ordens da Censura, submetido ao processo de repressão, enviado ao Inconsciente, aquele lugar em mim onde os desejos não são extintos, porém persistem represando energia, como fonte de ansiedade. Esse desejo tentará retornar. Irá se estabelecer, assim, um compromisso entre o Inconsciente e a Censura, e este contrato permitirá que meu desejo emerja disfarçado, substituído em um elo enfraquecido do meu corpo por um sintoma. Assim, ao invés de dormir com meu pai, passo a claudicar. Sou um neurótico conforme a primeira tópica freudiana, sofrendo de uma histeria conversiva. O desejo reprimido continuará existindo, assim como a resistência à sua realização, o que sustentará a existência do sintoma.

Posso, ainda, negar a realidade, sucumbir aos desejos inconscientes e viver em um mundo de fantasia, onde não percebo a existência de outros seres, reais, mas interajo com seres fantásticos que povoam meu Inconsciente. Como não percebo a realidade, minha consciência moral é constituída, também, por material vindo do inconsciente, e sou regido por suas leis. Sou um psicótico. Caso eu perceba a realidade, porém me negue a obedecer às leis da sociedade e ignore a existência de uma consciência moral à qual devo me submeter, irei ainda assim satisfazer meus desejos reprimidos, consciente do conflito mas não afetado por ele, serei um perverso.

A partir da segunda década do século XX, Freud reformula seu modelo psíquico, e passa a identificar três novas instâncias que interagem entre si e constituem o ser humano, o Id, inconsciente, regido pelo princípio do Prazer, sede das pulsões, povoado por desejos reprimidos sempre buscando realização, o Superego, parcialmente consciente, formado pela introjeção das figuras parentais dessexualizadas durante a dissolução do Complexo de Édipo e, portanto, representante da pulsão de morte, da Lei e moral, vigilante, punitivo, castrador, e o Ego, instância também parcialmente consciente, regido pelo princípio da Realidade, meio de contato entre os mundos interno e externo, mediador entre os desejos do Id e as exigências do Superego, instância que deseja satisfazer a todos da melhor forma possível.

A ansiedade desencadeada pelo conflito entre as instâncias psíquicas e a realidade é experimentada de forma diversa por cada um de nós, e as defesas que desenvolvemos frente a essas angústias nos define.

A maioria de nós sente como intolerável a realização das pulsões libidinais; sentimos vergonha ou culpa ao “burlarmos” as leis impostas pela sociedade e por um severo Superego. Temos medo da rejeição, sofrida tanto por parte de nossos objetos de amor e desejo, como sofremos o medo da perda do amor do Superego. Enquanto neuróticos, sofremos a angústia da castração, e nos defendemos dessa perda através do recalque desses desejos proibidos. Nosso Ego tenta reprimir esses desejos, devolvendo-os ao Inconsciente assim que percebidos, rejeitamos os impulsos do Id e nos rendemos às exigências da realidade e do Superego. No entanto, o Id não se contenta com esse processo, e pressiona constantemente por ser satisfeito, o que resulta num fracasso da repressão, que irá transparecer através dos sintomas histéricos, dos pensamentos obsessivos ou das fobias. São manifestações da neurose resultante do conflito entre o Id e o Ego, que se coloca de acordo com as exigências da realidade e do Superego.

Alguns de nós, no entanto, não suporta as limitações da realidade, geralmente percebida como gravemente contrária à sobrevida do Ego. Para estes, o conflito se dá entre o Ego, pressionado pelo Id, e a realidade, e é resolvido através da negação desta última. O psicótico rompe com a realidade, externa e psíquica, e em seu lugar projeta um novo contexto. Uma nova “realidade”, construída a partir do Id, não compartilhada, portanto de caráter alucinatório e delirante, e um Superego também constituído por esses elementos. A angústia é persecutória, e a defesa, projetiva. Um exemplo clássico seria o de uma mãe que perdeu seu filho recém-nascido, e embala uma boneca, a amamenta, educa, troca, “vive” em um mundo de fantasia constituído por uma nova “realidade”, com leis às quais obedece e princípios morais particulares.

Para um terceiro e mais raro tipo, o conflito se dá entre os desejos do Id e as limitações impostas pelo Superego e pela realidade, e o Ego resolve esse conflito negando essas limitações, rejeitando a autoridade externa e do Superego. É o indivíduo perverso segundo o modelo estrutural freudiano.

Em resumo, nascemos Id e nos constituímos em nosso contato com o mundo externo. A angústia do nascimento é o protótipo de nossas angústias futuras, e remete ao desamparo e ao medo da desintegração e da perda de amor. O Ego irá se estruturar nestas relações, sofrerá cisões e reintegrações, e cada um de nós obedecerá a um mestre preferencialmente, o que, segundo Freud, determinará diferentes tipos libidinais e conformações psíquicas.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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