A angústia, a vida e Kierkegaard

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Por  Rafael Maques Menezes1

"Quando a pior coisa que você conhece na vida é a morte, você quer viver, mas quando a pior coisa que você conhece na vida é a obrigação angustiosa de existir, então, nesse dia, você quer morrer." (Kierkgaard)

 



O filósofo dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855) muito bem descreveu o conceito de angústia, na sua obra Begrebet Angest (O Conceito de Ansiedade), em 1844. Para Kierkegaard a angústia seria oriunda da escolha, procedente do autoconhecimento e da ação de responsabilizar-se, sendo a mesma angústia o que tornaria o homem consciente de sua capacidade. Para o filósofo a experiência de escolher dá ao homem a (dupla) sensação de liberdade, que no seu ponto de vista, o faz refém da angústia, ao que ele denominou “vertigem de liberdade” – exemplificando a denominação, ele a concebe frente à decisão que esse mesmo homem poderia tomar frente a um despenhadeiro, a opção de saltar (e apropriar-se da emoção que lhe acarretaria o ato) ou o paralisar-se (frente ao medo que a situação lhe imporia).

O homem consciente da sua capacidade é para Kierkegaard refém da angústia. De modo que, a pureza e o pecado caminhariam polarizados pela sua decisão, e fomentado pela angústia (da escolha) constituinte da identidade e liberdade de cada um.

Kierkegaard dividiu a vida em estádios de existências que desembocariam em três modos de existência, e abrangeriam o conceito de angústia, de maneira que:

  • No estádio Estético – o homem tenderia a colocar as sensações no lugar da angústia, sempre em busca de um prazer imediato. O homem esteta seria aquele que acreditaria que viagens, carros, bebidas, sexo, drogas e rock’n’roll seriam capazes de preencher o vasto vazio que a angústia transportaria na viagem da vida. Esse homem uma hora haveria de perceber que elas (as emoções) não dariam conta, não preencheriam ou substituiriam a angústia, e aí, o esteta seria obrigado a dar-se conta de que a angústia lhe acompanharia em todos os lugares. 
  • Outro estádio que Kierkegaard descreve é o Ético – oposto ao esteta, o homem ético é aquele que abre mão do prazer e sucumbe uma vida de dever; de obrigações para com sua família, sua comunidade, seu trabalho, enfim, esse é o cara da “família margarina” – a questão é que esse homem sempre irá fracassar, sempre, não há como você ser cem por cento ético. Você fracassa quando percebe que não tem como ser o tempo todo bom, honesto, íntegro... Já pensou você pedindo para penetrar sua esposa na cama? Por favor, eu posso colocar meu pênis na sua vagina? Caso você não seja um judeu ortodoxo, isso é impensável. 
  • E por fim, o estádio Religioso – que é quando para além do estádio ético, esse homem não mais foca no seu ser e, busca uma salvação em algo maior que ele. A transgressão (perversão) não mais seria abnegar a lei do homem, mas a lei de Deus – esse é o homem em busca de pertencimento a uma doutrina religiosa, aquele que teme o pecado. E sua vida está fadada a fracassos, mentiras e hipocrisia.

Concluindo o que Kierkegaard desenvolve em sua obra, se você achar que consegue viver substituindo a angústia por emoções, pela ética ou pela religião você agoniará. A angústia estará presente em todos os momentos da sua vida, será como o rejunte que une os azulejos de uma parede, você pode até pintar de uma cor que melhor lhe agrade, mas é impossível unir os azulejos de uma parede sem que lhe faça uso do rejunte. E assim, parece que a cada instante, a cada decisão, a cada momento da vida um pouco de angústia far-se-á presente para que ela se assente. E não haverá como substituí-la, o rejunte sempre será necessário para unir os azulejos. 

1Psicanalista, facilitador do Programa de Formação da EPP e membro do Instituto Melanie Klein-IMK atende em consultório particular e online. 

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