Freud: o Sherlock Holmes das neuroses

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Por Patrícia de Pádua Castro 1

Um “crime” ocultado pelo autor, um detetive obcecado em buscar os vestígios a partir dos efeitos para as causas, empregando a sua incrível habilidade de observação e dedução tem a capacidade de desvendar casos aparentemente insolúveis e revelar todo o mistério envolvido. Poderia ser essa a sinopse de um filme ou um livro de Sherlock Holmes, ou ainda, a descrição da prática analítica de Freud relatada em um de seus casos clínicos: O caso Dora.

 

Essa comparação pode até soar como uma crítica injusta (ou um elogio exacerbado) dirigida ao Dr. Sigmund Freud, mas a justificativa é baseada no fato de sua prática analítica se contrapor com algumas de suas recomendações dirigidas aos jovens psicanalistas, publicadas a partir de 1904 [1905] com o artigo O método psicanalítico Freudiano. A publicação deste artigo ocasionou a primeira apresentação sobre a técnica psicanalítica e suas especificidades e deu início a uma série de outros artigos que trouxeram à luz mais esclarecimentos, indicações, contraindicações e recomendações técnicas para exercício do método psicanalítico.

Analisar a técnica freudiana a partir do “Caso Dora” apresenta uma dificuldade já de início, visto que Freud relata não ter exposto detalhes da técnica, sendo essa revelada apenas em uns poucos lugares. Seu interesse era uma análise teórica do caso, objetivando mostrar a determinação dos sintomas a partir da semelhança entre a técnica de interpretação dos sonhos e a técnica psicanalítica e reafirmar a sexualidade infantil com a estrutura íntima da neurose. Vale ressaltar que a publicação do “Caso Dora” se deu no ano de 1905, mas a análise da paciente ocorreu em 1899, neste período Freud publicou A interpretação dos sonhos (1900), e também em 1905 publicou Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, trazendo explicitamente a sexualidade infantil como a etiologia das neuroses. Com isso faz-se a primeira indagação: Será que Freud conseguiu separar a condução do trabalho analítico da sua pesquisa teórica?

Num primeiro momento pode-se dizer que sim, uma vez que ele aborda no texto os cuidados que tomou para conservar o sigilo do tratamento e de ter redigido a história clínica a partir das suas lembranças sobre o caso e somente após o fim do tratamento, indo de encontro com duas de suas recomendações técnicas: não fazer anotações de grandes extensões nas sessões, e não abordar um caso cientificamente enquanto o tratamento não estiver concluído [i], ambos os cuidados são necessários para manter uma atenção equiflutuante durante a escuta analítica. Porém objetivos tão claros e ambiciosos acerca da publicação do caso, podem suscitar dúvidas, uma vez que no trabalho analítico pesquisa e tratamento coincidem, mas as técnicas de ambos divergem. Na pesquisa científica há elaboração de hipóteses e sua verificação para a construção do conhecimento o que prejudica o tratamento, pois nesse deve-se ter uma escuta aprimorada, sem expectativas, sem inclinações, não selecionar e não fixar a atenção intencionalmente, “(...) os casos que mais têm sucesso são aqueles em que procedemos quase sem intenção, nos surpreendendo com cada mudança de rumo e com o que nos defrontamos sempre desarmados e sem preconcepçõesi. Em vários momentos, Freud dá indícios de saber os pontos de partida (sintomas) e chegada (sexualidade infantil), e apenas era necessário escolher a trilha (material da análise) que iria percorrer para concluir o trajeto.

Na descrição do caso clínico, Freud relata que o pai de Dora foi quem o procurou, depois dela ter deixado uma suposta carta de despedida, que a paciente estava impelida pelo pai a fazer o tratamento, e que ela também adquirira o costume de desdenhar dos médicos que lhe prestavam auxílio. Neste ponto faz-se duas considerações importantes, a primeiro que a busca de auxílio não deve ser imposta, tem que partir do próprio paciente, talvez seja essa a condição primordial para que seja possível estabelecer e manter o tratamento psicanalítico, no qual “[...] não pode ser aplicado em pessoas que não se sintam impelidas à terapia por si próprias através de seu sofrimento, mas que se submetem a ela apenas por uma imposição de seus parentes” [ii]. Estabelecida essa primeira condição, a aparente expectativa do paciente (crédula ou desconfiada) perante o tratamento, diferentemente da técnica de sugestão, não são tidas como facilitadoras ou empecilhos para a condução do tratamento, uma vez que as resistências internas na qual fundam as neuroses são o verdadeiro desafio a ser superado.

O início do tratamento se deu com o pedido para que a paciente lhe contasse a sua história e falasse de sua doença. No artigo “Sobre o início do tratamento (1913)”, Freud amplia dizendo que o material inicial para o tratamento pode ser a história de vida, da doença, das lembranças da infância, desde que seja relatado tudo o que vem à mente, sem críticas, sem rechaçar nenhuma ocorrência, mesmo que lhe seja desagradável. Nesse ponto não se deve preocupar em obter uma narrativa sistemática, pois as lacunas e o esquecimento são ocasionados pela resistência e “cada pedacinho da história depois terá de ser contado de novo, e só nessas repetições surgirão os acréscimos que revelarão os contextos relevantes, desconhecidos do paciente” [iii]. Essa repetição não se dá só em palavras, mas principalmente por meio de atos, o paciente substitui o lembrar pelo repetir, sob influência da resistência passa a atuar, trazendo à tona a fonte do material recalcado e reproduzindo os sintomas durante o tratamento. Essa atuação muda a percepção da doença como um assunto histórico e traz ela para o presente, como algo real e atual. E Dora repetiu. Repetiu comportamento de pessoas de sua relação, manifestações e simulações de doenças, atos vingativos e sonhos... E essas repetições se deram também na relação transferencial com Freud!  

Freud a princípio diz não ter percebido a transferência e que “a parte mais difícil do trabalho técnico não esteve em consideração” [iv], mas ele a percebeu e chegou até mesmo a comunicá-la. Na análise do primeiro sonho, Freud relacionou o cheiro de fumo com o pai de Dora, Sr. K e consigo, todos fumantes. Foi ainda mais longe ao ligar essa impressão de Dora de sentir o cheiro de fumo ao acordar, com uma frase que usava com a paciente na análise “onde há fumaça, há fogo”, e até chegou a mencionar a possibilidade de ela ter ansiado por um beijo do Sr. K, e também pelo seu. Dora rejeitou essa interpretação.  Freud pareceu comunicar suas interpretações sem ter aguardado que a paciente se aproximasse do material recalcado, dando a impressão de estar despejando sobre Dora suas suposições e teorias, o que acabou por não diminuir, ou até mesmo intensificar, a resistência da paciente. A partir dessa rejeição, Freud não se ocupou mais em lhe dar esclarecimentos acerca da relação transferencial, deixou esse manejo em segundo plano.  Ele prosseguiu com a análise dos dois sonhos trazidos por Dora e assumiu no posfácio que não foi capaz de dominar a transferência devido à intenção e interesse que ele tinha em trabalhar com o material patogênico. Sim, Freud já havia deixado explícito esse interesse quando justificou a publicação do caso clínico. Ele esmiuçou cada ponto dos sonhos trazidos por Dora, criando uma trama bem elaborada da história clínica, onde cada pedaço do sonho teve sua ligação e importância na construção da história, e sua tarefa foi interligar estes pontos para que tudo fizesse sentido.

Diante deste cenário não foi difícil para Freud manter a sua postura de abstinência, recusando dar a Dora o que ela desejava: amor. Em contrapartida, Dora ao perceber a falta de interesse do médico à sua pessoa também recusava dar-lhe as informações que ele tanto almejava. Cabe aqui mais algumas indagações: Como Freud sentia-se em relação a isso? E em relação à Dora? Ou seja, pensando no âmbito da contra-transferência, Dora foi capaz de despertar quais sentimentos em Freud? Embora Freud não debruce nessa questão ao relatar o caso, há alguns indícios sobre esses sentimentos, ele chegou a mencionar que a paciente adquiriu um “comportamento insuportável“ ao se identificar com a mãe, em outro momento quando Dora põe fim ao tratamento ele faz menção aos seus impulsos de vingança e crueldade “demonstrando em sua própria pessoa a impotência e incapacidade do médico[iv], e também quando após o término do tratamento ela o procura novamente para uma conversa, ele, intimamente, promete perdoá-la por tê-lo privado “da satisfação de livrá-la mais profundamente dos seus males” [iv.] No domínio da contra-transferência Freud esteve sob desvantagem por nunca ter se submetido à análise pessoal e nem os seus casos à supervisão clínica.

Talvez essa série de condições, a motivação (ou não motivação) da paciente ao tratamento, as expectativas do analista em relação à possibilidade de o caso poder contribuir para comprovar suas teorias, a maneira que se deram o manejo das relações transferencial e contra-transferencial podem ter convergido e contribuído para uma análise fragmentada. Visto que, nesta época, Freud já havia publicado alguns artigos objetivando explicar sobre a técnica analítica, e que diferentemente da teoria, a técnica não sofreria modificações ao longo do tempo, não se pode então dizer que ele não sabia o que estava fazendo. Provavelmente valia correr o risco e ignorar algumas de usas recomendações em prol de “algo maior” e, tomando as suas próprias palavras “quem, como eu, desperta os piores demônios que, imperfeitamente domados, habitam o peito humano, a fim de combatê-los, tem de estar preparado para não sair ileso dessa luta”iv, e isso é “elementar meu caro Watson”

[i] Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912)
[ii] Sobre psicoterapia (1905[1904])
[iii] Sobre o início do tratamento (1913)
[iv] Análise fragmentária de uma histeria – “O caso Dora” (1905[1901])

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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