“Mistérios da carne” e das psicopatologias neurose e perversão

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Por Patrícia de Pádua Castro 1

O filme “Mistérios da carne” relata a história de dois jovens, Brian Lackey e Neil McComick, que jogavam em um mesmo time de baseball e aos 8 anos de idade foram abusados sexualmente pelo o seu treinador. A história aborda como essa experiência vivenciada na infância influenciou na personalidade de ambos os jovens de maneiras distintas e a busca de ambos para tentar compreendê-la.

 


Para auxiliar nessa compreensão é necessário fazer um pequeno recorte das condições estruturais da família de ambas as crianças. Brian mora com o pai, mãe e irmã mais velha. O pai aparenta ser rígido com o filho, distante, chegando a referir que o filho é “um banana” e não aparenta ter paciência e compreensão quando Brian, após um episódio traumático, começa a urinar na cama, apresentar desmaios, convulsões e sangramento nasal. Na adolescência, Brian passa a evitar contato com o pai, que já está separado da mãe, e mesmo a responsabilizá-lo pelo o que lhe acontecera na infância, embora esse acontecimento seja um mistério para ambos. Já a mãe é retratada como superprotetora, retirando-o do babasell após o incidente em que Brian é encontrado escondido no porão e com o nariz sangrando. E na adolescência continua a exercer controle em relação aos horários, alimentação e com quem Brian se relaciona, inclusive demonstrando certo desconforto quando Brian começa a se aproximar de uma mulher mais velha que ele, Avalyn. No caso de Niel, ele mora apenas com a mãe e não há referência sobre o pai. A mãe tem uma vida sexual intensa, com diferentes parceiros e aparentemente não se preocupa em esconder isso do filho, trabalha muito, negligenciando cuidados ao filho, embora demonstre afeto por ele, e em muitas situações confia Niel aos cuidados do técnico de baseball.

O filme inicia com a narrativa de Brian abordando um desaparecimento de cinco horas da sua memória, onde é encontrado no porão de sua casa, com o nariz sangrando e se recorda apenas do momento em que começou a chover durante o jogo de baseball. A partir deste momento Brian começa a urinar na cama, a sofrer de apagões, convulsões e ter sangramento nasal. Como tentativa de buscar uma resposta para preencher essa lacuna da memória, Brian fantasia ter sido abduzido por OVNIS e acredita ser esse o motivo de parte de sua memória ter sido apagada, passa então, a ter obsessão por esse assunto. A história da abdução é reforçada por meio de sonhos onde ele tem flashes de uma figura grande e destorcida se aproximando dele, tocando-o enquanto ele está deitado em uma superfície dura. Brian desenvolve uma personalidade introvertida, tímida e não aparenta ter interesse por assuntos relacionados a sexo, sendo descrito por Preston como “estranhamente assexuado”. No filme essa repulsa sexual de Brian é mostrada em dois outros momentos, o primeiro em que Avalyn faz uma investida sobre ele tentando retirar-lhe a roupa, o que faz Brian expulsá-la de seu quarto e evitar posterior contato com ela. E quando ele mostra seus desenhos para Preston, no qual ele ilustra um ET parcialmente despido, com a cueca cobrindo as suas genitálias, e usando tênis de baseball, provavelmente fazendo uma referência, mesmo que inconsciente, ao abuso sexual que lhe ocorrerá na infância. Essa “assexualidade” de Brian pode ser explicada pela sua intensa repressão sexual e forte resistências ao instinto sexual como, por exemplo, na forma de pudor, vergonha, nojo. Em seus estudos sobre histeria, Freud já considerava a energia do instinto sexual como única e constante fonte de energia da neurose, uma fonte numerosa de oportunidades para o surgimento de representações incompatíveis, ou seja, uma fonte para formação de sintomas histéricos. Onde há enorme necessidade sexual há também exacerbada rejeição da sexualidade, funcionando como forças opostas e esse conflito não resolvido buscam uma expressão adequada, convertendo os impulsos libidinais em sintomas histéricos.

Niel descreve, nas primeiras cenas do filme, a admiração que sentiu pelo treinador de baseball, comparando a sua beleza com a de um deus e relata que só havia visto tal beleza nas fotos dos bombeiros em revistas que a sua mãe possuía. Isso remete a uma questão levantada nos Três ensaios da sexualidade sobre a bissexualidade inata, em que todos estão predispostos a sentir atração por homem e mulher. Na infância essa bissexualidade pode se manifestar por meio da admiração dos atributos do corpo de pessoas do mesmo sexo e na identificação com essas pessoas, porém a escolha do objeto sexual virá a se definir somente mais tarde. A partir deste impacto inicial Niel faz de tudo para atrair a atenção do seu técnico e se empenha para agradá-lo e deixá-lo feliz, tornando-se então o melhor jogador do time. O técnico aproveita dessa idolatria do garoto e também de sua carência afetiva, uma vez que ele fica a maior parte do tempo sozinho, para seduzi-lo e manter relações sexuais com ele. Os atos sexuais consistiam em beijos, masturbação, sexo oral e às vezes o técnico pedia para que a criança inserisse o braço em seu orifício anal. Esse contato sexual precoce com um adulto influenciou mais tarde no seu comportamento sexual quanto à meta e possivelmente também em relação ao objeto, embora em relação a esse último não exista uma conclusão única e satisfatória para a causa da inversão.

Nos Três ensaios da sexualidade, Freud quebra paradigmas mostrando que há uma sexualidade infantil e que a criança é sexualmente polimórfica, perversa e egoísta, ou seja, é capaz de buscar prazer de múltiplas formas, de maneira autoerótica e uma vez que as zonas genitais não estão suficientemente desenvolvidas para assumirem o seu papel predominante, utilizam de outras partes do corpo denominadas zonas erógenas (mucosa da boca, ânus, principalmente) para buscar satisfação por meio de estimulação. Nesta fase a criança não encontra barreiras psíquicas bem estabelecidas, como nojo, vergonha e moral, para inibir o comportamento polimorficamente perverso, uma vez que é considerado como meta sexual normal o encontro entre o pênis e a vagina, sendo qualquer desvio em relação a essa meta uma perversão. Mas depois de determinado período de atividade sexual infantil, a criança entra em um período de latência, onde essa pulsão sexual é direcionada para outros fins e inicia-se o desenvolvimento de outras áreas da vida da criança.

A interrupção do período de latência, e o reaparecimento da atividade sexual podem ocorrer tanto por motivos internos quanto externos, como no caso do filme, devido à sedução. No caso do Niel, as frequentes excitações das zonas genitais causaram a sensação de satisfação e obrigatoriedade de renová-la por meio da masturbação e possivelmente a fixação na perversão. Essa necessidade de descarga da tensão sexual fica evidente na cena do filme no qual ele vê a mãe praticando sexo oral no namorado e se masturba assistindo ao ato, a ponto de ejacular pela primeira vez e querer compartilhar o feito com o técnico. No período de latência há uma interrupção da atividade sexual e a criança deixa de direcionar a atenção apenas para si e passa a aprender a se relacionar com o outro, a desenvolver empatia e amor e a sua interrupção pode trazer consequências como o não desenvolvimento dessas faculdades. No filme isso pode ser observado na descrição de Niel pelos amigos como sedutor, frio, egocêntrico e sem coração.

Segundo o modelo teórico proposto por Freud, experiências emocionais vivenciadas inicialmente como prazer e depois sentidas como desprazer e, portanto insuportáveis para consciência sofrem repressão e tornam-se inconscientes, sendo para esse autor, a sexualidade infantil é a fonte do conteúdo recalcado. Mesmo que essas lembranças da atividade sexual infantil permaneçam esquecidas, isso não significa que foram apagadas, pois segundo Freudas emoções não expressas nunca morrem" Elas são enterradas vivas e saem de piores formas mais tarde”, ou seja, esse desejo recalcado vai se tornar novamente consciente, mas de uma maneira transformada, expresso, por exemplos, por meio dos sintomas neuróticos, sonhos e na transferência. No caso das duas crianças devido às diferenças nas suas estruturas psíquicas, educação, etc., esse retorno do recalcado é manifestado de maneiras distintas. No caso de Brian as barreiras psíquicas como a vergonha e a moral parecem terem sido mais bem estabelecidas na infância e como consequência esses impulsos sexuais sofreram repressão. Porém essa descarga da energia sexual recalcada aparece no filme de duas maneiras, por meio dos sonhos e pelos sintomas histéricos. Na psicanálise, o sonho é a realização de um desejo que se encontra reprimido e para que esse desejo se manifeste na consciência é necessário que o conteúdo recalcado seja “modificado”. Para tanto o aparelho psíquico utiliza de recursos como condensação e deslocamento para driblar a censura imposta pela resistência. Essa realização do desejo no ato de sonhar faz com que se evite a satisfação real, conservando a integridade moral do sonhador, ou nas palavras de Platão “O homem virtuoso se contenta em sonhar, enquanto o homem perverso realmente o faz”. Na perversão as zonas erógenas possuem uma significação especificamente sexual, como no caso da boca e do ânus. Já nas psiconeuroses as zonas erógenas e histerógenas exibem as mesmas características, embora sejam mais difíceis de reconhecer, sendo a manifestação dos sintomas como uma atividade sexual dos neuróticos. No filme quando Brian estava em alguma situação que o remetia à ocorrência passada de excitação na zona erógena, sofrida no abuso, ele tinha convulsões e sangramento no nariz. Na histeria, a soma de excitação é convertida em sintoma, ou seja, a dor psíquica é convertida em dor física. Essa conversão é custeada por afetos recém-vividos de um lado, por exemplo, quando ele insere a mão dentro do gado mutilado, e por afetos recordados de outro, quando ele inseriu a mão dentro do ânus do treinador, surgindo os sintomas, no caso de Brian as convulsões e sangramento nasal. A escolha” da região do corpo no qual se estabelecerá a conversão é baseada no menor gasto de energia psíquica do aparelho mental e neste caso ocorre preferencialmente por meio de uma ligação associativa. No dia que ocorreu o abuso, Brian foi encontrado com o nariz sangrando, embora ele não recorde, esse sangramento foi devido a um desmaio no qual ele bateu o rosto no chão e machucou o nariz. Logo, por ligação associativa, toda vez que ele se aproxima das lembranças recalcadas surge os sintomas histéricos como sangramento nasal e convulsões.

Já no caso de Niel, o filme retrata a necessidade de repetição, ou seja, a transferência de uma situação passada esquecida que é revivida e repetida no momento presente, como por exemplo, a preferência em se relacionar sexualmente com homens mais velhos, remetendo a imago do treinador. No desenvolvimento infantil, o não desenvolvimento das faculdades relacionadas com a compaixão oferece o perigo de que os instintos de crueldade se associem com os erógenos, podendo tornar-se indissolúveis posteriormente. Essa situação é retratada no filme quando, ainda na infância, o personagem sequestra um garoto com certo grau de demência e coloca fogos de artifícios em sua boca, após o ato, Niel masturba e faz sexo oral no garoto numa tentativa de não ser delatado, assim como o treinador havia feito com ele. Na adolescência esses sintomas continuam a se manifestar por meio do seu comportamento rebelde, agressivo, transgressor e autodestruitivo, como no caso da prostituição, onde ele busca reviver a satisfação sexual infantil, principalmente pelo sexo oral, a qualquer custo e se colocando em situações de risco de morte.

Embora as duas crianças tenham “sentido” de maneiras diferentes essa situação e desenvolvido processos psíquicos distintos como uma tentativa de processar o que lhes ocorrera, a jornada de ambas convergem para um ponto, que é buscar preencher um vazio, uma falta. Niel relata que essa relação com o treinador ocorreu durante todo o verão e que um dia o treinador simplesmente desapareceu e ele não teve mais notícias. A partir desse momento Niel inicia uma tentativa de preencher o vazio deixado pelo treinador, buscando reviver esse amor, esse sentir-se especial que ele vivenciara na relação com o treinador. Já a busca de Brian está relacionada em preencher as lacunas deixadas em sua memória, a compreender o que lhe havia acontecido de modo que ele desejava dormir e ter outros sonhos além daqueles que o atormentavam. No final do filme os dois jovens se reencontram no mesmo local onde foram seduzidos e Niel relata a Brian os acontecimentos ocorridos naquele dia, enquanto as lacunas da memória de Brian começam a ser preenchidas, o relatar faz com que a imagem “idealizada” do treinador comece a esvanecer, levando-o a uma melhor compreensão do ato ocorrido, despertando um desejo de voltar ao tempo e desfazer o passado, deixando o mundo para trás.

O filme Mistérios da carne chama a atenção para o entendimento de cada indivíduo como um universo à parte, onde é impossível generalizar sobre a forma de reagir, experimentar e de sentir do ser humano. Embora existam modelos teóricos que buscam explicar o funcionamento psíquico não há uma generalização, pois cada experiência emocional é única, é individual, mesmo quando vivenciadas em situações semelhantes. Durante o desenvolvimento de suas teorias Freud empregou muito o conceito de forças opositoras, elementos antagônicos como as ideias de passivo e ativo, prazer e desprazer, inversão de afetos: amor e ódio, forças repressoras e retorno do recalcado, etc.. O filme retrata bem um desses pares de opostos levantados por Freud nos Três Ensaios da Sexualidade onde ele diz que “a neurose é o negativo da perversão”.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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