Representações de diferentes formas de processamento da experiência de abuso sexual no filme Mistérios da Carne, de Gregg Araki

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Por Ivana Ferigolo Melo1

O filme mistérios da carne (2004) expõe, a partir de uma narração marcada retrocessos no tempo cronológico, o período existencial de dois meninos de mais 15 anos que têm suas vidas intensamente marcadas por um acontecimento, por eles vivenciado, aos 8 anos de idade, período em que a criança, segundo Freud, encontra-se na fase de latência,  incorporando leis morais, desenvolvendo atividades intelectuais e artísticas, que têm por finalidade reprimir ou sublimar os impulsos sexuais que se manifestam de várias formas (polimorfismo) entre os 2 e 5 anos de idade.

O acontecimento que ambos os meninos, um chamado Brian e outro Neil, experimentam aos 8 anos de idade e que lhes deixa marcas indeléveis em seus decursos existenciais é o abuso sexual que sofrem do técnico do time de beisebol em que jogam. Embora vítimas da mesma experiência, Brain e Nail processam de forma diferente o trauma sexual sofrido em suas infâncias, ou seja, apresentam uma formação de reação oposta para um mesmo fenômeno experimentado na fase de latência.

Brian parece reprimir, recalcar, o ocorrido e o mecanismo utilizado por sua psique para afastar da consciência a experiência insuportável é o registro de uma amnésia de 5 horas de duração. Após a experiência sexual traumática, o pequeno Brian esquece o ocorrido, perde a consciência, acorda cinco horas depois no porão escuro de sua casa com o nariz sangrando e não consegue lembrar posteriormente o que lhe sucedera nesse interstício. A experiência insuportável à consciência, o recalcado, que Brian empurra para o inconsciente retorna à consciência em forma de sonho mediante dois processos (trabalhos do sonho): condensação e deslocamento. Pouco tempo após a traumática experiência, Brian, que conta com o afeto constante de sua mãe, está na sala vendo filme e visualiza um objeto que se desloca no céu, o qual, sendo estranho, desconhecido, soa como ameaça. Brian impressiona-se com o objeto e afirma ser um óvni. Após registrar essa visão impressionante, ele passa a sonhar constantemente com óvnis abduzindo-o e acorda muito alterado. Os óvnis recorrentes em seus sonhos têm olhos pretos enormes e mãos humanas, ou seja, correspondem a figuras originadas de um processo de condensação, em que várias cadeias representativas (olhos e mãos humanas, face e corpo de ETs) estão sintetizadas em uma única imagem. O fato de o óvni abduzi-lo, imprimir uma força sobre ele, dominá-lo, no sonho, traduz-se como um trabalho de deslocamento, que expressa a permanência da ideia (significante) de dominação, de força exercida pelo pedófilo, que, no sonho, é deslocada para o óvni, ou seja, atrelada a outra representação (óvni), a qual reúne, simbolicamente, um traço (significado) do pedófilo: a força, o poder de dominação. Percebe-se que, por reprimir, via ação da censura, a experiência traumática, Brian passa a registrar a angústia do trauma e que o conteúdo recalcado, uma vez que é inadmissível a sua consciência, retorna disfarçado, via condensação e deslocamento, pelo sonho, quando, segundo Freud, a atividade de vigília diminui, mas não cessa. Ou seja, o afeto, atrelado à representação do trauma sexual aparta-se dessa representação e associa-se à imagem do óvni (deslocamento) já modificado pelo trabalho de condensação. É possível concluir, assim, que, devido à censura, em virtude de Brian ter já, aos 8 anos, período de latência, introjetado regras morais e por contar com o afeto e cuidados constantes da mãe, ele rejeita completamente o acontecimento sexual, recalca-o, esquece-o, mas ele retorna angustiando-o no sonho e, também, em forma de transferência, determinando, assim, sua vida sexual.

Brian não busca relações sexuais após a puberdade. Apresenta um comportamento assexuado. Quando Avalyn, outra personagem que tem interesse por óvnis, tenta uma relação sexual com ele, é rejeitada. A inadmissão de Brian ao ato de pedofilia sofrido na infância, como indica Freud, marca sua vida sexual na puberdade e na vida adulta, levando-o a rechaçar toda e qualquer atividade sexual e a preferir relações afetivas. Dessa forma, ele reedita tanto a relação que tem com a mãe, a figura que sempre lhe deu afeto e proteção, como o rechaço a qualquer tipo de relação sexual. Ou seja, Brian realiza transferências, ao longo da vida, tanto da relação afetiva com a mãe e como da rejeição de sua primeira e traumática experiência sexual.

Angustiado com o retorno do recalcado via sonho e com o desconforto que a amnésia de 5 horas registrada após sofrer a pedofilia lhe causa, Brain lança-se em uma constante busca para saber o que lhe ocorreu naquele período em que perde a consciência. Sua meta ao longo do filme é tomar consciência do recalcado, do obscuro, da verdade inadmissível. Para tanto, empreende, na perspectiva de Freud, uma cruzada pelo conhecimento do conteúdo inconsciente que implica, se alcançado, o alívio, a cura. No final, parece atingir sua meta, pois consegue encontrar Neil (menino que sofria abusos do técnico de beisebol e que participa do abuso sofrido por Brian) e fazer com que ele lhe relate o ocorrido. Na casa do abusador, Brian, deitado no colo de Neil, escuta a narrativa com dor e visualizando o espaço onde tudo ocorrera, fator que aguça a memória. Ali, ele toma ciência do que não suportara, mas aguenta, mostra-se apto a conviver com o reprimido, vence a resistência, demonstrando, na perspectiva de Freud, a possibilidade de recolocar a energia, a libido, vinculada ao trauma a disposição da vida.

Neil, conforme mencionado, processa a experiência sexual com o pedófilo de maneira muito diferente de Brian. Filho de uma mãe que não o acompanha, não lhe ampara afetivamente, não lhe dá limites, e sem contar com a presença do pai, ele parece encontrar no pedófilo o amparo, o afeto, a atenção que não dispunha em casa. Para seduzir Neil, o técnico de beisebol lhe oferece-lhe comida, atenção, brinquedos. Busca-o em casa para os jogos, serve-lhe lanche após as partidas, ou seja, cumpre o papel que a mãe de Neil não cumpre. Além disso, a mãe de Neil não demonstra pudores, mantém relações sexuais com namorados sem muitas reservas e Neil presencia, aos 8 anos de idades, tais relações, registrando excitações, que, nessa fase (fase de latência) deveriam, segundo Freud, adormecer ou ser canalizadas para outras atividades não sexuais (sublimação) pela ação da censura, oriunda tanto da condição orgânica do indivíduo que não consegue manter relações sexuais dentro da norma nessa idade como da introjeção de acepções morais, as quais costumam ser absorvidas, segundo Freud, no período dos 5 anos até a puberdade.

Ao não contar com a presença repressora do pai, ao não passar pela castração, não introjetar regras morais e contar com pouca atenção e afeto da mãe, Neil, aos 8 anos, não ingressa no período de latência. Registra, consequentemente, a continuidade das excitações sexuais da fase fálica e carência de amparo, de afeto. Dessa forma, a experiência com o pedófilo não lhe causa dor. Fornece-lhe, pelo contrário, prazer (o prazer oriundo da satisfação do impulso, da tensão sexual) e proteção. Consequentemente, Neil vivencia experiências sexuais precoces e não as reprime, não as recalca. Carrega-as para o decorrer da vida em forma de sintoma, reeditando-as, incessantemente, desfrutando de relações sexuais perversas (fora da norma), as únicas que pode registar no período de latência, já que, segundo Freud, nessa fase, a criança, por uma condição orgânica (tamanho dos órgãos genitais, ausência de formação de material sexual), não conta com a possibilidade de realizar atos sexuais normais, mas somente de gozar do prazer de experiências perversas, sem fins reprodutivos. Neil reafirma, dessa forma, a tese de Freud presente na obra Três ensaios sobre a sexualidade: o pressuposto de que as experiências sexuais da infância exercem influência determinante no devir da vida sexual do indivíduo tanto na fase da puberdade como na adulta.

Como a experiência sexual para Neil não fora negativa, mas satisfez seus impulsos sexuais fálicos que não passaram pela fase de latência, que não foram detidos, sublimados, além de ter vindo acompanhada de afeto e cuidado, ele, sintomaticamente, busca, de forma narcísica e perversa, a reedição dessa primeira relação. Procura tanto o prazer sexual perverso (fora da norma) como o afeto e a proteção que o pedófilo lhe proporcionara. Cresce sem limites, sem considerar o outro, mostra-se perverso e sádico, pretendendo, sempre, que os outros lhe satisfaçam de forma variada e plena. Ele mesmo afirma, no decorrer do filme, que se sentia protegido com o técnico. Neil vivencia um desiquilíbrio por excesso de libido sexual não sublimada, nem reprimida e, nas constantes relações sexuais que ele mantém na fase da puberdade e posteriormente, parece querer encontrar, também, proteção, recompensa. Por isso, faz do sexo uma profissão e do dinheiro a recompensa capaz de lhe trazer alguma segurança. Sua busca parece ser a conjunção do prazer sexual perverso, fora da norma com a proteção a segurança.

Devido à diferença na forma como processam as mesmas experiências registradas na fase de latência, Brian e Neil apresentam estruturações psíquicas diferentes. Brian apresenta uma estrutura neurótica. A de Neil tende para uma condição perversa, sem travas morais, éticas. Nas palavras de Wendy, personagem que no filme é melhor amiga de Neil, ele (Neil) é perigoso, é um buraco profundo, vazio, não tem coração, não reserva lugar para o outro. A meta de Neil é o prazer e a proteção sem limites, a realização de transferências constantes da figura do pedófilo para outros, a reedição das perversas experiências sexuais vividas na infância. O que ele não encontra, porém, é a proteção, o cuidado, na reedição de sua experiência sexual primeira, o dinheiro não cumpre essa função e os outros, não são o técnico de beisebol, e, muitas vezes, agridem-no, tornando desprazerosas algumas de suas relações. Neil, devido ao excesso de pulsões e à vazão que dá a elas, registra um desiquilíbrio que lhe causa certa angústia: a angústia, o desconforto, oriundo do excesso de libido sexual. Parece que no final do filme ele se dá conta de que não se preenche e de como é esgotadora sua narcísica busca: é quando ele aceita um trabalho diferente do que realiza com a profissão garoto de programa, quando resolve contar para Brian o que aconteceu, demonstrando, também, certa consideração pelo outro.

O filme Mistérios da carne expressa de forma clara e bem trabalhada a grande tese de Freud, aquela que sustenta serem as experiências sexuais da infância determinantes para transcurso da vida sexual na puberdade e na fase adulta. Explicita, ainda, que, em função da relação da criança com o pai e com a mãe e pela maneira como passa pelas fases infantis, como a fase fálica e a de latência, o ser humano poderá processar de forma diferente as experiências sexuais e, consequentemente, apresentar particularidades na estrutura psíquica bem como sintomas diversos. Trata-se de um filme muito rico em material para práticas de reconhecimento e compreensão da teoria Freudiana. Mostra, através de personagens com traços psíquicos e comportamentos opostos, a estruturação e o funcionamento da psique do indivíduo que Freud tentou descrever em duas grandes obras de seu amplo repertório teórico: A interpretação dos sonhos e Três ensaios sobre a sexualidade.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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