A construção do perverso e do neurótico no filme “Mistérios da Carne”

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Por Helenice da Conceição  C. Lopes1

A história desenvolve-se em torno de 2 meninos Brian Lackey e Neil McComick que passaram pela mesma experiência de abuso infantil, mas cada um “processou” essa experiência de formas diferentes: Brian Lackey não consegue lembrar-se e Neil McComick não consegue esquecer. Em um processo de busca de Brian, o reencontrar-se com Nil, possibilita que se ajudem a ressignificar o abuso pelo qual passaram juntos.

 

Tendo como base a teoria psicanalítica Freudiana, a apresentação inicial do filme na triangulação das duas crianças abusadas e seu treinador pedófilo, quase nos faz sucumbir ao primeiro erro reconhecido por Freud no desenvolver de seu trabalho sobre a Psicogenese das Neuroses, a manifestação histérica na vida adulta como resultante de um processo de sedução ocorrido nos primeiros anos da infância. Porém, assim como no processo de evolução da psicanálise Freudiana, no filme vamos tomando conhecimento da complexidade de uma possível estruturação da libido humana.

Vemos que os dois meninos de 8 anos abusados, segundo Os três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, estão no período de latência, período após a fase fálica (em torno dos 5 anos) e anterior a puberdade e que ambos tem a triangulação do Edipo não tão estruturados: pai - mãe - criança. A vértice pai de Neil McComick é constantemente alterado pelos inúmeros namorados de sua Mãe, namorados esses que em seus olhos de criança já desperta-lhe a observação sensual, apresentando até mesmo uma disputa pelo objeto comum com sua mãe. A falta da presença fixa da figura paterna na infância de Nill é facilmente preenchida pela dedicação e atenção que o treinador lhe oferece, desenvolvida através de jogos de sedução para consumação do abuso. No filme, a perversão do treinador em ser possuído pela criança, provoca o comportamento perverso que Nil desenvolve em sua adolescência, não aprofundando vínculos afetivos e nos sintoma característico de sua neurose obsessiva de relacionar-se com homens mais velhos, sempre procurando reencontrar o afeto que imaginava ter recebido de seu treinador na infância.

Para Brian Lackey, vemos a construção do comportamento neurótico através das lembranças recalcadas resultantes do abuso sofrido. Os sintomas em Brian apresentam-se através da sangramento nasal inconscientemente provocado, como forma de retorno ao desmaio após ao abuso sofrido, a enurese noturna associado a excitação sexual proibida e provocada pelo abuso , o ódio ao pai que não era presente em sua infância, e posteriormente a sublimação desenvolvida na crença de extraterrestres e abdução, presentes em seus sonhos e como uma forma condensada de apresentar-se a figura do pai substituído pelo treinador e deslocada para a figura do extra terrestre, pai que não foi de sua escolha e que não possuía entendimento dentro de seu universo infantil; e a abdução como a condensação do abuso sofrido. Enquanto Nil faz seu processo de busca através do comportamento perverso presente em suas relações de prostituição, Brian vive sua busca através da sublimação na crença em extraterrestre, forma de condensação pela qual seu inconsciente encontrou, mesmo que em processo de busca ele nunca reencontrar-se com a figura central de seu trauma. O reencontro entre Brian e Nil possibilitou a reconstrução do momento compartilhado por ambos, através das lembranças nítidas do perverso Nil e sua vivência de afeto com neurótico Brian que buscava sair de seu estado neurótico quase alucinatório. Brian consegue entender seus sonhos e reconstruir suas lembranças e Nil entende que nunca foi amado como acreditou ser pelo treinador e toma consciência da decrepitude de suas vidas.

A experiência da análise do filme foi perturbadora para mim, pois objetificar a dor de duas crianças que passaram por abuso e enquadrá-las no modelo psicanalítico Freudiano a fim de reconhecer os possíveis fatores motivadores de suas neuroses, mostrou-me que o modelo pode nos auxiliar enquanto psicanalistas no entendimento dos sintomas, mas não responde aos caminhos a serem tomados para acolher a dor do paciente e apresentar-lhe a decrepitude da existência humana sem amplificar os sintomas.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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