Da hipnose à Psicanálise: o caminho de Freud e seus desvios

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Por Fernanda Borges Hisaba1

Hipnose: método através do qual se induz em alguém um estado de consciência que envolve atenção focada e redução da consciência periférica. Há uma “ampliação” da consciência de tal forma que o hipnotizado tem acesso facilitado a suas memórias, mesmo as mais remotas. O estado hipnoide torna o sujeito particularmente sensível à sugestão. Diretamente dependente da formação de um vínculo de confiança entre o hipnotizador e o seu paciente. Ainda hoje encontra-se a prática da hipnose nas mais diversas formas de terapia, tendo sido utilizada por Freud até mesmo no início do desenvolvimento da técnica da Psicanálise, após o quê este, gradualmente, a abandona.

Sugestão: Consiste em sugerir algo a outrem e este acatar esse algo. Embora facilitado na presença de estados hipnoides, também pode ser utilizada na vigília. Não há necessidade da presença de estados patológicos para sua prática. Charcot se utilizou da sugestão sob hipnose para validar suas ideias a respeito da histeria. Este método foi também muito utilizado no tratamento das neuroses, inclusive por Freud, porém com pobres resultados, temporários, sujeito a constantes recidivas dos sintomas, levando-o a questionar sua validade enquanto método terapêutico isolado.

Anna O. e o método catártico, ou terapia pela fala, “limpeza da chaminé”: a paciente de Breuer marca o início da utilização do método catártico na terapia das neuroses. Constitui-se em um método terapêutico com participação ativa do doente. Ainda realizada sob hipnose (porém, não obrigatoriamente atrelado a esta), valendo-se da “ampliação da consciência” atingida através desta, o analista questionava a paciente sobre o contexto presente no momento do início dos sintomas. Esta, acessando sua memória mais remota, descrevia este contexto e falava sobre o trauma que teria induzido o surgimento dos sintomas. Acreditava-se, assim, que, através da fala, o sintoma seria permanentemente extinto, o que se mostrou um equívoco. Anna experimentou um período de grande melhora, porém interrompido por diversas recaídas e surgimento de novos sintomas.  Percebeu-se que somente a exposição do trauma, a catarse, não seria suficiente para a supressão definitiva da neurose.

Emmy von N. e a livre associação de ideias: Freud atribuía a suas pacientes o papel de suas “mentoras” na evolução de seu método terapêutico. A Sra. Emmy von N., irritando-se com o constante questionamento de Freud sobre a origem dos seus sintomas histéricos, pedia a ele que apenas escutasse o que ela tinha a dizer, sem interrupções. Falando livremente, a paciente tornou a Freud possível a percepção de que não haveria necessidade da hipnose e do questionamento, pois, através da livre associação de ideias, a recuperação das memórias do evento traumático seria possível, assim como o alívio sintomático obtido através da exposição de tais eventos. A Sra. Elisabeth von R. viria a trazer a Freud um último e essencial componente à construção de sua técnica analítica: Freud descobriria a resistência. Quando a paciente interrompia seu curso de associação livre de ideias, era questionada sobre quais seus pensamentos no momento, questionamento ao qual procurava se esquivar, minimizando sua importância ou alegando “esquecimento”. Freud percebera, então, que estes esquecimentos voluntários encontravam-se no cerne traumático instigante do quadro conversivo. Acreditava que a única forma de libertação seria através da catarse. Porém, novamente, fora confrontado com a ideia de que a rememoração do trauma por si só não era capaz de extinguir completamente os sintomas. Havia necessidade de ab-reagí-los, elaborá-los, eles deveriam ser interpretados e trazidos de volta ao paciente. Foi o primeiro caso de “cura”, através do qual Freud observou o sucesso de sua então recentemente estabelecida técnica psicanalítica: livre associação de ideias, identificação e superação das resistências e elaboração e ab-reação do trauma.

Anos após o desenvolvimento da técnica psicanalítica, Freud teceria suas primeiras recomendações para a prática da psicanálise: ouvir o paciente sem restrições, mantendo o estado de “atenção equiflutuante”; não realizar anotações, salvo em situações específicas, como alguns relatos de sonhos e casos nos quais há intenção de publicação, sempre com o prévio consentimento do analisando, evitando más impressões e seleções nocivas do conteúdo apresentado pelo paciente; evitar publicações enquanto o trabalho analítico não houver sido levado a termo; procurar preservar uma certa distância emocional, afetiva, entre analista e analisando, com o intuito de manter a integridade afetiva do primeiro e um maior acesso terapêutico ao segundo; o analista deve submeter-se à análise pessoal durante todo o período de trabalho psicanalítico, a fim de tratar suas próprias resistências e impedir que o recalque crie “pontos cegos” em sua capacidade laborativa; evitar o estabelecimento de uma intimidade entre o par analítico através da própria exposição do analista no que concerne a sua experiências vividas, o que poderia aproximá-lo da sugestão; não ceder à ambição de “curar” por completo o paciente, procurando respeitar os limites de sua capacidade de sublimação. Forçá-lo, nesse sentido, poderia tornar-se fonte de um maior adoecimento psicológico; não tirar proveito da contribuição intelectual oferecida pelo paciente. Não lhe atribuir tarefas. Não oferecer material educativo que possa propiciar meios para o não cumprimento da regra fundamental da psicanálise. Não envolver, com o intuito de receber ajuda, a família do analisando no processo analítico.

Considerando a época em que Freud formalizou suas recomendações para a prática psicanalítica, em 1912, e confrontando-as com o “caso Dora”, cujo atendimento se deu no final de 1889, e a publicação de sua análise, em 1905, devemos, mostrando-nos crédulos, ao menos observar que Freud teria tomado como “lição” seus erros cometidos durante este trabalho psicanalítico. Sendo, no entanto, mais rigorosos nessa avaliação, a observação atribuída a Peter Gay – “Freud não lia Freud” – nos parece pertinente. Freud utilizou-se do depoimento do pai de Dora como substrato para iniciar suas considerações, muito embora tenha realçado que preferira deixar para manifestar-se a respeito após ouvir “a outra parte”. A publicação do caso ocorreu sem a ciência da paciente, sem seu consentimento. Há momentos em que parece apropriado dizer que Freud atribuía pequenas tarefas à sua jovem paciente, e que realmente ambicionava a cura completa do quadro neurótico da mesma; não questionava a validade de seu método ou a sua própria capacidade e maestria em utilizá-lo, e somente a Dora responsabilizava por seu insucesso. Entretanto sua principal omissão teria sido a incapacidade em ouvir a paciente de forma imparcial, valendo-se de seu próprio inconsciente, escapando às próprias restrições. É fato que Freud não seria capaz de realizar uma análise pessoal, sendo o mesmo o criador do método psicanalítico; o máximo plausível seria a autoanálise. Porém, a seletividade de Freud não se justificava totalmente por este motivo. O pai da Psicanálise moldava, manipulava, de forma a adequar a suas próprias teorias os fatos que analisava. Atribuir seus equívocos à imaturidade da Psicanálise enquanto técnica seria deixar-se tomar por uma ingenuidade que deve ser combatida no processo de formação do psicanalista.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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