Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço

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Por Patrícia de Pádua Castro1

Em 1904 [1905] com o artigo O método psicanalítico Freudiano, Freud faz sua primeira exposição sobre a técnica psicanalítica e suas especificidades. Outros três artigos, Sobre psicoterapia (1905 [1904]), Sobre psicanálise selvagem (1910) e Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912), trazem mais esclarecimentos, indicações, contraindicações e recomendações técnicas para exercício do método psicanalítico, além de abordar as diferenças entre a psicanálise Freudiana e as técnicas de sugestão hipnótica de Charcot e método catártico de Breuer.

O desenvolvimento da técnica psicanalítica originou-se a partir de observações empíricas em modificações sucessivas feitas aos métodos de Charcot e Breuer. O método de sugestão hipnótica de Charcot foi comparado por Freud como a técnica artística da pintura, onde a deposição da tinta sobre a tela é análoga aos acréscimos no inconsciente do paciente por sugestão médica. Se a sugestão for forte o suficiente será capaz de prevalecer sobre a manifestação patogênica, impedindo-a. Porém este método apresenta as limitações de só ser aplicável a um número restrito de pacientes – aqueles capazes de serem hipnotizáveis e de aceitarem a sugestão –, e no fato da sugestão ser incapaz de ser mantida por tempo indeterminando, retornando a doença ou criando-se um substituto a ela. Neste método não há preocupação em buscar a origem, força e importância dos sintomas. Posteriormente, com o método catártico, Breuer abandona a técnica de sugestão e com o paciente sob hipnose busca-se alcançar uma expansão da consciência, onde a fala do paciente - sob a condução do médico - o leva a uma “viagem” a seu passado e os sintomas são afastados por regressão até a primeira lembrança do trauma, oportunizando a ab-reação dos afetos e suspensão destes. O método esbarra no problema de não haver uma única impressão traumática, mas uma série dessas ocorrências que culminam na formação do sintoma. Este método diferencia do proposto por Charcot pelo fato da suspensão dos sintomas encontrarem uma nova rota psíquica de escoamento energético, diferentemente da proibição sugestiva pelo médico aplicada anteriormente. Embora seja aplicável a um número maior de pacientes, pois elimina a necessidade dos pacientes aceitarem a sugestão, ainda é necessária a condição de o paciente ser hipnotizável.

Após ter acompanhado os trabalhos de Charcot em Salpetriére e trabalhar juntamente com Breuer, Freud vai modificando gradualmente a sua prática e abdica da hipnose, adotando, no método psicanalítico, a postura do paciente deitado no divã de maneira relaxada, e o analista na posição de observador, assentado em uma cadeira atrás do paciente, e nestas posturas estabelece-se então uma conversa entre duas pessoas igualmente despertas. Com essa nova técnica a escuta do sofrimento até o trauma primário é substituído pelo livre falar do paciente que permite acesso ao inconsciente por meio das ocorrências involuntárias, interpretação de sonhos, por atos falhos e não planejados, denunciados pela fala, ação e semelhantes. 

Este procedimento apresenta a vantagem de poder ser aplicável em um número ilimitado de pacientes (embora Freud descreva algumas restrições ao método devido a determinadas características dos pacientes a serem atendidos), além do mais com essa técnica é possível reconhecer as resistências e superá-las – o que não ocorria com a hipnose, uma vez que estas eram apenas contornadas –, e isso é um dos fundamentos de sua teoria, o que possibilita a compreensão do comportamento do paciente em sua vida, sendo o ambiente terapêutico, o lugar e o momento, onde é possível diferenciar o discurso do paciente da sua prática.

Com o tratamento psicanalítico pretende-se suspender as amnésias, reverter os recalques, tornar o inconsciente acessível ao consciente buscando reestabelecer no paciente “a capacidade de realizar e gozar” ou “trabalhar e amar”. Para isso, exige-se apenas do paciente que cumpra a “regra psicanalítica fundamental” falar aquilo que lhe ocorrer na mente, sem julgamento, sem selecionar pensamentos por mais que possam parecer vergonhosos e embaraçosos. Em contrapartida o analista deve ouvir sem crítica ou seleção, sem expectativas e inclinações, para que um “inconsciente possa ir de encontro ao outro”.

Embora não fosse pretensão de Freud estabelecer recomendações como regras inflexíveis, ele faz uma série de esclarecimentos e orientações a respeito da execução da técnica psicanalítica. Primeiramente para evitar a prática da “psicanálise selvagem” uma vez que a técnica não é autoexplicativa e não há possibilidade de aprendê-la apenas por meio de livros; demanda empenho de tempo e esforço do médico, sendo possível aprendê-la somente com quem já as domina, e como o médico irá trabalhar com as resistências dos pacientes é necessário que ele supere as suas próprias resistências, eliminando “pontos cegos” em sua percepção analítica, para isso aquele que pretende exercer tal prática deve submeter-se primeiramente à análise junto com um especialista. Com isso, desenha-se o tripé analítico da formação em psicanálise: teoria, prática (supervisão) e análise pessoal.

Para elucidar mais algumas dessas orientações práticas para condução da técnica psicanalítica tomemos o “Caso Dora (1905 [1901])” como exemplo, no qual Freud narra os cuidados que tomou para conservar o sigilo do tratamento, preservando a identidade da paciente por meio de alterações de nomes e aguardando um período após o término do tratamento para a publicação em revista especializada. A lembrança da história clínica foi redigida após o fim do tratamento e por isso não é um relato fiel, mas confiável, o que vai de encontro com duas de suas recomendações técnicas: não fazer anotações de grandes extensões nas sessões, e não abordar um caso cientificamente enquanto o tratamento não estiver concluído. Ambas as recomendações convergem no objetivo de se manter uma escuta equiflutuante sem selecionar algo no meio do material ou fixar a atenção em algum ponto. Porém, ainda no prefácio Freud deixa claro o seu desejo de mostrar como a interpretação dos sonhos da paciente favoreceu “desvendar” a história clínica, citando que não foi sem motivo que publicou sua obra sobre sonhos em 1900, o que contraria uma das recomendações que é ouvir sem expectativas e inclinações. Em dois momentos neste texto introdutório Freud diz estar convicto de algo, primeiramente quando menciona estar convicto da importância dos sonhos nos casos de histeria e em outro ao referir-se à vontade de validar a etiologia psicossexual da histeria. Essas convicções faz com que Freud selecione ao meio do material apresentado pela paciente aquilo que ele busca e segundo as suas palavras “[...] se na seleção seguimos as nossas expectativas, corremos o risco de nunca encontrarmos algo diferente daquilo que já sabemos [...]” [1].

Ainda no relato do caso, Freud diz que a paciente aceitou o tratamento por insistência (autoridade) do pai, que foi quem o procurou inicialmente, o que contrapõe ao fato de que a psicanálise [...] não pode ser aplicada em pessoas que não se sintam impelidas à terapia por si próprias através de seu sofrimento, mas que se submetem a ela apenas por uma imposição de seus parentes”[2]. Outro ponto a ser destacado é de que no decorrer da exposição do caso Freud, ao descrever algumas características e comportamentos da Dora, ele não aparenta ter muita empatia e interesse pela a pessoa dela, o que é um obstáculo em um tratamento analítico uma vez que “não se deve esquecer o valor de uma pessoa”2. A dedicação de Freud à própria teoria somada ao baixo interesse pela pessoa da paciente faz com que ele não dê a devida atenção à transferência – embora a tenha percebido e reconheça a sua importância no tratamento psicanalítico –, postergando os momentos oportunos de trabalhá-la nas sessões, o que culminou em “uma análise fragmentária”.

Por fim, com esses recortes do “Caso Dora” é possível perceber a importância da sistematização da técnica, e que embora não seja um conjunto de regras inflexíveis, serve como uma orientação de como proceder na relação analista e paciente. A postura de Freud apresentada neste caso, considerando o baixo grau de aderência às suas próprias recomendações, ilustra o jargão psicanalítico “Freud não lia Freud” ou, no dito popular, “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

[1] Recomendações ao médico para o tratamento psicoanalítico (1912)
[2] Sobre psicoterapia (1905[1904])

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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