(Des)construções nas teorias psicanalíticas: da Histeria à Sedução

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Por Patrícia de Pádua Castro1

Na “Comunicação Preliminar” (1893), Freud começa a buscar o entendimento da etiologia da histeria e sua ligação com a sexualidade. Aponta os sintomas histéricos como a manifestação presente de um trauma ocorrido no passado, sendo que a causa precipitadora deste trauma encontra-se, frequentemente, em eventos ocorridos na infância.

O modelo teórico para a formação do trauma psíquico se dá na incapacidade de reação adequada do sujeito frente a um “acontecimento afetante”, sendo então, a representação do conteúdo insuportável expulso da consciência (recalcado), permanecendo o afeto sem desgaste por ab-reação ou pelo trabalho associativo do pensamento. Essa cisão da consciência faz com que a recordação do trauma não permaneça na memória normal do paciente e para ter acesso a esta representação recalcada, o médico (analista) deve buscá-la na memória do hipnotizado. A soma de excitação desvinculada da representação pode ser utilizada de formas distintas nas psicopatologias de histeria, obsessões, fobias e psicose alucinatória. A hipnose possibilita a expansão da consciência e propicia ao paciente a possibilidade de reviver o trauma e descarregar a soma de excitação por meio da fala, tendo o paciente uma segunda oportunidade de ab-reação adequada e correção associativa. Neste aspecto, o método catártico, “a cura pela fala”, mostra-se mais vantajoso e eficaz do que a sugestão médica sob hipnose.

A ideia de o sintoma ser a manifestação de um trauma ocorrido no passado, geralmente na infância, associado à etiologia da histeria ser unicamente de origem sexual, fez com que Freud acreditasse que os pacientes histéricos teriam sofrido um abuso sexual real, no âmbito físico, o que formaria a base para a “Teoria da sedução”. Neste caso, além da etiologia do trauma, o período de ocorrência seriam condições determinantes para instalação da doença psíquica. O trauma deveria ocorrer antes da puberdade, período em que a criança não tem condição psíquica de correção associativa ou de ab-reação adequada, ficando então a representação incompatível recalcada. E a doença psíquica se manifestaria após a puberdade, período de maturidade sexual onde experiências e excitações poderiam trazer o retorno do recalcado e a falha na defesa causando os sintomas. A histeria teria sua origem em uma experiência sexual passiva, enquanto a obsessão se originaria de uma experiência ativa, provavelmente, posterior a uma experiência passiva. As diferenças entre as neuroses, embora na mesma etiologia estariam no processo de defesa, a representação intolerável se converte em dor física na histeria e na obsessão se desloca para o pensamento

No ano de 1897, em uma carta enviada a Fliess, Freud começa a repensar a sua “Teoria da Sedução” por achar difícil a generalização de que a causa das neuroses é um ato sexual real ocorrido na infância e normalmente, segundo os seus casos, cometido pelo pai. Tal desconfiança abre portas para se iniciar a consideração da “fantasia histérica” como causa do trauma, o que foi relatado posteriormente em 1906.

O equívoco na elaboração da “Teoria da Sedução” e outros ocorridos no estudo da histeria podem ser explicados pela forma como a técnica fora conduzida até o momento. O método catártico, apresentado por Breuer, se origina do método de hipnose apresentado por Mesmer, em que se acreditava que o paciente sob hipnose diz sempre a verdade. Na hipnose, o hipnotizado “dorme para o mundo e está acordado para o hipnotizador”, apresentando uma postura obediente e crédula, sendo então passível de aceitar a sugestão do médico para alterar o seu estado anímico-corporal. Porém a limitação da hipnose aparece em situações em que a sugestão não é aceita, ou em que seu efeito é temporário, ou até mesmo com pacientes não hipnotizáveis, o que levou a necessidade de buscar outros procedimentos que possibilitassem uma intervenção mais profunda e em um número de casos mais abrangentes. No método catártico o médico deve seguir a trilha do sofrimento, ou seja, uma reconstrução histórica do sofrimento, apresentada pela fala do paciente, conduzindo-o até a sua causa primária (sintoma está ligado a um trauma do passado), dando-o a oportunidade ao paciente de reagir ao trauma de maneira adequada e ocorrendo então, a suspensão dos sintomas e eliminação do padecimento. Algumas modificações foram feitas por Freud no método proposto por Breuer, dentre elas que, durante a escuta e condução do paciente no processo de psicoterapia, o médico deveria ficar atento à fisionomia do paciente e à suas reações, pois se identificasse alguma resistência ao falar, ou tentativa de ocultar algo, deveria insistir com o paciente até extrair a verdade dele.

Nesse momento o conceito de resistência aparece como um dos fundamentos da teoria psicanalítica freudiana, embora essa ainda esteja mesclada com o método catártico, se ocupando em buscar a verdade em acontecimentos ocorridos no passado do paciente, e apresentando um Freud mais preocupado em provar suas teorias do que fazer uma investigação do inconsciente. A resistência possibilita a compreensão do comportamento do paciente e juntamente com a transferência oferecem a base para resolver a questão temporal presente no método catártico. Na transferência o paciente tende a reviver suas ideias penosas que surgem durante a análise na relação com o médico (analista), ideias essas que podem ter ocorrido no âmbito real ou imaginário, trazendo então para o presente situações que antes se supunha ter vivenciado apenas no passado. Deste modo, a “verdade e sua busca” saem do passado e se instalam numa relação presente e essa relação transferencial
passa a ser o objeto de trabalho em um consultório.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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