A Teoria da Sedução e seu equívoco

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Por Ivana Ferigolo Melo1

No texto comunicação preliminar, Freud, partindo das teorias de Breuer e de Janet, relata suas primeiras constatações teóricas sobre as causas (etiologia) da histeria e expõe algumas técnicas de tratamento que utilizou para tratar essa enfermidade.

Discordando de Janet, para quem a histeria se constitui a partir de uma divisão da consciência oriunda de uma deficiência natural, inata, ele se fundamenta na concepção teórica de Breuer, quem sustenta que a histeria constitui-se a partir da conformação psíquica de estados de consciência com baixa capacidade de associação, os quais ele chama de estados hipnoides (consciência paralela de pouca capacidade associativa). Diferentemente de Janet, Breuer, médico com quem Freud trabalha em conjunto no início de sua carreira, afirma que estes estados hipnoides, os quais delimitam uma divisão da consciência, não são inatos, mas adquiridos, desenvolvidos, e se registram, porque as ideias que os conformam são representações excluídas da consciência a partir de diferentes mecanismos de defesa. Dessa forma, na perspectiva de Freud, a histeria, doença de sintomas somáticos, mas de origem psíquica, constitui-se a partir da conversão de excitação psíquica em inervações somáticas, caracterizando-se, por tanto, por dores corporais.

A conversão da excitação de ordem psíquica para inervações somáticas, mecanismo constitutivo da histeria, dá-se, na ótica de Freud, pelo fato de o indivíduo não tolerar certas representações, ideias ou experiências vividas e via defesa, artifício consciente que consiste em expulsar, afastar, da consciência o que é insuportável, recalca-las, reprimi-las. A repressão ocorre, para Freud, mediante a dissociação do afeto atrelado a representação insuportável, o que torna a ideia fraca, um traço mnêmico frágil. No entanto, a excitação dissociada da representação, não se anula, necessitando ser extravasada por algum outro canal. No caso da histeria, o extravasamento, a descarga da excitação, ocorre, como se disse, mediante uma conversão da excitação para inervações somáticas, manifestando-se por meio de sintomas físicos, dores musculares, enrijecimento de partes do corpo, cegueira, etc.

Na perspectiva de Freud, expressa na Comunicação preliminar, as causas específicas, a etiologia específica (aquilo que é recalcado porque não é suportável) da histeria é sexual, ou seja, são experiências sexuais passivas ocorridas realmente na tenra infância e que eclodem na puberdade quando teria início a atividade sexual dos indivíduos. Essa tese de Freud conforma o que se chama de teoria da sedução, uma teoria que sustenta serem experiências sexuais reais, vividas pelos sujeitos, a causa desencadeadora da histeria. Por esse viés teórico, todo o paciente histérico teria sido seduzido na tenra infância, passando por experiências sexuais que logo seriam recalcadas e participariam da conformação do sintoma e do adoecimento do indivíduo
após a puberdade.

Posteriormente, a partir da continuação de seu trabalho de acompanhamento e tratamento de pacientes histéricos e de uma mudança que foi registrando na forma de tratar a histeria, mudança que consistiu em ir deixando, aos poucos, o método da hipnose e ir adotando o da livre associação, Freud dar-se-ia conta de que muitas coisas que os pacientes relatavam eram fantasias, ficções, imaginações, representações construídas sobre o período infantil e não fatos realmente vivenciados. Foi constatando, então, que muitos dos acontecimentos envolvendo sexualidade, sedução, que as pacientes relatavam não haviam ocorrido de verdade, mas eram invenções por elas realizadas muito ligadas a desejos. Assim, a teoria da sedução foi perdendo consistência diante da descoberta do fator da fantasia como grande determinante da histeria.

O surgimento desse novo elemento, a fantasia, converte, obviamente, a teoria da sedução em um equívoco, e, é possível pensar, que o equívoco que levou Freud a desenvolver a teoria da sedução estava relacionado ao método que ele, seguindo Breuer e Charcot, por exemplo, utilizava para tratar a histeria: o método da hipnose. Freud, assim como seus antecessores, acreditava totalmente que, a partir, da hipnose chegava-se a verdade absoluta sobre o indivíduo, alcançar-se-ia a verdade recalcada, enviada para fora da consciência.

Provavelmente, o equívoco de Freud materializado na teoria da sedução, que ele mesmo corrige posteriormente a partir da descoberta do fator da fantasia como elemento etiológico da histeria, deu-se em função de uma tentativa, que é recorrente, quando se estuda e se tenta teorizar sobre uma enfermidade: a tentativa de descobrir e afirmar as verdadeiras e universais causas de uma doença. Tal tentativa, em geral, conduz a descobertas e a constatações, as quais podem ser questionadas diante do surgimento de um elemento novo, que, geralmente, aparece quando os estudos não param no tempo. Penso, assim, que o equívoco de Freud materializado na teoria da sedução emparenta-se a outros equívocos cometidos na historia da histeria pelo fato de os estudos sobre essa enfermidade serem muito antigos e terem passado, portanto, por muitas mudanças, constituindo-se continuamente de forma provisória, já que nunca se estacaram, fecharam-se, mas trataram de, em cada época, afirmar o descoberto como uma verdade.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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