Tirar o olho do umbigo

by Administrador

Por Rafael Marques Menezes1

O que eu quero dizer quando digo para tirar o olho do umbigo? 
Parece ir na contramão do que encontramos na mídia atual, e realmente o é! Essa é uma reflexão sobre “autoestima elevada” e sua relação com “amor ao outro”.

O mundo não começou comigo, não vai terminar comigo, e tão pouco ele está preocupado comigo. Quando eu digo para refletir sobre o olhar perigoso da “autoestima elevada”, a reflexão que vem à mente é sobre o que leva alguém a querer ser tão amado? É interessante que, pessoas com “autoestima elevada”, geralmente estão engajadas em salvar criancinhas na África, ajudar a humanidade e as tartarugas da Bahia, etc. (sem desmerecer as causas). Porém, essas mesmas pessoas abstém de se “responsabilizar” por aquele que está ao seu lado, como um vizinho, um pai, o coleguinha de classe, aquele que faz parte das suas relações afetivas rotineiras. Esse é mais difícil de amar. Amar o seu mundo imediato é difícil, amar uma fantasia utópica (pensamentos oníricos) é fácil, porque ação dá preguiça.

Quando você quer mudar o mundo, você deve começar por aquilo que está a seu alcance. Quando o sujeito foge das responsabilidades, ele está fazendo o mais cômodo, o mais fácil, aquilo de depende de baixo investimento. Quando o sujeito dispõem a se amar, a se idolatrar, a acreditar que o seu bem estar é sempre o mais importante, quando ele passa a procurar sentido na sua vida, olhando para seu umbigo, o sujeito está deixando de investir no outro. Porque AMAR O OUTRO DÁ TRABALHO.

Quando o sujeito ama as criancinhas da África, que estão longe da sua realidade, ele não se sente tão mau. Porque ele sabe que amar é difícil, porém ele sente que precisa informar que ele também é “capaz de amar” e por isso, defende diversas causas, sempre longe do seu plano de ação imediato. O que ele faz é fugir de agir localmente para desprender energia para um delírio histérico.

Quando o sujeito se responsabiliza pelo outro, ele está investindo uma energia, ele está tendo TRABALHO para AMAR o outro. Porque o seu vizinho faz barulho a noite, porque seu pai lhe proíbe de sair à noite, porque seu coleguinha de classe é bagunceiro, são inúmeras situações que farão o sujeito não querer mais AMAR o próximo, por isso AMAR DÁ TRABALHO.

Então, fico pensando, o quão mais fácil é apenas me amar, quando estou com meu vizinho fazendo barulho a noite, eu me irrito e fico chateado porque ele não obedeceu a minha lei do silêncio. Enquanto isso, esqueço que as cinco da manhã eu faço barulho porque acordo mais cedo. Quando minha “autoestima elevada” está ativada, eu me sinto o máximo e acredito que todos devem se comportar conforme o seu mestre, e nesse caso, o mestre sou eu. Porém, o mundo não funciona assim. E quando paro de olhar meu umbigo, percebo que no mundo existe o outro. Só que quando estou olhando para meu umbigo eu consigo fugir do mundo (que tanto amo e tanto temo, ambivalência emocional) e não me relacionar com o outro.

Concluindo, cuidado com essa modinha de se amar.

Aprenda a se respeitar e a respeitar o outro.

Contente-se com menos.

Reflita.

1Psicanalista, facilitador do Programa de Formação da EPP e membro do Instituto Melanie Klein-IMK atende em consultório particular e online. 

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Comentários

  • Guest (Marcia Velo Barros)

    Parabéns Rafa!! Bela reflexão!! O mundo precisa de mais amor sim, mas muito mais ao proximo do que a ti mesmo!!!

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  • Guest (Andreia Bergamin)

    Que texto fantástico!!!!!!
    Obrigada!

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  • Guest (Juliana Ribeiro)

    Boa tarde, Rafael.
    Gostei muito do seu texto, que abre os olhos para refletirmos sobre altruísmo e seus "falsos cognatos".
    Porém, se você me permite, entendo que cabe sempre um equilíbrio. O excesso de amor pelo outro pode ser um sintoma de apego extremo e necessidade de aceitação. E isso ocorre com nosso mundo imediato, quem nos rodeia.
    Tenho um filho de 10 anos que padece desse excesso de cuidado com o outro: ele respeita tanto o lugar e espaço do outro que se perde para não magoar. ( é assim não perder o "amor" do colega).
    Estamos caminhando junto em busca do equilíbrio e seria muito bom se você, em outra oportunidade, pudesse falar sobre isso: o equilíbrio entre gostar do outro e gostar de si.
    Obrigada por me ler.

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  • Guest (Marilena Silva de Castro)

    E que hoje em dia o sujeito aos poucos estão esquecendo o amor do outro , pois é mais fácil olhar para si mesmo do que olhar para o outro.
    Por isso que o ódio e o amor sempre estão presentes no ser humano, sem que percebemos estamos sempre em contradição, ou seja, quando ficamos sensibilizado com as crianças da África, estamos mostrado a capacidade de amar o outro é ver a presença do outro , mais sabemos que tal problemas só será resolvidos quando o ser humano aprender a olhar para o outro é entender a linguagem do outro.

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  • Guest (Marilena Silva de Castro)

    E que hoje em dia o sujeito aos poucos estão esquecendo o amor do outro , pois é mais fácil olhar para si mesmo do que olhar para o outro.
    Por isso que o ódio e o amor sempre estão presentes no ser humano, sem que percebemos estamos sempre em contradição, ou seja, quando ficamos sensibilizado com as crianças da África, estamos mostrado a capacidade de amar o outro é ver a presença do outro , mais sabemos que tal problemas só será resolvidos quando o ser humano aprender a olhar para o outro é entender a linguagem do outro.

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  • Guest (Ivana)

    Texto muito lúcido e pertinente a nossos tempos!

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  • Guest (Ivana)

    Texto muito lúcido e pertinente a nossos tempos!

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  • Guest (César Bahia)

    Excelente reflexão. Eu tenho que me amar a medida certa. Assim poderei cumprir o segundo mandamento que é amar ao próximo como a mim mesmo.

  • Guest (Raquel Mariano)

    Rafael, num mundo tão imediatista em que estamos vivendo, tudo para ontem, seja feita a minha vontade e agora, as pessoas acabam sendo sujeitos menos pensantes e mais atuantes, e muitas vezes sem saber o por que de estarem atuando, apenas fazendo.
    A análise tem seu grande papel aí, onde se propõe ao sujeito o deixar de atuar, a refletir, a ter consciência de alguma coisa.
    Ótima reflexão.
    Abraços.