Um gole de perversidade

Por Fernanda Nascimento1

Seja em proporções “normais” ou destoantes, atos perversos sempre foram cometidos ao longo da história da humanidade.“O que mais aumenta a indignação contra o sofrimento não é o sofrimento em si, mas a falta de lógica do sofrimento.” Friedrich Nietzsche

A sociedade atual busca de forma incessante uma vida tranquila, uma vida dita feliz. Portanto, há uma preocupação em alcançar a perfeição, que por si só já seria uma ilusão. No entanto, segundo Roudinesco em seu livro A parte obscura de nós mesmos, há uma tentativa fantasiosa de acabar completamente com as perversidades e acrescenta uma reflexão de que esse desejo ilusório pode fazer com que a própria sociedade se aproxime das perversidades que busca extinguir.

Freud percebeu que já na infância todos carregam a vontade de fazer o mal. De forma espontânea essa hostilidade pertence ao ser humano e aparece nas situações como vingança e tortura. A humanidade tem traços de perversidade e, no texto freudiano “Os três ensaios da sexualidade”, o modelo proposto por ele sobre complexo de Édipo e Castração aponta que todos tiveram o desejo inconsciente de matar um dos genitores e ter a posse do outro de forma exclusiva e total. Em fantasia a criança quer afastar um dos pais, rivaliza com ele e procura através dessa estratégia conquistar o outro unicamente.

Encontra-se, portanto diante de um impasse: já que cada ser humano carrega a malignidade, o mal e a hostilidade, como ele mesmo pode dar cabo das perversidades? Falando em linhas gerais, as regras sociais e a civilização em si acabam impondo certos limites que freiam esse desejo perverso. Nesse sentido a impunidade ou a certeza da impunidade pode ser uma das respostas para o homem estar inserido em uma sociedade dita perversa. Em uma reportagem de homicídio (Gazeta da Ilha do Piauí, 1º de abril de 2013), como tantas que todos os dias são apresentadas, um menor disse para os policiais que o prenderam, que enquanto não completar 18 anos iria continuar matando e que não tem medo da prisão.

Duas concepções de perversão:

Mas o que é perversão? De acordo com texto de Freud “Os três ensaios da Sexualidade”, o termo perversão foi utilizado para indicar todo comportamento sexual diferente da união dos órgãos sexuais masculinos e femininos. Nesse artigo, Freud propõe que todo e qualquer desvio do gênero seria classificado como aberrações sexuais e considerado fora da normalidade. Posto isso, há que se diferenciar dois conceitos: a perversão vista pelo aspecto de energia sexual e a perversão vista pelo aspecto do caráter de malignidade e crueldade.

A definição da palavra perversão vem do latim, “pervertere” que significa: por às avessas, desvirtuar, desviar, corromper. Fica estabelecido o conceito “ter prazer em destruir” para delimitar nesse trabalho o que será perversão.

A concepção freudiana da perversão relacionada à energia sexual – libidinal -, em 1987 dá lugar às chamadas parafilias (práticas sexuais antes qualificadas como perversas, mas também fantasias perversas). Exceto pela pedofilia e exibicionismo, as parafilias não estão relacionadas a atos considerados pela lei como crimes ou delitos.

A palavra perversão relacionada ao prazer em destruir está diretamente relacionada ao sadismo (não de ordem sexual, mas comportamental) e mais recentemente sede lugar ao termo comportamento antissocial. Seria interessante esclarecer que popularmente é comum se referir a pessoas que são extremamente tímidas como sendo antissociais. O conceito psicanalítico para os severamente introvertidos podem estar relacionados à fobia social.

Reconhecendo a própria perversão:

A natureza humana carrega a perversidade, como foi dito antes: o mal está no homem. Obviamente existem graduações da perversidade, vão desde traços perversos até seu extremo de tendência antissocial. Alguns traços de perversidade estão presentes na natureza humana, mas aqui o texto se refere a aspectos que vão além do uso eventual.

Uma idéia que sempre surge é que as pessoas retiram a própria responsabilidade do tema perversidade e direcionam a um mesmo denominador “os psicopatas”, os criminosos, os terroristas. É a ideia de que o mal está no outro e não em nós mesmos.

Mas essas pequenas perversões, diárias, pequenas talvez, silenciosas são menos importantes? Quando idosos estão no ponto de ônibus e os motoristas não param para eles não seria uma perversão? Quando um grupo de pessoas se reúne achando que tem o direito de interferir no espaço, na intimidade e no desejo do outro não seria uma perversão? Casos, por exemplo, onde homossexuais foram agredidos simplesmente porque alguns se acharam no direito de interferir no espaço do outro não seria uma perversão? Autoridades de qualquer espécie, que utilizam o seu poder para corromper e obter vantagens não poderiam ser encaradas como perversão?

O diferente incomoda e quando não entendemos o outro, a reação é muitas vezes a destruição. O bullying tão falado nos dias atuais é mais um exemplo de como a perversidade está próxima - não necessariamente estamos falando de psicopatas em ação.

Perversão destoante e suas explicações:

Para além de traços mais ou menos comuns aos seres humanos, há também os chamados sujeitos perversos, que possuem uma estrutura psicológica perversa, com uma dinâmica mental e um perfil específico.

De uma maneira bastante superficial, de acordo com David E. Zimerman no Manual de técnica psicanalítica fica estabelecido que: “Quando se usa o Outro como Objeto estaríamos diante da perversão”. (página 269)

Portanto, o contato com o outro de maneira distorcida seria perversão e tal condição pertence exclusivamente ao homem. No reino animal a ausência de delitos, crimes ou tortura são completamente ausentes, já que não se tem a intenção da destruição e nem a ciência do fato em si.

Arthur Hyatt Willians (em sua obra Crueldade, Violência e Assassinato) observou que o homicídio sádico possui evidências de uma fantasia pervertida em que o prazer sexual é equiparado a destruição. Nesse sentido, pode-se assinalar que componentes sádicos, presentes na fantasia de toda criança, parecem estar presentes da criminalidade adulta.

Existe um sentido na organização perversa que seria o de manter a identidade do individuo. A palavra identidade indica que o sujeito tem percepção das suas experiências, continuidade de si e sensação de limites do meu próprio corpo, onde começo e onde termino. Portanto a perversão seria uma organização para manter a subjetivação da pessoa, sua identidade.

A formação da estrutura perversa de pensar seria iniciada em uma relação mãe-bebê marcada pelo desamparo ou devido a falhas ambientais onde a maternagem não teria chance de ser “suficientemente boa”. Esse termo proposto por Winnicott faz alusão à relação mãe- bebê onde haveria uma comunicação silenciosa entre ambos, intuitiva, onde a mãe conseguiria entender as necessidades do seu filho se a necessidade de verbalização. A mãe suficientemente boa também falha, mas a grande importância é que ela realmente tem uma conexão com o filho e o ajuda a se desenvolver emocionalmente. A relação mãe-bebê tem como uma das principais funções gerar confiança, segurança e sentimento de continuidade de si. O bebê que vive uma situação sentida por ele como abandono poderia, portanto desenvolver, entre outros, uma estrutura perversa.

O já referido rapaz que afirmou que irá continuar matando e que a prisão para ele não é nada, também fez a seguinte declaração na mesma entrevista: “Eu mato mesmo, porque foram, na casa do meu pai, atiraram na minha família e nada aconteceu. Eu era quieto, foram mexer comigo, agora tem que sustentar. Vou botar para pegar até o último.”

A intenção aqui não é justificar o perverso, seus atos ou crimes, e sim entender a perspectiva psíquica da pessoa. A perversão sempre resultaria de preencher uma falta de algo ou alguém do passado. O perverso então tem como solução a busca por um companheiro que completaria a ilusão que ele procura.

Citando novamente Winnicott, em seus estudos sobre tendência antissocial, o individuo se volta para que o meio ambiente se preocupe com ele e, através dos seus atos de delinqüência, se mostra ao meio e protesta de forma totalmente inconsciente e, portanto, incontrolável algo que em algum momento de sua vida de bebê lhe foi privado. Algo tão importante e necessário que causou uma marca intensa e muitas vezes irreversível. O sujeito passa a externar essa cicatriz fazendo com que as pessoas o notem, mesmo que essa observação seja de medo e repulsa. Cabe lembrar que o pensar e a forma de se relacionar estão com base no “amor impiedoso” onde não existe preocupação com o bem estar da outra pessoa. Quando Winnicott usa esse conceito ele propõe que toda a relação de satisfação, prazer está diretamente associada a certo esvaziamento, destruição e uma dose de agressividade. Quando o bebê mama ele retira o leite da mãe e eventualmente pode morder o seio, arranhar e, portanto machucar a mãe. Ao longo do tempo o bebê se conscientizaria disso e passaria a tomar cuidado para não destruir o outro adquirindo o medo de perder. Amar impiedosamente é quando o individuo pensa somente na sua satisfação e ignora a preocupação com o outro. Esse elemento faltante, se não adquirido, pode gerar sérios problemas para o individuo e mais ainda para aquelas que o circundam ampliando para a sociedade como um todo.

O agir antissocial é uma forma de reivindicar do meio externo suas ausências e angústias que nem tiveram chance de serem nomeadas. David E. Zimerman propõe que o sujeito perverso prefere o mundo das ilusões e pretende impor aos outros essa preferência, o resultado disso é que não compartilham da realidade civilizada.

Tratamento:

O tratamento do paciente perverso consiste em tentar redirecionar a forma como ele se relaciona com o mundo. Ele sente-se absurdamente ameaçado pelo meio e desesperadamente tenta fugir de suas ansiedades, do medo de cair no vazio, do desconhecido e do aniquilamento de si. Defende-se do desamparo e do incontrolável. A clínica da perversão é bastante densa e complexa. Segundo Winnicott, o tratamento juntamente com a psicanálise deve estar associado a alterações no ambiente ou ainda passando por possibilidades de internação quando o quadro for mais severo. Outro impasse é que os indivíduos buscam análise e tratamento quando estão em sofrimento. O paciente perverso não apresenta grandes conflitos internos o que é um impeditivo para a busca de psicoterapia. Quando chegam ao consultório à demanda é proveniente da sociedade não do mundo interno, não deixando grande margem para atuação do profissional.


Referências Bibliografias:
ROUDINESCO, E. A Parte Obscura de Nós Mesmos: Uma História dos Perversos. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
ZIMERMAN, D. E. Manual de Técnica Psicanalítica. Porto Alegre: Artmed, 2011.
WINNICOTT, D. W. Privação e Delinqüência. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
Artigo Gazeta da Ilha- http://www.gazetadailha.com.br/2013/04/01/ate-os-18-menor-diz-que-vai-continuar-matando/

1Professora responsável pela formação psicanalítica na Escola Paulista de Psicanálise-EPP. Também realiza atendimentos no Consultório Viva Terapias, contato: http://fernandaterapias.wix.com/vivaterapias

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