Do Eu ao Édipo

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Por Sérgio Rossoni1

O conceito mais básico de objeto é de representação de coisas – Consiste num investimento, se não de imagens mnésicas mas afastadas, derivados dela. Deriva da coisa essencialmente visual, percebida pelo inconsciente. (Laplanche e Pontalis – Dicionário da Psicanálise). A representação de coisas pode ser exemplificada como um ator, enquanto a phantasia uma peça de teatro. Como mecanismo de defesa, a cisão vem separar objetos bons e maus.

O neurótico e borderline apresentam uma dissociação, sendo esta na verdade uma cisão que evoluiu atingindo o valor simbólico.

Agora, os objetos já simbolizados podem ser separados. Exemplo: Seio bom/ Seio mau. Nessa fase, somente existe o “ou”. Exemplo: O pai é bom ou mau. Ainda não ocorreu a evolução para o “e’, onde o mesmo objeto torna-se bom e mau. No processo de cisão, ocorre um processo de integração entre psique, soma e meio ambiente. A cisão ajuda a organizar o que antes estava desorganizado, separando o bom do mau, e mais adiante vai evoluir para a ambivalência, passando então a existir o “e”, aplicando-se ao mesmo objeto: Seio bom e mau. A phantasia tem força de realidade. Klein aponta para os objetos reais e imagos irreais vivendo lado a lado na criança pequena. “Esses objetos reais e irreais são vivenciados ao mesmo tempo; são excessivamente objetos bons ou maus, mas num plano diferente”.(Melanie KleinPsicanálise de Criança-  Cap IX -  pg171). Os objetos maus serão sentidos como ameaçador e perseguidor. Na cisão, o ego divide os objetos e assim modifica o medo que sentia do superego, modificando-o, projetando-o para um objeto externo.   “Certas pessoas assumem o objeto ameaçador; a mãe assume o papel de objeto protetor”. (Melanie Klein – Cap IX - pg173– Psicanálise de Criança).

Existe uma relação entre o conceito de neurose e introjeção e identificação. Na introjeção, eu tenho a representação de coisas como objeto. Diante deles, o ego tentara suprimir (destruir, projetar) ou possuir estes objetos onipotentemente, em uma tentativa de conservar seu narcisismo primário. Entendemos por introjeção uma incorporação. O bebê vai introjetar tudo aquilo que é bom e projetar no meio tudo o que é mau. Uma boa mãe introjetada ajudara na formação de um objeto bom, enquanto seus medos e ansiedades podem ser expelidos para objetos externos, como por exemplo as fobias. Logo, objetos externos podem se tornar perseguidores e maus. Nesta fase, se as imagos boas protetoras (objetos bons) não forem suficientes para contrabalançar esta relação entre imagos boas e más, a criança sofrerá uma perseguição paranóica. Klein define fobia como medo de sua própria pulsão destrutiva e dos seus pais introjetados, e a ansiedade fóbica surge quando seu objeto é percebido.  Em relação às imagos introjetadas, em sua phantasia o bebê ataca o corpo de sua mãe e posteriormente vai ter medo da retaliação contra seu corpo por parte dessa mãe má interna. Essas ansiedades são sentidas dentro do corpo, logo, é em seu interior que as restituições devem ser feitas. Porém, não se pode ter certeza quanto às destruições causadas e as reparações feitas ao corpo da mãe. Estas duvidas dão origem as necessidades compulsivas de arrumar aquilo que foi desarrumado, criando para isto regras e manias compulsivas. É essencial que se arrume aquilo que foi estragado.

“No neurótico obsessivo, a coerção infligida contra outras pessoas é o resultado de uma projeção multiforme: Tenta se livrar da compulsão intolerável que esta sofrendo – trata seu objeto como se fosse o id ou seu superego e deslocando a coerção para fora; Assim, satisfaz seu sadismo – atormenta e subjuga seu objeto; Esta pondo para fora em seus objetos externos, seu medo de ser destruído por seus objetos introjetados. Esse medo despertou nele uma compulsão de controlar e governar suas imagos” – (Melanie Klein – Cap IX – pg186- Psicanálise de Criança).

Se tudo deu errado e o objeto causador de ansiedade continua muito presente, a criança então vai se identificar com ele – tornar-se igual a ele, buscando assim não ser destruído por este objeto. O problema nessa identificação é que a criança se torna então igual a sua mãe, porém ela não é sua mãe. No entanto, nasce um registro que dita “você tem que ser igual a sua mãe”. Assim, esse registro é o que entendemos por superego. Logo, ao final de toda identificação, nasce o superego.
Este registro que aponta e diz para o ser que ele tem que ser igual a sua mãe, entendemos como ideal do ego (aquilo que esperam que eu seja).

Toda identificação possui um superego embutido. A criança não é a mãe, mas ‘tem que”ser. Todo ser humano introjeta (psicose)  e depois se identifica (neurose) com seus objetos.

“A neurose obsessiva é um meio de modificar situações de ansiedade arcaicas e que o superego severo da neurose obsessiva não é outro senão o superego aterrorizador não modificado”. (Melanie Klein – Cap IX – pg 184– Psicanálise de Criança).

A repressão começa na primeira identificação (antes da fala); Aqui começa o processo simbólico. No entanto, a mãe não resolverá o problema do bebê. A plenitude não será alcançada através da mãe. Um terceiro elemento surge como promessa de alcançar a plenitude – O falo (tudo aquilo que não é minha mãe, mas esta possui); Ao final da posição depressiva, o bebê deve ter um registro do seio, ideal do ego e do falo. Como herdeiro do narcisismo do bebê, o falo agora é aquele que resolverá todos os seus problemas, e o lançara em direção à plenitude, tendência da pulsão de morte. Inicia-se o processo de simbolização com palavras.

Primeiramente, o bebê nomeia o falo como leite, depois coco, depois chocalho até finalmente chegar no pênis. Os mesmos desejos anteriores de suprimir, possuir e identificar, surgirão novamente agora em relação ao falo. A relação antes vivida a dois, passa agora a ser formada pelo triangulo – bebê / mãe / falo. Como o bebê já passou anteriormente pelo processo de suprimir, agora ele vai diretamente para o “possuir”. Logo, em sua phantasia, ele possuiu o falo. Sente-se potente internamente, detentor do seu próprio herdeiro do narcisismo. Do ponto de vista corporal, começam a surgir estímulos das zonas erógenas, ganhando primeiro plano os genitais. O que antes era objeto de amor, agora é ressignificado, tornando-se objeto sexual – epifânia sexual. Os pais tornam-se objetos sexuais. Logo, a partir do seu desejo sexual, o bebê deduz que seus pais também sentem este desejos e prazeres, começando a entender que o mundo é feito de objetos sexuais.   Os pais tornam-se “seus” objetos sexuais. Surgem duas mães distintas: aquela que alimenta, dá o leite, carinho, ou seja, uma mãe assexuada, e uma mãe aquela que é objeto sexual. Um fator importante acontece para tornar este novo cenário confuso. As crianças descobrem as diferenças sexuais. A partir de agora, não é mais um ser único. O cenário enlouquece. Inicia-se o édipo e a castração.

No menino, tal processo se dá da seguinte forma: suas sensações   erógenas do pênis apontam para sua mãe. No entanto, esta pertence ao pai, que também possui um pênis. A confusão se dá pelo fato da mãe seduzir a criança a deixar a masturbação e de certa forma se oferecer como objeto de desejo. Porém, a figura do pai aparece e impede a realização desse desejo. Assim, a criança fica em um estado confusional. Não pode se masturbar, e não pode desejar a mãe. Logo, a pedra de toque da neurose está exatamente neste ponto, onde uma espécie de promessa é formulada da seguinte maneira: “Se você (bebê) esperar uns dez anos para se resolver, eu vou te amar”. Assim, se o bebê fizer esse sacrifício, será amado pelos pais.  A mãe se coloca diante do bebê como se dissesse: não me tome como objeto de desejo, mas sim de amor. em relação ao pai, a criança pode suprimir, possuir ou identificar-se com este opositor. Sua identificação poderá ser de duas formas: coito ativa/passiva e tornar-se igual. O menino também entra em uma simbiose com o pai,desejando devora-lo e ser devorado, dar e comer, e este desejo gera a principal angustia do Édipo – desejar o pai... O genitor do mesmo sexo torna-se o maior problema do édipo.

Ao final do Édipo, os pais serão dessexualizados, porém a angustia não cessará, mas será adiada. O menino tem o falo, identificou-se com o pai. Prefere o falo (aquele que lhe dará a esperança de retornar à plenitude) à sua mãe. Sua grande angustia de castração é perder este falo (perder o narcisismo), a perda da auto-estima.

1Psicanalista formado pela Escola Paulista de Psicanálise-EPP, escritor, ilustrador e músico. Atende em São Paulo.
Em agosto/2019  irá realizar a Oficina: Me formei! E agora? em parceria com a EPP. Mais informações: http://bit.ly/2LQVLYW

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