A sociedade depressiva

by Administrador

Por Ale Esclapes1

Paira no ar uma insustentável obrigação de sermos felizes, o tempo todo. Ela nos intoxica como um gás que faz sofrer lentamente, e tem como o corolário da falta de ar a depressão. O sentimento de depressão, tão comumente associado a uma doença, faz parte sim do repertório de emoções de todo e qualquer ser humano.



O sentimento de depressão é o sentimento que temos quando alguma ilusão que acreditamos ser verdade morre. 

Quando descobrimos que o mundo existia antes de nós, que não somos o centro da casa, e que aqueles que chamamos de nosso, na verdade não nos pertence, nos deprimimos.

Quando descobrimos que não somos autossuficientes, que somos seres dependentes e desamparados, que precisamos dos outros para as suprir nossas condições mais básicas, nos deprimimos.

Quando acreditamos que aquele emprego vai nos levar ao topo, que aquele vestido mais nos fazer desejáveis, que aquele carrão vai fazer que eu seja mais potente, e nada disso se concretiza, nos deprimimos.

Quando aquele casamento que acreditamos que vai nos curar dos males do mundo, que vai nos dar aquilo que nossos pais nos negaram, e nos devolver ao nirvana da simbiose, acaba, simplesmente termina, nos deprimimos.

Quando temos que escolher um amor, um rumo na vida, uma única profissão, seguir um único sonho, ter uma única esperança, acreditar em algo, nos deprimimos por não podermos ter todas as outras profissões, sentidos, sonhos, e tudo mais que precisou ser descartado. Escolher é um ato por si só, depressivo.

Quando nos descobrimo-nos, a uma certa altura da vida, que nosso rumo talvez não esteja na rota correta, que temos que mudar o leme, levantar as velas e partir para novos mares, nos deprimimos pelo tempo perdido, tempo que não volta mais.

Quando abandonamos essas falsas promessas de felicidade, essas ilusões passageiras, adquirimos sabedoria. Não existe sábio que não tenha passado pela dor da depressão, do choro, do lamento. Quando nos tornamos sábios da vida com suas reais possibilidades, deixamos de ser deprimidos.

Mas se a sociedade nos obriga a sermos felizes como uma realização instantânea e não uma aquisição emocional, só nos resta uma sociedade depressiva e seus antidepressivos.

1Psicanalista, professor, escritor, palestrante e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro: A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015 e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias que em 2020 está no sexto volume. Atende em consultório particular: adultos, adolescentes (individual ou casais).

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Comentários

  • Guest (Maria Lisse bertolini)

    É sabido que os ensinamentos e exigências da perfeição do indivíduo surgiram em algum momento dentro das famílias, com argumentos, atitudes e exigências de manter as crianças ocupadas o tempo todo subtraindo delas a liberdade de "serem crianças" brincar, descobrir o mundo com mais leveza e naturalidade, sem as pressões e, principalmente sem os hábitos nocivos das comparações com outras crianças, sendo elas da família ou não.
    A partir dos resultados desse modelo de construção do indivíduo, é possível que os pais e educadores já tenham se conscientizado da necessidade premente de aplicar mudanças no sentido de interagir ao invés de terceirizar os cuidados e responsabilidades que são, em primeiro lugar da família.
    Meus cumprimentos a toda a equipe da Escola Paulista de Psicanálise que, com especial dedicação vem reunindo material com conteúdos cada vez mais importantes em prol da Psicanálise enquanto ferramenta de transformação do ser humano.

    Boas Festas.