A paranóia e seus mecanismos

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Por Denise Deschamps1

"Iremos encontrar no "Vocabulário da Psicanálise" de Laplanche e Pontalis a definição desse quadro descrito pela psicopatologia psicanalítica sendo "Psicose crônica, caracterizada por um delírio mais ou menos bem sistematizado, pelo predomínio da interpretação e pela ausência de enfraquecimento intelectual, e que geralmente não evolui para a deterioração.

 

Freud inclui na paranóia, não só o delírio de perseguição, como erotomania e delírio de ciúme e o delírio das grandezas".

Será abordada de maneira de maneira mais evidenciada e separada de outros tipos de delírio a partir de Kraepelin, que a separará da demência precoce. Freud sustentou desde o início a separação existente entre esse quadro dos outros delirantes, sua posição também se diferenciará da de Bleuler que a abordava em conjunto com as esquizofrenias, mas concorda que os sintomas entre ambas podem combinar-se.

Há como conteúdo latente uma defesa contra a homossexualidade. Melanie Klein a colocará na posição paranóide que será centrada em "torno do fantasma de perseguição pelos 'maus objetos' parciais, e M. Klein reencontra este fantasma, quer nos delírios paranóides, quer nos paranóicos". (Laplanche e Pontalis)

Segundo a obra "Dicionário de Psicanálise(Roudinesco e Plon)  o termo foi introduzido na nosografia psiquiátrica alemã em 1842 por Johann Christian Heinroth "a partir de um vocábulo cunhado em 1772, e na nosografia francesa em 1887, por Jules Séglas. Com os trabalhos de Wilhelm Griesinger, Emil Kraepelin, Eugen Bleuler e, mais tarde, Gaëtan Gatian de Clérambault, a paranóia tornou-se, ao lado da esquizofrenia e da psicose maníaco-depressiva, um dos três componentes modernos da psicose em geral. Caracteriza-se por um delírio sistematizado, pela predominância da interpretação e pela inexistência de deterioração intelectual".

Temos em Freud a análise feita a partir do caso Daniel Paul Schreber, embora não tenha sido um caso atendido por ele, comentou a partir do livro de memórias publicado por Schreber, onde ele narra o curso do seu adoecimento. Muito embora Freud concordasse com a classificação e descrição elaborada por Kraepelin, vem  a propor uma outra abordagem, segundo Roudinesco e Plon, notadamente em um manuscrito enviado a Wilhelm Fliess em 24 de janeiro de 1895. Diz Freud: "A paranóia crônica, em sua forma clássica, é um modo patológico de defesa, como a histeria, a neurose obsessiva e os estados de confusão alucinatória. As pessoas tornam-se paranóicas por não conseguirem tolerar algumas coisas – desde que, naturalmente, seu psiquismo esteja predisposto a tanto". Freud ainda irá acrescentar a esse quadro o mecanismo da projeção: "representação inconciliável com o eu, projetando seu conteúdo no mundo externo", o que levaria a supor que os paranóicos "amam seu delírio como amam a si mesmos, esse é o segredo". Ainda vem a ter novas reflexões e discordâncias principalmente as classificações que irão fazer Jung e Bleuler e finalmente na terminologia freudiana clássica, "a paranóia tornou-se o modelo paradigmático da organizações das psicoses em geral".

Para a escola kleiniana, a partir de 1946,  contruiu  uma concepção onde ela seria abordada como uma fase ou ainda um processo arcaico onde "todo sujeito em sua infância, passa forçosamente por uma fase psicótica(ou posição esquizo-paranóide), na medida em que a psicose é definida como um estado de fixação num estádio primitivo, ou de regressão a ele".

Segundo Otto Fenichel em sua obra "Teoria Psicanalítica das Neuroses" a projeção  "é essencial naquele estádio precoce de desenvolvimento do ego que Freud denominou o ego prazeroso purificado e em que tudo quanto é prazeroso se experimenta como pertencente ao ego(uma coisa a engolir-se) , ao passo que tudo que quanto é penoso ou doloroso se experimenta como sendo não ego(uma coisa a cuspir-se)".

Freud evidenciará as questões envolvidas no delírio de perseguição em sua análise sobre o caso Schreber e viu em seu delírio uma tentativa de  superar conflitos em relação ao sem complexo paterno e ligados ao seu componente "homossexual passivo".

"Schreber buscava com suas idéias delirantes proteger-se de tentações homossexual-passivas, que se originavam na sua atitude infantil para com o pai".(Fenichel)

Desenvolve toda uma atitude ambivalente em relação a Deus e " pela idéia de que estava emasculado".

Protegia-se dessa maneira das suas inclinações em relação ao investimento homoafetivo pela negação e projeção. "Eu não amo, odeio-o", segundo diz Freud e ainda depois transformaria em "Ele me odeia" e ainda depois "Eu o odeio porque ele me persegue".

Segundo Fenichel: "A perseguição representa a tentação homossexual transformada em ameaça temível, independente da vontade do paciente. Pela destruição da função do juízo da realidade, esta defesa malograda contra a tentação homossexual ganha seu caráter delirante".

Como principais manifestações do quadro de paranóia poderemos falar em: delírio persecutório, erotomaníaco e de ciúme. Temos ainda que observar que para Freud a paranóia poderia tanto se manifestar ligada a um quadro de esquizofrenia como ainda poderia se constituir em um quadro separado, evidenciando ainda mais a característica de preservação da capacidade intelectual ligada a outros setores da vida do paciente que não estivessem ligados ao seu delírio. Outro aspecto pouco estudado nesse quadro será o que se nomeará como "impulso querelante" onde se apresentará uma crença sistematizada de que é lesado por toda gente e impulsos permanentes de ataque a autoridades. Segundo Fenichel encontraremos aí "um ego que regrediu à 'inocência' do estado narcísico primitivo tenta lutar contra os restos de um sentimento de culpa que havia iniciado, como defesa, a regressão. Os conflitos que giram em redor do sentimento de culpa podem representar, em última análise, antigos conflitos com o pai; e combatem-se as autoridades do mesmo modo que se havia(ou não havia) combatido o pai na infância".

Na base das idéias delirantes a psicanálise de Freud apontará então sempre alguma ordem de tensão existente em torno dos conteúdos homoafetivos de investimento e uma forte ambivalência que alimenta a economia do aparelho psíquico.

Observaremos isso também presente de forma bastante ilustrativa no chamado delírio de ciúmes. Esse quase sempre apontará para uma tendência a triangulação da relação amorosa em busca de satisfazer desejos homoafetivos que se encontram subjacentes.  Segue a fórmula: "Não o amo, é ela quem o ama"(no caso masculino, embora esse tipo seja mais comum nas mulheres). Tenta se livrar do desejo projetando-o na parceira(o) e logo após sendo perseguido por ele. "Em geral, demonstra-se que o homem(ou mulher*) enciumado, não está  irritado simplesmente pelo fato da parceira ter interesse por outro homem, mas também se irrita com o fato de este dá atenção a ela e não a ele".

*observação nossa

Muitas vezes essa necessidade desse amor sem limites indicará uma busca inconsciente de manter afastados seus impulsos homossexuais.

Ainda poderemos pensar em homens "que se apegam freneticamente a mulheres, ou tentam exagerar uma paixão; vê-se à análise que este amor desproporcionado por mulheres ou este desejo de ser amado é defesa contra um amor inconsciente por homens". (Fenichel)

Freud ainda apontará nos mecanismos da paranóia para uma erotização das funções do superego, é importante observar isso na condução da análise desse tipo de pacientes.

"As criações delirantes, contudo, não só ameaçam e punem o paciente; é freqüente também se apresentarem com o aspecto de seduções, que levam o indivídio ao pecado ou lhe enfraquecem a potência sexual". (Fenichel)

Observaremos na erotomania a fórmula: "Não o amo a ele, amo-a a ela, porque ela me ama". A convicção quanto ao amor do objeto superinvestido marcará esse quadro. Há um filme muito interessante acerca desse quadro chamado "Bem-me-quer mal-me-quer", muito bem conduzido onde podemos vivenciar os mecanismos desse tipo de quadro.

Poderíamos pensar em sujeitos que passam o tempo todo contemplando o objeto amoroso, sem conseguirem jamais atingir este alvo, encontraremos um apego frenético ao objeto o que alimenta toda perseguição a qual se lança o eritomaníaco em relação ao depositário do conteúdo delirante. Não poderemos esquecer da ambivalência contida sempre nos mecanismos da paranóia.

A psicanálise ainda apontará para as questões anais que se encontram nesse tipo de quadro de sofrimento psíquico. "Segundo Abraham, pensa-se no processo de incorporação das fantasias paranóides como se fosse realizado pelo ânus". (Fenichel)

Teríamos então a fórmula: perseguidor = objeto homossexual = órgão narcisicamente hipercatexizado e projetado(fezes, nádegas) = superego projetado.

Esse superego projetado é reintrojetado e expelido novamente em uma nova projeção agora investida com os conteúdos do ego. Podemos entender isso de forma clara nos delírios onde o paciente vive permanentemente a certeza de ser observado e criticado ou ainda de que todos riem dele.

"Resumindo: Os delírios, tal qual as alucinações, são condensações de elementos perceptivos, idéias, recordações, distorcidos sistematicamente, de acordo com tendências definidas, as quais representam desejos instintivos rejeitados, bem como ameaças que vêm do superego. Os delírios também se podem interpretar como os sonhos; revelam, à análise, o 'cerne histórico' que se distorceu em delírio".(Fenichel)

Ainda veremos que existe também uma questão ligada a investimentos e bloqueios ligados a fase oral, mesmo em Freud há apontamentos nessa direção. Fairbain considerará essa questão presente em todas as modalidades de psiconeuroses, inclusive nos aspectos e mecanismos da paranóia. Diz: "Não obstante, as minhas próprias investigações não me deixam lugar para dúvida de que os estados paranóides, obsessivos e histéricos – aos que se pode juntar o fóbico – não representam, em essência, os produtos de fixações a fases libidinais específicas, e sim simplesmente uma variedade de técnicas utilizadas para defender o ego dos efeitos provocados por conflitos de origem oral".(grifo do autor)  (Estudos Psicanalíticos da Personalidade – pág. 24 - Fairbairn)

Esse ponto de discussão é importante para percebermos como aponta Fenichel, "que o sexo do paciente não parece influenciar a estrutura do delírio. É fácil substituir 'ela' a 'ele' e vice-versa nas fórmulas freudianas que caracterizam os delírios persecutório, erotomaníaco e de ciúme".

Teremos que nos reportar então, para a importância das relações na fase pré-edípica, investidas de todos os aspectos narcísicos que estarão presentes na base histórica da formação da idéia delirante ou  deliróide.

Ainda em Fairbair encontraremos um apontamento que serve para pensarmos de forma ainda mais consistente sobre esse quadro, diz ele:

"A dicotomia do objeto pode ser definida como um processo por meio do qual o objeto primário  para o qual se orienta o amor e o ódio é substituído por dois objetos: um aceito, para qual se dirige o amor, e um recusado, para qual se dirige o ódio. Porém devemos acrescentar que, de acordo com os desenvolvimentos que tiverem ocorrido durante as fases orais, ambos os objetos, o aceito e o recusado, tendem a ser tratados em grande parte como objetos  internalizados".

E como vimos nos mecanismos da paranóia, ainda serão reprojetados no mundo externo e alimentando dessa maneira toda a estrutura do delírio que é ao mesmo tempo, a doença e a tentativa de religar-se ao mundo externo e restabelecer relações de objeto.

Lidar com a "fala" contida no delírio será como acompanhar uma criança em um quarto escuro habitado por monstros terríveis, e, aos poucos, possibilitar o olhar para um cômodo iluminado, onde as representações monstruosas se configurarão muitas vezes nos brinquedos mais investidos de afeto.

1Psicóloga e Psicanalista clínica no Rio de Janeiro/RJ - E-mail: denisedeschamps@globo.com

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