Sobre o discurso na psicanálise

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Por Ale Esclapes1

Iniciei há algum tempo uma leitura mais aprofundada de Lacan e aqueles que seguem seu ensino (como alguns gostam de serem designados). É muito interessante a diferença entre as formas de escrita nas diversas escolas de psicanálise.

Freud sempre me impressionou como escritor. Possuía um domínio da língua, tinha um estilo ao mesmo tempo que acadêmico, bastante coloquial. Um verniz positivista contrasta com a radicalidade de suas descobertas. Freud geralmente não se referia a outros, mas a psicanálise. Quando se referia a outros, geralmente era para descordar não que fosse regra, mas uma norma.

Melanie Klein era na melhor das hipóteses uma escritora ruim, com textos árduos e exigentes em relação a Freud. Como investigou a fundo a questão da fantasia, que por si só aponta para uma dificuldade de simbolizar-se, algumas vezes seus textos parecem herméticos. Mas é interessante notar que a Klein do início não é a do fim. Se no início era necessário se colocar como filha de Freud, suas obras da década de 50 mostram um escrito muito mais segura de si. Seus seguidores mantém o estilo de escrita desde a década de 50, mas com um ar muito mais leve. Se em Freud a teorização era algo muito importante, para os kleinianos o caso clínico, a experiência analítica, ganha um primeiro plano.

Winnicott foi fiel à sua própria teoria – um escritor simples, de palavras cotidianas, não preocupado com seus antecessores mas com seus pares. Exerceu aquilo que denominou de gesto criativo em relação a psicanálise. Seus textos são frescos, vívidos, cheios de esperança – muito diferente do Freud depois de 1924.

Agora vem uma escrita que venho descobrindo – a lacaniana. Me parece que essa escrita emerge de uma estrutura deixada pelo próprio Lacan. Precisa conter o nome-do-pai, razão que não passa uma única página sem citar Freud. Pela teoria lacaniana, se isso não ocorresse seria uma foraclusão. Será que é essa a insistência em se dizer seguidor do ensino de Lacan? Para marcar uma posição estruturante pelo menos neurótica? De qualquer forma me parece a escrita mais determinista dentre todas – não se escapa de suas estruturas. Esse é um legado de quem namorou por muito tempo o estruturalismo – a repetição.

1Psicanalista, Professor e Diretor da EPP e do Instituto Sándor Ferenczi de Psicanálise-ISF.

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/56756/1/SOBRE-O-DISCURSO-NA-PSICANALISE/pagina1.html#ixzz1Cj3NvCxP

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