Daniel Paul Schreber

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Por Andrea Senna1

Daniel Paul Schreber, 42 anos, casado há seis anos. Demonstrava uma carreira bem sucedida como jurista. Na Alemanha, Schreber desenvolve uma crise psicótica ao assumir um cargo que um juiz podia alcançar. É invadido por delírios e alucinações que lhe transmitiam a mensagem de que Deus iria manipular o seu corpo, transformando-o em mulher para dar origem a uma nova raça.

Durante a internação psiquiátrica escreveu um livro sobre suas recordações sobre “a doença dos nervos”. Freud fez uma análise do caso Schreber, a partir da qual também funda sua teoria acerca da psicose. 

1.1 Antecedentes da infância e influências de familiares:

Na infância tinha que dormir com aparelhos de ferro e couro que seguravam seus pés, deixavam sua coluna reta e a cabeça era segura com uma espécie de capacete que se estendia até o queixo. O objetivo era permitir que o crescimento do crânio se desenvolvesse adequadamente.

Era filho de um importante médico ortopedista, professor da Universidade de Leipzig. O pai de Schreber o obrigava a submeter a técnicas rígidas de educação postural e comportamental.

Um acontecimento importante na vida de Schreber, foi quando tinha 16 anos, seu pai sofreu um acidente. Uma grande barra de ferro de um aparelho de ginástica criado por seu pai o atingiu na cabeça, deixando-o com sequelas cerebrais, o que após três anos ocasionou a sua morte.

A morte de seu pai, ocasionou um contexto favorável para o seu irmão mais velho ocupar o lugar de uma referência masculina. Schreber seguiu o mesmo trajeto profissional de seu irmão, na carreira jurídica. Um acontecimento trágico foi quando o seu irmão comete suicídio.

Outro fato relevante de sua vida e com relação a sua ligação com a sua mãe, ela parecia não ocupar um lugar de destaque na relação familiar. A mãe de Schreber era percebida como uma mulher deprimida, com dificuldades para se expressar afetivamente.

1.2 Os sintomas de Schreber:

Primeira crise, durou em torno de um ano. Sofria de graves insônias e ideias hipocondríacas. Achava que seus órgãos internos se deterioravam, que o seu corpo emagrecia assustadoramente. Tinha sentimentos de abandono com relação a sua esposa, acreditava que ela desapareceria.

Teve o acompanhamento de um renomado médico psiquiatra, Paul Emil Flechsig, que conseguiu restabelecer a  sua saúde mental.

A segunda crise de Schreber foi quando passou a ter pensamentos de que seria bom ser mulher, viver a experiência do ato da cópula. Passou com frequência ter crises de insônia e seus antigos pensamentos hipocondríacos.

E a terceira manifestação da doença de Schreber, vozes e delírios retomaram com força. A lembrança da morte de seu pai, fez com que o levasse a ter tentativas de suicídio, por várias vezes tentou se afogar na banheira do hospital que se encontrava internado.

1.3 A transferência de Schreber com o psiquiatra, Flechsig:

Seus delírios passaram a se fazer presente, delírios de perseguição. Acreditava que estava sendo perseguido, para que sua alma fosse destruída. A presença de pensamentos de seu corpo iria ser transformado em um corpo feminino era recorrente, e esse corpo feminino seria maltratado, abusado pelo seu médico. Surge medos constantes de seu médico.

Os delírios de Schreber foram estudados por Freud, e ele percebeu conexões com a ausência de filhos, a frustração por não ter sido pai e a sua fantasia sexual, pode ter desencadeado o processo de transferência com seu médico. Em vários anos do caso clínico, pode-se perceber uma transferência muito forte para o doutor Flechsig, que chega a ocupar um lugar central no delírio de Schreber.

1.4 O avanço da pesquisa psicanalítica:

Os delírios de Schreber são entendidos como expressões de desejos, assim como os sonhos. Freud começa a pesquisar sobre a psicose e, mais especificamente, sobre a paranoia. Passa a considerar que os delírios não devem ser entendidos sem sentido, mas como um mecanismo de defesa. Sabe-se que após anos de sofrimento, Schreber acabou se convencendo que seria transformado em mulher, o que lhe causou maior quietude mental. A presença dos delírios de que seria copulado por Deus e seu médico era cúmplice se apresentavam constantemente. Os delírios permaneceram, mas Schreber dizia que não o incomodavam tanto.

O caso clínico foi de grande relevância para o avanço dos estudos de Freud, pois passa a considerar o delírio como uma produção psíquica a ser escutada. Surge a compreensão da possibilidade de transferência em casos de psicose.

1.5 Considerações finais - Caso clínico:

A grande hipótese que se estabelece frente o caso clínico, Shreber, é que na paranoia pode-se dizer que se refere a uma doença de poder, ideias de superioridade. A ausência de uma figura paterna forte pode desenvolver uma necessidade demasiada da presença de uma referência de ordem, que predominantemente simbolize a lei. Diante disso, o caso Schreber, nos remete a uma regressão ao narcisismo primário. Podemos notar que Schreber rejeita novas percepções do mundo externo e cria um mundo interno para atender os seus desejos inconscientes. Os delírios de Schreber em relação a Deus, sinaliza para Freud que era preciso persistir na crença de que era  possível se vislumbrar  a possibilidade de interpretação em sua “loucura”.

1Psicóloga e atualmente aluna do Programa de Formação da EPP.

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