Reflexões sobre o artigo: Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê

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Por Pe. Ernani Maia dos Reis¹

Segundo Melanie Klein, já no início da vida o bebê vivencia ansiedades provenientes de fonte internas e externas, sendo que as internas são provenientes da pulsão de morte, dando origem ao medo de aniquilamento que é a causa primária da ansiedade persecutória.

O nascimento é a experiência padrão para todas as ansiedades posteriores, pois é sentido pelo bebê como um ataque por forças hostis, isto é, como perseguição; o bebê é “despido” de sua onipotência e plenitude intra-uterina e submetido a diversas privações, à incompletude e à não plenitude: passa a ter inúmeras necessidades a a depender de um outro, a mãe.   Atacado por forças hostis, internas e externas, fundamenta-se a primeira posição psíquica, a esquizo-paranoide, quando tais forças são sentidas como perseguição; portanto, a ansiedade prevalente é a persecutória.

O seio materno, que adquire caráter simbólico, é, inicialmente, distinguido entre seio bom e seio mal, conforme sera gratificante ou frustrante e, assim, o bebê orienta para um e outro o seu amor e o seu ódio (instintos libidinais e agressivos). Sendo assim, o seio gratificador é sentido como bom e amado; o frustrante é sentido como mau e odiado. Essa cisão se dá devido à falta de integração do ego.

Segundo MK, o bebê utiliza os mecanismos de introjeção e projeção: projeta os impulsos de amor, atribuindo-os ao seio gratificador e o projeta o impulsos destrutivos para o exterior e os atribui ao seio frustrador. Ao mesmo tempo, pela introjeção, um seio bom e um seio mau são estabelecidos dentro dele, em clivagem, totalmente distintos um do outro. Esses primeiros objetos introjetados formam o núcleo do superego. Se é assim, para o bebê há um seio bom e mau interno e externo: A imagem do objeto é distorcida na mente do bebê por suas fantasias, que estão intimamente ligadas à projeção de seus impulsos sobre o objeto.

Na posição esquizo-paranoide as emoções do bebê são poderosas e radicais: o mau é destruidor e o bom é idealizado (idealização). Seio bom e seio mau estão proporcionalmente ligados: quando maior o medo de um, maior o poder destruidor e, portanto, persecutório, do outro. Para diminuir a ansiedade, entram em ação mecanismos de defesa tais como a cisão, a negação e a onipotência. Quanto maior a ansiedade, maior a intensidade dos mecanismos de defesa e mais patologias. Se a cisão for muito intensa, menor a integração do ego que, inicialmente, se dá em curtos períodos. A integração dá origem à ansiedade depressiva.

A posição depressiva surge por volta do segundo trimestre de vida do bebê, quando o ego começa se integrar. A integração do ego coincide com a integração do objeto, seio bom e seio mau. Como a percepção da realidade aumenta, amplia-se assim a percepção da mãe na mente do bebê: de uma relação com partes de seu corpo para uma concepção da mãe como pessoa inteira e única. Sendo assim, faz surgir a culpa e a necessidade de reparação do objeto amado que foi danificado: o mesmo objeto amado foi o odiado e danificado.

Os mesmos mecanismos entram em ação, agora para diminuir a ansiedade depressiva; se usados com maior intensidade, lançam de novo na ansiedade esquizo-paranóide. Com emersão do sentimento de culpa, há a tendência de reparar o objeto que foi danificado, na fantasia.  Nesse fase, os objetos internos bons são mais estabelecidos, há sentimentos maiores de segurança, maior fortalecimento do ego. Aumenta a percepção da realidade.

Melanie Klein afirma que há uma relação estreita entre a posição depressiva infantil e os fenômenos de luto e melancolia: o luto repete a situação emocional vivida pelo bebê na posição depressiva e sua capacidade de restabelecer seu mundo interno dilacerado.

Por volta dos seis meses o bebê entra no estágio inicial do completo de Édipo direto e invertido. Desejos orais são transferidos do seio da mãe para o pênis do pai. Desejos genitais aumentam dirigidos principalmente para o pai e equacionado em forma de fezes. O bebê ainda sente o pênis do pai estando dentro dele mesmo e da mãe.

À inveja primária se junta o ciúmes nesta situação edípica. Também há o pênis bom e o mau, e tudo isso é base para a teoria dos pais combinados. Quanto mais realista vai ficando a relação com os pais, o bebê passa a vê-los como indivíduos separados. E isso se desenvolve na posição depressiva. Os estágios iniciais do Complexo de Édipo ajudam a criança a superar a posição depressiva.

Eu, particularmente, achei espetacular o texto de Melanie Klein, o que me fez sentir dificuldades de resumi-lo, pois todo o conteúdo é importante. O conteúdo é muito denso e, ao mesmo tempo, consegue expor sua teoria de modo brilhante. Desafiei-me ao sintetizá-lo o máximo que pude, certamente ajudado pelas aulas do curso, que me forneceram um conhecimento de base para o trabalho.

Melanie Klein é excepcionalmente intuitiva e uma brilhante observadora. Sabemos que ela, como psicanalista, utiliza, em muito, de sua experiência pessoal em relação aos confrontos que sua própria vida lhe impôs. Mas, o fato de conseguir sintetizar e simplificar tão bem o desenvolvimento do psiquismo humano a partir de duas posições, torna o trabalho psicanalítico também um tanto simplificado.

¹Padre e abade do Mosteiro da Trindade em Monte Sião/MG, psicanalista formado pela EPP.

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