O anel que tu me deste

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Por Ale Esclapes1

... era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas, era pouco e se acabou.” Essa é uma pequena metáfora da confusão emocional que se estabelece entre mãe e filho, e que marca essa relação pelo resto da vida, deixando marcas profundas em cada um dos pares. E tudo isso com uma pequena contribuição do pieguismo social.

Uma das maiores angústias da mulher (se não a maior) é saber se pode ou não gestar um filho. Muitas vezes todas as suas frustrações (que no ser humano não são pequenas) são direcionadas para esse evento, como se ter um filho resolvesse todas as angustias da vida. Em muitos casos também, esses indivíduos não conseguiram atingir o “status” de adulto, e não tendo podido velar e enterrar a infância com dignidade, tentam pular a fase adulta, tornando-se mãe, retornando aos dois únicos personagens da vida da infância: a mãe e o filho, numa eterna brincadeira de boneca. 

Freud escreveu em “Uma introdução ao narcisismo” que amamos nossos filhos de acordo com o que gostaríamos de ser, de acordo com o que fomos, ou do que somos – em suma, amamos nossos filhos como uma extensão de nós mesmos, como um espelho que deveria refletir nossa imagem. Existe uma enorme dificuldade de vermos os filhos como seres separados, com um sentido de vida independente do nosso, com desejos que muitas vezes não levam em consideração os de seus pais. “Cria-se filhos para o mundo!” Todo mundo sabe disso, mas da boca para fora – para dentro a conversa é outra.

Esses dois quadros dão uma boa ideia de pelo menos um dos principais ingredientes do amor materno (e paterno): REDENÇÃO! (mas não o único).

O filho pelo seu lado é tratado principalmente na primeira infância como o centro da casa. Para essa criança ela não é apenas o centro da casa, mas o centro do universo (pelo menos do universo que essa criança conhece). Todas as suas necessidades são prontamente supridas por uma mãe que enxerga, entre outras coisas, a redenção dela nessa criança. É o amor incondicional materno que cria uma ilusão que um dia fomos “os mestres do universo”.

Porém tudo isso é falso e necessário, e esse par tem um encontro marcado com a verdade – que não somos o centro do universo e que nossos filhos não são nossa redenção. Quanto mais cedo isso ocorrer (e formos capazes de assimilar isso) poderemos assumir a responsabilidade por nossas vidas. Essa confusão de sentimentos é necessária, pois somente uma mãe que acredita que seu bebê é sua redenção pode lhe dar amor incondicional, acordar seis vezes por noite para dar-lhe de mamar, etc ... E sem esse amor incondicional, sem essa sensação de que um dia fomos o centro do universo, estaríamos condenados a loucura, e a sofrermos de uma eterna baixa estima.

1Psicanalista, professor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Sándor Ferenczi-ISF. Autor do livro: A Pobreza do Analista e Outros Trabalhos 1997-2015 e Organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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