Quando acontece a contratransferência no setting analítico¹

Por Ana Cristina Campos D'almeida2

Com este estudo pretendo desenvolver uma reflexão sobre o aspecto multidimensional do encontro analítico, bem como enfatizar a importância da existência de uma comunicação não linear e o quanto esta comunicação traduz os movimentos de transferência e contratransferência que fluem neste encontro e que lhe dão vida e significado.

Proponho também, um olhar sobre a qualidade de nosso sentimento enquanto analista em querer entender determinados conhecimentos adquiridos através de leituras e estudos e experimentá-los no setting. 

Palavras Chaves

Inconsciente, objetos subjetivos, transferência, contratransferência, vinculo analítico, Impacto emocional, comunicação verbal e não verbal, desejo de entendimento, intuir e o sentir analítico.


Introdução

Este trabalho não se trata de um caso em específico, mas de sentimentos e metas (sic) que me propus a viver no setting, a partir de estudos que realizei durante a formação em psicanálise, e que influenciaram minha postura como analista no início de meu estágio clínico. Isso tudo tem relação também com as sensações que sentia durante a sessão analítica, sensação de sonolência, peso, boceja e cansaço decorrentes do que estava acontecendo no setting. Reconheço através destas sensações que passei a compartilhar com meu paciente, um nível de sensações e sentimentos que iam para além da comunicação verbal, estendendo-se para um nível de comunicação visceral, trazendo com isto, uma nova qualidade, uma nova ordem a este encontro analítico.

Quero compartilhar também o que inicialmente estas sensações mobilizavam em mim, enquanto analista, centrada que estava em minhas metas estabelecidas (ledo engano) a partir dos estudos realizados, presa em conceitos e ideias, que hoje reconheço idealizadas, as quais provocaram um desejo de entendimento daqueles estudos, através dos movimentos do setting.

Foi somente a partir das orientações do revisor, na elaboração deste artigo³, que passei a reconhecer que para mim, primeiro vinha o conceito que me encantou após a vivência no setting, a qual passava a estar moldada em função do conceito elegido por conceito por mim. 

A contratransferência do analista

Esta parte do meu trabalho está centrado no momento em que abria a porta do meu consultório para receber meu paciente: proponho um olhar, uma reflexão para este meu instante mental.

Era na fase inicial de meu estágio clínico, minha mente repleta de metas, com desejos e sonhos a experimentar, povoada por desejos de entender, de vivenciar aquilo que eu supus que fosse a partir de materiais tirado de leituras. Havia uma leitura que me encantava mais do que todas as demais, o livro era este: ‘Quem é o sonhador que sonha o sonho? : Um estudo de presenças psíquicas’ (GROTSTEIN, 2003)

Fiquei realmente encantada com esta perspectiva, a existência de presenças psíquicas, e passei a procura-las da mesma forma que os caçadores de fantasmas o fazem. Meu desejo de entender do que se tratava isto e de como eu poderia sentir estas presenças, orientou toda a minha ação analítica, naquela fase inicial de atendimento. Para mim, naquele período meu paciente era um manancial de presenças psíquicas e eu seria aquela que as decifraria para ele. Esta busca, portanto, passou a ser uma meta que se estendeu a todo atendimento realizado naquele período. Até que ao realizar a primeira versão deste estudo compreendi que esta busca por presenças psíquicas era de fato a expressão do meu desejo de entendimento, sendo, portanto, a extensão de minha própria contratransferência, e, foi através deste reconhecimento que consegui me reorientar e reorganizar meu sentido e significado como analista.

Percebi-me atuante no setting tanto quanto o meu paciente, e penso que até mais, já que entre ele e eu havia uma busca de minha parte por entender o que seriam estas supostas presenças psíquicas (as que li no livro acima citado), imersa em um processo de idealização a partir de uma breve leitura sobre o assunto. Ao perceber isso tudo, consegui ter alguns insights sobre minha atuação, pois compreender isto foi forte para mim, mas profundamente libertador pois aprendi a estudar – ou seja, ler, entender e seguir a diante e não ficar presa em especulações. Para esta postura de receber meu paciente com o desejo de entender aquilo que estudei anteriormente – aprendi que tem um nome – Contratransferência.

Depois de meu revisor da primeira versão desse trabalho ter me mostrado o real significado do que estava acontecendo comigo, e do que isto poderia resultar das sessões realizadas, senti vontade de começar tudo novamente, só que desta vez não era mais a partir de uma ideia que me encantou e que me gerou desejos e suposições, mas de um fato clínico gerado por mim, enquanto analista. Senti a necessidade de estudar para entender e transformar minha postura enquanto analista. Passei a refletir qual o sentido e o propósito do encontro analítico.

“O que é um encontro analítico? Uma relação que produz um impacto emocional mútuo – troca de informações – tanto no âmbito verbal como não verbal.” (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30)

Ao reconhecer que um encontro analítico é uma relação que produz impacto emocional mútuo – refleti, qual o impacto emocional que eu proporcionava ao meu paciente se na realidade estava utilizando aquele setting para testar minhas suposições? Neste momento refleti sobre o que eu estava de fato gerando em meu paciente? Foi quando me deparei com a contratransferência – “O que é Contratransferência? Uma escuta por meio dos sentimentos do analista, o que o paciente diz e o que o paciente não diz, por ignorá-lo no nível do Cs. Uma teoria de dupla, de vínculo dos fenômenos que ocorrem no par analítico e não apenas no paciente”. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30)
No encontro analítico existe um par, existe uma interação e é a partir desta, que surge o vínculo que une os dois. Reconheço-me procurando por presenças psíquicas, querendo ter a experiência de estar diante do sonhador e ao mesmo tempo completamente alheia a interação que se construía entre eu, analista e o meu paciente, interação esta que só se dá a partir do momento presente do setting.

Na realidade este desejo de entender pode ser denominado de ...

“Contratransferência Indireta – transferência do analista em relação a totalidade dos objetos, que de modo indireto, são transferidos para o paciente”. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30)  Compreendo hoje, que o que influenciou meu sentimento para que tal fato ocorresse foi minha excessiva onipotência, na medida em que o cenário em mim, já estava todo montado cabendo ao meu paciente apenas concretizá-lo.  Nesta hora em que estou escrevendo isto eu penso, onde estava minha neutralidade? Na medida em que eu estava completamente imersa em uma fantasia de entendimento e experimentação de algo que apenas estudei e me encantei ao ler? Fica aqui uma reflexão... 

A contratransferência como comunicação

O outro item também em relação à contratransferência que pretendo tratar é sobre as sensações que sinto durante o setting, tais como o sono, o peso, o cansaço e o bocejo. Em determinados momentos do encontro terapêutico, minha luta passa a ser comigo mesmo e com as sensações que passam a fazer parte do momento terapêutico e da resistência que tenho de fazer para preservar o ritmo da sessão.

Em uma destas ocasiões meu paciente falava de seu sentimento de não dar conta de seus compromissos, um sentimento de incapacidade e inadequação, como se tudo o que fizesse fosse insuficiente e insatisfatório, e começou a me descrever que situações seriam estas e sua sensação de incapacidade em lidar com elas, à medida que descrevia cada uma destas situações, fui sentindo um peso, uma sonolência que sinceramente me era difícil permanecer alerta e concentrada no que ele falava. Sentia realmente o peso da inércia e da inadequação. E a luta titânica para me manter alerta era algo descomunal.

Compreender que este estado de sensações e sentimentos é na realidade um aspecto emocional do meu paciente que passo a sentir visceralmente em mim, eu pude realmente compreender o que se passava com ele.
“Não só o psicanalista, mas também o psiquiatra contemporâneo, não podem ignorar a importância da utilização e da consulta aos próprios sentimentos em relação ao paciente. Alguns aspectos do paciente só poderão ser compreendidos a partir da consulta dos sentimentos mobilizados no psiquiatra... Inconscientemente este medo é captado e sentido como um mal estar no psiquiatra, que o compreenderá não como um sentimento apenas seu, mas como algo construído pela interação de ambos para expressar uma emoção inconsciente do paciente.” (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 49)

Mais uma vez volto a reconhecer a importância da interação que existe entre o analista e analisando, e que esta interação funciona como um cálice a ser construído durante o setting, o qual será o receptáculo para as projeções de nosso paciente, e que poderemos aprofundar nosso entendimento sobre como se sente nosso paciente, sentindo sua ação sobre nós.

"[...] Ainda dentro desta concepção, sobre pressões que os pacientes exercem sobre o analista para que este assuma determinado papel, Betty Joseph (1986, 1989), entre os kleinianos, também trouxe importantes contribuições ao descrever a "transferência situação total" Jacó Zaslavsky". Porto Alegre (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 36)

"Muito da nossa compreensão da transferência surge por intermédio da nossa compreensão de como os pacientes agem sobre nós, para que sintamos coisas pelos mais variados motivos (...) como atuam inconscientemente conosco na transferência, tentando fazer com que atuemos como eles. (...) se trabalhamos apenas a parte com a parte verbalizadas, nós não levamos realmente em conta as relações objetais que estão sendo atuadas na transferência (...) só podemos apreender através dos sentimentos provocados em nós, através da nossa contratransferência, usada no sentido amplo da palavra". [Joseph, 1885. P.164] citado por (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 49)

É neste espaço, neste vínculo que surge a partir desta interação, analista e paciente que deverá fluir nossa atenção, de forma plena e flutuante onde nosso sentir e nossa intuição deverão estar presentes.
Será a partir desta interação que se originará todo o material terapêutico sentido, bem como, verbalizado e experimentado visceralmente pelo analista e atuado pelo paciente através da transferência e só, após este processo, por meio da interpretação do que está se passando entre os dois, analista e paciente se tornarão conscientes.

Assim passando de uma comunicação pré-verbal, inconsciente e primitiva e que na maioria das vezes influencia muito a maneira de estar com os outros, e consequentemente, com o analista, para uma comunicação verbal – onde ao tornar-se consciente – pensar – o analista que a sentiu poderá interpretar para o paciente o que está se passando entre os dois. 

Stern (2000), baseando-se em observações e estudos da interação mãe-bebê, afirma que nas psicoterapias dinâmicas são construídos e organizados dois tipos de conhecimento de representações e de memórias: o explicito(consciente e simbólico) e o procedural(Inconsciente, não simbólico e não verbal)denominado de conhecimento relacional implícito [...] este é a base da relação mãe-bebê [...] diz Stern que continua ao longo da vida, inclusive muitas das maneiras de estar com o terapeuta, que chamamos de transferência. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 48–49)

Confesso que naquele momento terapêutico, em que eu, analista sentia sonolência, vontade de bocejar, cansaço, estava muito mais resistindo àquelas sensações, numa luta feroz em me manter alerta, do que propriamente decifrando tais sensações como reflexas de uma comunicação não verbal de cunho afetivo. E que na verdade resistir faz parte do processo, pois mostra na prática ao paciente como proceder, ou seja, que você não se poes de joelhos frente a essas sensações e se mantém de pé. Isso é uma verdadeira comunicação. Desta forma, tornava-me um receptáculo maciço das identificações projetivas de meu paciente ao mesmo tempo em que ao agir com resistência a estas sensações e sentimentos.

Passo a reconhecer que podemos no permitir sentir estas sensações e sentimentos, e o que realmente importa é o destino que damos a elas, até porque não podemos escolher nada sobre isto – o paciente o faz e pronto.
Esta é uma realidade intrínseca ao encontro analítico. Possuímos duas alternativas: ou podemos resistir a estas comunicações não verbais (evacuando-as por exemplo), ou compreender através delas o que realmente se passa com o nosso paciente em sua realidade emocional e através desta compreensão, passar interpretar sua forma de se relacionar conosco, naquele momento, naquele setting.

Compreendi que tampouco devo me preocupar com a forma de como o meu paciente vai receber minhas interpretações, se ele se sentirá confortável, se rejeitará o que tenho a dizer, se será produtivo ao seu bem estar,
“Todo aquele que esteja acostumado a lembrar do que os pacientes falam e a ficar querendo e seu bem-estar, terá dificuldade de avaliar o dano infligido à intuição analítica, inseparável de toda e qualquer desejo” (BION, 2006, p. 45)

Que devo priorizar é o meu senso de verdade, o meu intuir analítico sobre o que está acontecendo aqui e agora no setting. Até porque independentemente do que for dito, ou da forma como for dito pelo analista, haverá o jeito próprio e determinante de meu paciente receber minhas interpretações, suas fantasias...
“São novas edições ou fac-símiles dos impulsos e das fantasias que são despertados e tornados consciente durante o andamento da análise. (...) Em outras palavras, toda uma série de experiências psicológicas é revivida, não como algo que pertence ao passado, mas que se aplica ao médico no presente momento”. (KLEIN, 1991, p. 71)

Ou seja, reconhecer que para cada interpretação que é fornecida ao meu paciente, ele poderá reagir de forma automática ou de forma repetitiva e impulsiva (entre outras), em acordo com suas velhas e primitivas formas de atuar.

Estamos sempre tecendo e reconhecendo a qualidade e o nível das relações de objeto de nosso paciente, que são o centro de sua vida emocional, que será estabelecido no vínculo terapêutico. Ele (nosso paciente) estará revivendo seus vínculos anteriores, revi vencias estas que sentiremos através das sensações e dos sentimentos despertos em nós, analistas, para que assim possamos compreender a natureza destes sentimentos e de que forma estes determinam o seu agir em sua realidade cotidiana, que com certeza é a mesma no setting. 


Conclusão

Através deste estudo refleti sobre a importância e do impacto de nossas motivações, enquanto analistas e sobre o efeito destas na qualidade do vínculo que construímos com o nosso paciente durante o setting. 

Reconheço que existe um espaço terapêutico, um vínculo que construo junto com meu paciente a cada sessão analítica, e que este vínculo se renova em cada sessão.

Também reflito sobre a importância e o impacto de nossas motivações inconscientes, enquanto analistas e o quanto estas motivações determinam a qualidade e da relação analítica.
Percebo que meus desejos e memórias, enquanto analista podem vir a inibir a formação ou a qualidade deste vínculo que é tão essencial para que exista um encontro terapêutico centrado no aqui e agora. Para que o sentir e o intuir analítico possam respirar.

Aprendi que aquilo que meu paciente verbaliza vem acompanhado de um discurso emocional o qual se traduz em minha dimensão visceral, através de sentimentos e sensações e que estas estão profundamente alinhadas com o que está acontecendo no setting e que serviram de base, na medida em que eu, analista passar a reconhecê-las como fonte de informação e não apenas resistir a elas. Informações estas que poderão servir como referências para as minhas interpretações.

Passei a considerar que ficar almejando o bem-estar de meu paciente, de procurar ficar lembrando o que o meu paciente falou é permanecer presa em minha memória e meus desejos – fato este que poderá causar danos à minha intuição analítica.

E principalmente compreendi que quando estudo um assunto específico e por este assunto sinto-me encantada e cativada, o máximo que posso fazer com isto é entender este e depois esquecer, soltar. Para que o meu intuir possa fluir livre de qualquer tipo de informação, mesmo a que mais me encantou. Que apenas o aqui e agora possam ser direcionar o meu movimento analítico.

Proponho com este estudo e reflexão que este assunto não se encerre, mas que possa expandir-se, tal como um vértice que se abre onde possamos circular em compreensão de nossas possibilidades como analistas.

 

Bibliografia

BION, W. R. Atenção e interpretação. Tradução P. C Sandler. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
GROTSTEIN, J. S. Quem é o sonhador que sonha o sonho: um estudo de presenças psíquicas. Rio de Janeiro: Imago, 2003.
KLEIN, M. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.
ZASLAVSKY, J.; SANTOS, M. J. P. DOS. Contratransferência teoria e prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.
 

¹ Artigo apresentado na III Jornada da Escola Paulista de Psicanálise e do Instituto Sándor Ferenczi, parte integrante do livro Contratransferência(s) .
² É aluna do programa de formação em psicanálise da Escola Paulista de Psicanálise.
³ A primeira versão desse estudo era uma tentativa de encontrar no setting as teorias que havia lido no livro de Grotstein.

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Comentários

  • Guest (Catarina Faust)

    Parabéns pelo texto, esclarecedor e pontual!

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