Pulsão, o Eu e o Objeto

Por Sérgio Rossoni1

"Pulsão – Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética) que faz o indivíduo tender para um objetivo".
Laplanche e Pontalis – Vocabulário de Psicanálise – pg. 394.A partir do conceito de pulsão, Freud definiu como Pulsão de vida esta carga energética que visa conduzir o ser para seu estado de plenitude. A pulsão de vida aponta para o “outro”; Nela podemos incluir o amor, o sexo, etc.



O ser humano tende a retornar para essa plenitude “uterina”, vivendo ilusoriamente na busca desse prazer inalcançável. No início, o bebê acha que sua mãe pode fazê-lo alcançar essa plenitude. Posteriormente, percebe que essa meta é impossível. Passa então a crer que sua mãe possui algo que possibilitará seu retorno para esse estado (falo). Porém, o retorno para este estádio é impossível. Lacan o denominou de “falta”, Winnicott de “estado transicional”, e Freud de “miséria do mundo”. Contrapondo-se às pulsões de vida estão às pulsões de morte, que fazem o movimento contrário da pulsão de vida, arrancando o bebê da “falta” e lançando-o novamente para uma dura realidade, que será negada para que novamente possa ser implantada uma condição ilusória de perfeição. Ao nascer, além da perda da sensação de plenitude, o bebê passa a sofrer demandas impostas pela realidade: fome, sede, etc. A fome é saciada quando o bebê recebe da mãe o leite. Nesse momento, o “receber o leite” torna-se uma experiência de satisfação, sendo seu oposto uma experiência de não satisfação, composta pela privação, frustração e pela falta, sendo esta última sem solução devendo ser assimilada pelo analisando. Já a satisfação apresenta dois momentos: A necessidade (considerada mau), e a Completude (considerada bom). Voltar para a plenitude e perfeição é impossível. Perder essa ilusão é um luto narcísico. No entanto, o objeto bom vai apontar em direção a esse objetivo, dando-lhe esperança. Logo, o objeto bom é a memória do meu narcisismo.

Do ponto de vista social, esse objeto bom é mal. Ele mantém o ser em sua estrutura narcisista. Quanto ao objeto mau, é ele quem na verdade vai apontar o outro, arrancando o ser da falsa sensação de plenitude e lançando-o para a realidade. Assim, ainda do ponto de vista social, objeto mau equivale ao bem. As frustrações necessárias são imprescindíveis para o avanço do bebê e uma maior adaptação junto à realidade. Um fator importante a ser analisado é: o quanto o bebê suporto suas frustrações!  Se a criança não suportar nada, ela nega e fica no delírio (universo perfeito), catatônico; autista. Já no caso em que a criança suporta o mínimo necessário, então começa a apresentação de frustrações maiores (reino de frustrações e falta). Nesse sentido, se faz importante a mãe suficientemente boa (winnicott) para ajudar a criança a equilibrar a realidade fazendo-a perceber e se adaptar a essa realidade para o resto da vida. A necessidade está a serviço da pulsão de vida enquanto a completude está a serviço da pulsão de morte.

Ao nascer, o bebê sente que tudo a sua volta é uma extensão dele próprio. Não existe uma linha divisória entre ele e o mundo. Não existe dentro e fora.

Nesse sentido, o caminho é estabelecer uma membrana entre o “eu” e o mundo, e assim o bebê pode estabelecer e diferenciar entre dentro e fora, o “eu” e o “não-eu”.“Desenvolve-se a possibilidade de um sentimento de responsabilidade pela experiência instintiva e pelos conteúdos do EU, e um sentimento de independência em relação ao que está fora. Surge um sentido para o termo "relacionamento", indicando algo que ocorre entre pessoas, o EU e os objetos. A conseqüência é o reconhecimento de que há algo equivalente ao EU na mãe, o que impli­ca em senti-Ia como uma pessoa; o seio, então, é visto como parte de uma pessoa”. WINNICOTT, D. W.  -  parte III - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. Existe um ego (aparelho minimamente formado para me levar até o outro). Isso está ligado aos instintos. O ser nasce com uma noção de alguns elementos básicos para se virar no mundo real. Ele já nasce com algo que aponta o outro. Todo ser tem uma idéia inata de que existe o outro. Freud definiu como “redescoberta do objeto”.

Ego é uma instância psíquica. Nasce do biológico. É corporal. No início, o ego é desfragmentado. O bebê não sabe que sua mão é dele, assim como seu pé, etc. Ele tem idéia de um outro. São as experiências de satisfação as responsáveis pela integração do ego. “À medida que o self se constrói e o indivíduo se torna capaz de in­corporar e reter lembranças do cuidado ambiental, e portanto de cuidar de si mesmo, a integração se transforma num estado cada vez mais con­fiável’. - WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. No entanto, o ego corre o risco de não se integrar quando o sofrimento é sentido como um sentimento maior que o da satisfação (ansiedade psicótica). Não integrar significa pulsão de morte. Logo, a função do ego é a de fugir da pulsão de morte. Para Winnicott, a tendência a integração é inata no ser. “Não há dúvida de que existe uma tendência biológica em di­reção à integração”. WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. Logo, o ser mais integrado passa a ter um novo medo: o da desintegração. 

A integração provoca um sentimento de sanidade, enquanto a perda da integração que havia sido adquirida produz uma sensação de enlouquecimento. A desintegração é um processo de defesa ativa, e cor­responde a uma defesa tanto contra a integração quanto contra a não ­integração. A desintegração se dá ao longo das linhas de cisão estabe­lecidas pela organização do mundo interno, através do controle dos objetos e das forças que nele atuam. WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. O medo da desintegração é um medo esquizóide. Mesmo o esquizóide já passou por um período de integração. 

Podemos entender integração como uma sensação de unidade. O esquizóide tem essa unidade, e luta para não perdê-la. Ele vai ganhando experiência de unidade, avançando até chegar na posição depressiva. A base do psiquismo é a Phantasia (elaboração imaginativa da função corporal). Se o ser não possui sensação de unidade, ele não pode ter phantasia – isso porque as funções corporais não foram postas sobre o domínio do ego. Logo, vira um terror sem nome. Não existe um símbolo para apontar isso, mas somente a percepção do medo. Medo do vazio. O medo de desintegrar pode ser entendido como o medo de cair no terror sem nome. Esse terror sem nome é psicótico. Pode-se entender como psicótico tudo aquilo que antecede a triangulação (eu-mãe-outro).

Na medida em que vai ocorrendo a integração, o “outro” vai surgindo. Assim, mais uma batalha se inicia entre as pulsões de vida e morte. Enquanto a pulsão de vida aponta para o “outro”, a pulsão de morte vai apontar para o próprio ser (narcísico).

A pulsão de vida vai se manifestar através da satisfação, da ilusão da onipotência, e vai se tornar um objeto na phantasia – objeto bom. Começam as relações objetais pelas phantasias. As experiências de satisfação tornam-se objetos bons, enquanto a falta, a frustração e a privação tornam-se objetos maus.

O ego não quer se desintegrar – as experiências de satisfação formam o núcleo do ego (objeto bom), mas se esse núcleo for muito grande, torna-se muito narcisista. É necessário um equilíbrio entre as duas pulsões. Na medida que os objetos parciais vão se integrando, o ego vai sendo desintegrado (vice-versa).

As experiências de satisfação são sentidas pelo ego, que passa então a promover a integração na phantasia, que passa a integrar o aparelho psíquico. Entre a função corporal e a phantasia existe algo mais. O processo emocional caminha com o deslocamento do real. Representação de coisas filogeneticamente definida – seio.

Essa representação de coisas será percebida de acordo com as experiências de satisfação que dela prover. “As experiências recorrentes de gratificação e frustração são poderosos estímulos para os impulsos libidinais e destrutivos, para o amor e o ódio”; KLEIN, M. Algumas conclusões teóricas sobre a vida do bebe 1952. In Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. O resultado dessas experiências de agressão e frustração, bem como de gratificação e amor é a criação para o bebê de um seio bom que alimenta e dá prazer, e um seio mau que é perseguidor e fonte de frustração.Este modelo de seio bom e mau como objetos separados e diferentes, é resultado da falta de integração do ego, da cisão dentro dele. A cisão é um mecanismo de defesa tipicamente psicótico, e atua na representação de coisas. A criança está diante do outro –só que isto implica em matar o narcisismo. Para evitar a morte do narcisismo, ela lança mão da cisão. A realidade é negada (ela é insuportável; dura), e assim, na cisão tudo é dividido entre bom e mau. O seio bom torna-se o objeto ideal. O bebê o conserva. Esse objeto bom o protege contra o objeto mau, perseguidor, destruidor.  O bebê ataca o seio mau desejando destruí-lo. Seus ataques sádico-orais bem como ataques com urinas venenosas e fezes explosivas.são dirigidos para o seio mau. No entanto, o bebê acredita que o seio mau introjetado também têm toda essa voracidade destrutiva, e deseja igualmente destruí-lo. Ter um objeto mau para destruir significa um alívio para a ansiedade do terror sem nome. Neste estádio, o bebê pode ter nomeado seu inimigo.

A paranóia é um estágio acima da esquizofrenia. Se a ansiedade não for nomeada, o ser trava. O bebê fica próximo ao terror sem nome (Bion).

Esse bebê tende na phantasia destruir o objeto mau e conservar o objeto bom. Significa que o objeto mau vai também destruir o ser (retaliação). “Mas esse medo é contrabalançado pela relação do bebê com seio bom além de outros aspectos da mãe (seu amor, seu sorriso, carinho, etc); São esses elementos que vão diminuir a ansiedade do bebê diante do medo de ser aniquilado pelo seio mau, e o sentimento de perda do nirvana ao nascer. Estes fatores positivos aumentam a confiança no objeto bom”. KLEIN, M.  Algumas conclusões teóricas sobre a vida do bebe 1952. In Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. Pg 89. Assim, esse objeto mau precisa ser projetado para fora. Acontece então o que Melanie Klein denominou de identificação projetiva. Quando isso ocorre, significa que o bebê atingiu um certo conceito de unidade. Quando o objeto é projetado para o exterior, um pedaço do ego vai junto, começando então a esfacelar-se. O impulso de projetar aquilo que é mau é incrementado pelo medo de perseguidores internos. Quando essa projeção é dominada por esses medos, o objeto que recebe a projeção do self mau, torna-se o perseguidor. A reintrojeção desse objeto externo reforça o medo de perseguidores. Na projeção, as partes boas e más são projetadas e introduzidas no objeto externo; Logo, quando o bebê reintrojeta, ele traz para ele as partes boas e más. Essa reintrojeção das partes boas e do self bom diminui a ansiedade persecutória. O teste de realidade então corresponderia a uma salvação, confirmando ou não se tratar de uma mãe perseguidora ou suficientemente boa.

Neste período, para a criança obter satisfação, ele também destrói o seio, mas a mãe não confirma essa destruição. Logo para o bebê, sua satisfação não destrói o outro. Nesse momento a phantasia cede à realidade. Se todo processo correr bem, se as experiências de satisfação forem confirmadas, os objetos bons vão se solidificando nas phantasias. Objeto bom e mau vão se integrando. O objeto que era “eu” vai tornar-se aos poucos “não-eu”, e mais uma vez essa integração vai sofrer um impedimento. Surge uma nova batalha entre as pulsões de vida e morte. O objeto resultante dessa integração é apontado como o outro, logo é preciso destruí-lo. O Objeto bom poupado anteriormente passa a não ser mais poupado. Quando o objeto se presentifica, surge a inveja.

“Definição de Melanie Klein para inveja - A inveja, por sua vez, é uma relação de duas partes, na qual o sujeito inveja o objeto por alguma posse ou qualidade. A inveja surge logo que o bebê se dá conta do seio como fonte de vida e de experiência boa; a gratificação real que ele experimenta no seio, reforçada pela idealização - tão poderosa na tenra infância -, faz com que sinta que o seio é a fonte de todos os confortos, físicos e mentais, reservatório inesgotável de alimento e calor, amor, compreensão e sabedoria. A bem­ aventurada experiência de satisfação que esse maravilhoso obje­to pode dar, aumentará seu amor e seu desejo de possuí-Ia, pre­servá-Ia e protegê-Ia; a mesma experiência, porém, também des­perta no bebê o desejo de ele próprio ser a fonte de tal perfeição; ele experimenta penosos sentimentos de inveia, os quais acarre­tam o desejo de danificar as qualidades do objeto que lhe pode dar esses sentimentos penosos”.  – Hanna Segal – Introdução a obra de Melanie Klein – Capitulo IV.

O bebê inveja aquilo que sua mãe tem de bom e ele não. “O bebê, em sua inveja deseja danificar o seio, projetando nele suas pró­prias partes más e danificadoras”. –Hanna Segal – Introdução a obra de Melanie Klein – Capitulo IV. No entanto, o mesmo seio que desperta a inveja, é o seio que dá amor, alimento, despertando também a gratidão do bebê. Este seio ideal é introjetado e a menos que a inveja seja avassaladora, a gratidão irá superá-la. A gratidão permite ao bebê sentir-se dependente do objeto (seio), fazendo-o reconfigurar a idéia de destruição. Caso a inveja vença, o bebê cria uma estrutura narcísica. Essa estrutura vai negar as qualidades do outro e a dependência em relação a esse objeto. No narcisismo, “eu” próprio passo a ser o objeto bom.

Essa estrutura narcísica esta em maior ou menor grau presente em todas as pessoas, e caminha lado a lado com a inveja. A inveja se posiciona entre o “eu” e o “outro”, impedindo assim o contato do bebê com sua mãe suficientemente boa. Na inveja, o bebê deseja destruir tudo aquilo que a mãe possui e ele não, inclusive o pênis interno. Caso todo o processo seja realizado de forma positiva, e a inveja estiver sob controle, o bebê evolui para uma maior integração dos objetos, dando inicio a posição depressiva. Na posição depressiva surge um novo problema: O bebê sente-se culpado pelos ataques e destruição feitos ao objeto amado.  O objeto bom na verdade é a minha ilusão narcísica. Ilusão essa que o bebê tem de alcançar a plenitude tão desejada, como um ser único e superior. No entanto, quando o outro começa a existir e o bebê percebe que depende desse objeto, percebe a mãe diante de si como um ser separado dele, sua ilusão narcísica necessita ceder, dando lugar a essa nova percepção – a existência desse objeto. Ao final da posição depressiva, o “outro” deixa de ser a representação do meu narcisismo e passa a ser o outro. No derradeiro momento que nasce o outro, morre o meu narcisismo. Nesse período, enquanto o objeto está se unificando em um só, a gratidão, a culpa, a dor narcísica retornam. Surge a relação bi-pessoal (eu e o outro). O bebê introjeta esse objeto e identifica-se com ele. Assim, evita perdê-lo. Na identificação, eu me torno igual ao objeto bom. Na posição depressiva ocorre uma integração maior dos objetos, consciência, capacidades intelectuais, relação com mundo externo se desenvolvem com regularidade.

A relação com a mãe torna-se mais estabelecida. O bebê a percebe como objeto completo. Fortalece-se a identificação com ela. Diminui a discrepância entre o mundo interno e externo (figuras internas e externas). Surge na relação o terceiro elemento. O bebê passa a vivenciar uma relação entre o “eu”, minha mãe e o outro (pai).  Ao final da posição depressiva, o bebê deve estar identificado e podendo ter algo. A pulsão de vida é a esperança de alcançar a tão desejada plenitude. Uma doce ilusão.

1Psicanalista formado pela Escola Paulista de Psicanálise-EPP, escritor, ilustrador e músico. Atende em São Paulo.
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