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Por que Psicanalise?
e por que não psicanálise?
Por Alexandre Esclapes
Em meio a uma sociedade depressiva e com uma grave crise de sentido, a psicanálise é a única terapia que questiona e ouve o sujeito em sua singularidade. Fazer ouvir aquele que sofre pelo sintoma e ressoar com uma interpretação continua sendo um dos privilégios dessa terapia desenvolvida (ou inventada) por Freud a mais de 100 anos.
O sujeito, hoje massacrado pela normalidade e pelo alto desempenho, encontra hoje no mercado a sua disposição uma série de terapias, ou psicoterapias, que podem ser divididas em alguns grupos, a saber:
As que reduzem o sujeito a um elemento biológico abrindo um universo de cura muito mais próxima do sintoma que da subjetividade. É mais fácil encarar o suicídio como uma deficiência de serotonina que um ato de liberdade de um ser humano. Não temos que dar conta dos motivos psicológicos, e basta uma medicação para resolver esse problema. A normalidade e a felicidade estão a um pulo de distância.
Também tem as terapias que propõe uma adequação à normalidade, esta última entendida como uma média estatística. A felicidade aqui esta em conseguir seguir a manada, não importa para onde ela vá. Apoio, adaptações, programações, cognições – tudo vale para adaptar o homem ao seu meio, pois reside aí a origem da infelicidade.
A crendice como forma de repor a falta de sentido que habita nossa sociedade depressiva. A depressão e a falta de sentido são geralmente componentes que andam de mãos dadas. Quando não existe sentido em si, o mercado, as religiões ou um oráculo qualquer é chamado a tapar a falta, ou excesso de desejo.
A psicanálise é a única terapia que propõe como método a escuta do que existe de mais precioso em um ser humano – a singularidade de sua subjetividade.
Psicanálise e sua capacidade de transgressão
Por Denise Deschamps
Pretendemos com esse trabalho propor pontos de discussão em torno do contemporâneo da psicanálise enquanto um compromisso com aquilo que promove a tomada de consciência, sua aliança com o que irrompe o recalcado, daquele seu lugar designado originalmente como "disruptor", transgressor e libertário.
"Eu poderia ter procedido assim desde o começo e me teria poupado muita oposição. Mas não quis fazê-lo, porque me apraz evitar fazer concessões à pusilanimidade. Nunca se pode dizer até onde esse caminho nos levará; cede-se primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substância também".(1)
Esse magnífico trecho encontrado na obra freudiana nos remete a toda disposição de Freud em manter a psicanálise como uma teoria não alinhada aos aspectos mais regressivos ou repressivos das instituições culturais e sociais. Desde sempre, pagando muitas vezes com um isolamento do meio científico o qual tanto prezava e até mesmo do meio social, Freud manteve sua disposição em não transigir em nome de uma aceitação para suas pesquisas e publicações. Os estudiosos sobre sua vida são razoavelmente concordantes no que concerne ao fato de que Freud só teria experimentado com maior alegria e intensidade o prestígio que angariou com sua vasta obra, em seu último ano de sua vida, ano esse que passou em Londres, refugiado da Gestapo e do regime nazista.
Teceu também duras críticas ao modo como percebeu que seria a psicanálise assimilada pelo "american way", antevendo um possível reducionismo que seria aplicado a ela para sua aceitação naquele país. Infelizmente sabemos o quanto de análise correta houve em seus posicionamentos em relação a isso. Talvez o que Freud não tenha conseguido antever, foi que essa seria uma tendência a corromper seu legado pelos quatro cantos do mundo e no quanto essa tendência se tornaria complexa e emaranhada nas próprias instituições que promovem a transmissão da psicanálise. Alguns autores como Maud Mannoni ou Françoise Dolto, entre tantos outros, percebem nos agrupamentos de psicanalistas a própria base dessa tendência, por uma rigidez intrínseca que busca uma tentativa de aceitação e de prestígio profissional. Winnicott já antevia isso, segundo a própria Mannoni(2), tendo de certa forma construído seus apontamentos teóricos isolado do meio psicanalítico, onde de alguma maneira pôde manter sua potência criativa resguardada de um pensamento modelar.
Hoje no Brasil encontraremos as mais diversas misturas agregadas em torno do nome psicanálise. Em trabalho apresentado para a palestra de abertura da XIV Jornada do Círculo Psicanalítico da Bahia a psicanalista Cibele Prado Barbieri pontua uma importante reflexão para o corpo psicanalítico brasileiro.
"A situação atual nos coloca diante de uma difícil escolha: devemos lutar pela não regulamentação para assim defender a liberdade de ação dos psicanalistas e proteger o legado freudiano, ou criar um regulamento para preservar a psicanálise e as instituições psicanalíticas dos oportunistas, mesmo correndo o risco de promover um certo engessamento?"
Agora perguntam: "Ficar nervoso quer dizer que a pessoa está com demônios?" O que responderia um psicanalista forjado na mais pura convicção do desejo, do inconsciente, das pulsões e na certeza de que os homens são governados por forte e intensa ambivalência frente a seus objetos? Diria que não, diria que sim? Qual é a resposta psicanalítica para tal pergunta? Pensamos que será sim, um grande, enorme e sonoro sim. Sim, esse sujeito está tomado pelos ímpetos dos impulsos, "demoníacos" de suas pulsões frente ao recalques. Esse é o caminho da psicanálise e ela com certeza não pensará em exorcizar esses demônios, sequer em silenciá-los com a "água benta moderna" representada pelos psicofármacos ou condicionamentos, e sim dar-lhes voz para uma negociação mais intensa frente aos tais anjos celestiais e sem sexo. Dando fala ao desejo e à insatisfação frente às exigências absurdas que a organização social, muitas vezes, impõe ao desejo de existir, através das suas diversas formas de opressão. Nessa tal pós-modernidade, no fast-food das emoções, como responderemos a essa indagação? Como responde a ela a Psicanálise com suas diversas formas de atuar frente a esse sujeito psíquico amordaçado e enlouquecido?
Diria nosso velho "profeta da sociedade alternativa" Raul Seixas:
"Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador"(A)
Mais do que entender como está frente ao mercado hoje, o profissional psicanalista, precisa, urgente, sacudir a poeira da própria inserção dela, a psicanálise, na estrutura social. Fechada e mofando em consultórios a meia luz, se perde de sua maior capacidade: a de promover e levantar indagações. Mais do que um instrumento de adaptação e retirada do sofrimento(cura?) ela serve antes de tudo para desarrumar tudo aquilo que levaria ao sintoma. É nesse sentido que foi estruturada e não como uma técnica clínica ou somente um método sem ética. Algumas correntes dentro da psicanálise insistem nessa repetição: "não é ciência é um método", vão ainda mais além e a encaixotam em uma técnica de intervenção individual. Onde Freud escreveu isso? Em que texto ele limitou todo aquele emaranhado teórico a um método de uma única técnica? Estarão os próprios psicanalistas se flagelando através de um movimento tão conhecido dessa teoria, a pulsão de morte?Enquanto isso, passando lá embaixo das suas janelas fechadas, a multidão marcha como zumbis, desorientada e destituída de desejo, amortecida e lânguida, caminhando entre as drogas lícitas e as ilícitas, como em busca do nosso "Admirável Mundo Novo".
Voltamos com Raulzito:
"Feche seus olhos bem profundamente
Não queira acordar, procure dormir
Faça uma força, você não está velho demais
Pra voltar e sorrir"(B)
Desde 1900 em seu metapsicológico capítulo VII do livro, onde S. Freud nos presenteia com"A Interpretação dos Sonhos", muitas coisas aconteceram, grande parte motivada e impulsionada pelas descobertas freudianas. Se a psicanálise não mudou o mundo, colocou para sonhar o homem que muda esse mesmo mundo, afrouxando e renegociando seus recalques e repressões. Chega a ser um crime contra a humanidade deixá-la perecer como algo esquecido em um canto, guardada tão bem guardada, que acabaremos banindo sua primordial utilidade. Envelhecendo o que sempre será jovial. Apertando-lhe os movimentos em roupas justas e espartilhos que não combinam com sua liberdade essencial. Alguns movimentos hoje dentro das instituições psicanalíticas beiram às mais requintadas falácias, se perdem em espirais inexplicáveis e absolutamente distanciadas de tudo que com ela foi concebido nos termos de entendimento desse humano que nos habita em pulsões e vicissitudes. No Brasil e no restante do mundo, vai se contorcendo entre malabarismos sem ritmo e graça, tentando se adaptar ao meio, ou esquivando-se fugidia como algo intangível. Pensamos que entre um e outro movimento deva haver algo mais próximo às suas possibilidades intrínsecas e que também não a joguem em um reducionismo teórico absurdo.
"É no âmbito da comunidade analítica que o ideal de um analista encontra espaço para articular-se. Na situação clínica este ideal se situa na borda, como que fazendo parte do contorno do campo da escuta. O problema é quando entra no campo e o fecha, ou tende a ocupar seu lugar. Ou ainda, quando o ruído, que ainda não se converteu em palavras, é trocado pelo saber constituído: a singularidade é então substituída por uma ordem de relações preestabelecida. O sofrimento que grita é abafado por um "deve ser assim", que se impõe ao analista como um imperativo categórico."(link A)
Amordaçados por um infindável "como se" fecha-se esse analista "como se" ainda fosse possível ouvir esse sujeito psíquico antenado e ligado em rede, passivamente acomodado no divã, portas e ouvidos trancados para o mundo que ferve a partir de sua sala de espera, habitada por gente que fala ao celular ou troca e-mails do seu notebook antes de adentrar o mundo mágico da livre-associação. Ele mesmo, o psicanalista, há poucos metros desse mundo virtual, guardado com cuidado em cima de sua mesa de trabalho, já sem canetas-tinteiro ou mata-borrões. Ela, a psicanálise, ávida para entender desse novo mundo, ignorar as regras de educação e cientificidade e reinventar seu discurso e romper novas normas trazendo para esse sujeito, ele(a) o(a) analisando(a) e ele(a) o(a) psicanalista. Projetando-se e retraindo-se, dialeticamente propondo novas linhas de pensamento e ação. Ao invés disso, ganha o mundo enquanto palavra da psicanálise, aquilo que Freud chamou de psicanálise silvestre(ou selvagem), que dá explicações reducionistas e toscas para o irredutível desejo humano. Esse discurso age despudoradamente, dando a impressão ao mundo leigo que essa fala corresponde a psicanálise de Freud. Enquanto isso psicanalistas, bem formados e informados, recolhem-se em seus círculos como se nada disso tivesse importância. Será que não tem mesmo? Essa pergunta que teima em nos acompanhar no presente artigo, que é antes de tudo um monólogo em voz alta, como uma das mais simples sintomatologias do delírio que tenta quebrar o vínculo e estabelecer outro com a realidade que o circunda. Move esse discurso uma paixão desenfreada pelo "texto freudiano".
"Ao que não podemos chegar voando, temos de chegar manquejando"(Freud, S. Além do Princípio do Prazer, 1920)
Vemos se delinear em todo assim chamado campo psi uma tendência marcante no sentido de trazer fundamentos cada vez mais predominantes em enquadrar o psiquismo e suas alterações ao nível de um entendimento ligado ao funcionamento biológico, tentativa essa que pensamos não poderá jamais dar conta da subjetividade em toda sua extensão. Cabe sim o diálogo entre as diversas formas de entender o psiquismo, o que não se pode perder de vista, assim pensamos, é toda a contribuição que a psicanálise tem dado para entendê-lo por já mais de um século. Em nome de uma concepção positivista quanto a cientificidade, temos visto um repúdio a psicanálise que se torna incompreensível e injustificado.
Texto belo e importante publicado por Freud chamado de "O Futuro de Uma Ilusão" coloca a psicanálise mais uma vez no olho do furacão, causando segundo Peter Gay, "grande comoção" e deixou à época, entre seus discípulos, "alguns nervosos". Mais do que nunca volta a cena o embate entre religião e ciência, essa última uma aspiração legítima, desde sempre, da psicanálise. Hoje sabemos que não pela vertente das ciências biológicas ou amarrada às questões trazidas pelo Iluminismo que ainda atravessava o homem de sua época, Sigmund Freud.
Hoje as teses psicanalíticas ganharam o social, muitas vezes travestidas de pequenas considerações selvagens sobre a normatividade da sexualidade, outras como leitura alienante e burguesa das relações parentais. Sempre discutida, nem sempre apreciada, se perde em conseqüências não previstas a partir de seu crescimento e divulgação. Suas várias escolas a fracionam de acordo com aquilo que privilegiam em sua leitura, o texto freudiano vai se perdendo, infelizmente.
"Entretanto, algumas das coisas difíceis de serem abandonadas, por proporcionarem prazer, são, não ego, mas objeto, e certos sofrimentos que se procura extirpar mostram-se inseparáveis do ego, por causa de sua origem interna. Assim, acaba-se por aprender um processo através do qual, por meio de uma direção deliberada das próprias atividades sensórias e de uma ação muscular apropriada, se pode diferenciar entre o que é interno - ou seja, que pertence ao ego - e o que é externo - ou seja, que emana do mundo externo"(1c)
Se pensarmos na tese hoje proposta como a de um funcionamento borderline, indo mais adiante naquilo que o psicanalista Nahman Armony nomeia de "borderline normal", veremos como cada vez mais essas fronteiras se tornam objeto da nossa atenção e no quanto na verdade lançar luz sobre a questão fala também dos destinos da psicanálise. Hoje o mundo externo e suas instituições permeiam cada vez mais o olhar desse sujeito para suas relações de vínculo. Estamos em rede? Em um mundo que de forma permanente vigia e recompensa ou pune, ao que nos lança ao desejo, aquilo do indomável ao qual se refere a obra freudiana?
"Cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos, acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal do ego segundo os modelos mais variados. Cada indivíduo, portanto, partilha de numerosas mentes grupais - as de sua raça, classe, credo, nacionalidade etc. - podendo também elevar-se sobre elas, na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade".(1a)
Certo é que muitos de nós acreditamos que o "ser" psicanalista é antes de tudo alguém comprometido com teses libertárias, avesso a adequação, submetimento e opressão.
Mas fato é também, que muitos dos dispositivos institucionais que formam esses mesmos analistas, o convidam a comprometer-se com a paralisia e engessamento, satisfazendo muitas vezes pontos de fixação em sua própria história, legitimando pontos cegos que o levarão para uma prática de enclausuramento, que acabará desembocando em um caminho que se comprometerá também com os dispositivos sociais regressivos, conservadores.(trecho de artigo da autora publicado site RedePsi)
As reflexões que devemos e podemos fazer sobre esse lugar da psicanálise na atualidade, deve permear cada prática, seja essa institucional enquanto sua normatividade e vínculos instituintes, seja nas normas presentes e representadas pela prática de cada psicanalista em sua clínica. Fica o convite para essas inúmeras reflexões possíveis.
Bibliografia:
1 – FREUD, Sigmund - (a)"Psicologia das Massas e Análise do Ego"; (b)"Além do Princípio do Prazer"; (c) "Mal-Estar na Civilização";
2- MANNONI, Maud - "Da Paixão do Ser À Loucura de Saber"
3 – GAY, Peter - Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo
Links:
A - Efeitos na clínica dos ideais instituídos
http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs03/SilviaEfeitos.htm
B - http://www.agalma.com.br/agalma/ver_artigos.asp?ID=3
A "nética da psicanálise"
Por Denise Deschamps
Com o surgimento da rede mundial de computadores vimos o aparecimento de um novo ponto de debate para ser enfrentado pela psicanálise em seus aspectos de progresso e em seus aspectos de retrocesso. Surgem questões inexistentes antes e ao mesmo tempo um vasto campo de divulgação de reflexões sobre a postura psicanalítica frente ao mundo. Sem dúvida nenhuma, a internet surge como um novo “lugar” de divulgação, informação, atualização, troca de reflexões, campo de embate entre as psicanálises, disputa de mercado, distorções, deformações, exercício da ética etc. Torna-se urgente refletir sobre esse novo espaço surgido sobre a égide da contemporaneidade.
Poucos são os autores que já se debruçaram sobre a questão, quer seja em obra publicada, artigos ou textos divulgados na net. Há algo escrito pelo psicanalista Sérgio Telles que aborda a questão de publicações em psicanálise de uma maneira bem pertinente para nossa reflexão aqui nesse texto(D).
Os diferentes institutos com seus cursos de formação apresentam seus aspectos em relação a transmissão da psicanálise, muitos desses aspectos bastante importantes quando se evidenciam no uso da rede.
“A instituição é conclamada a ser conservadora, enquanto que a conduta psicanalítica, ao contrário, é convocada a ser libertadora, e mesmo, subversiva. O equilíbrio entre estas tendências opostas e as inevitáveis tensões que elas provocam, estão longe de estarem atualmente preservadas”. (René Major)
A partir dessa reflexão veremos como essa inserção pode ser compreendida ou ainda poderá ser abordada a questão, sob um olhar crítico e ainda comprometido por aquilo que constituiu, desde sempre, como a ética da psicanálise.
Um dos temas que surge como palco de acaloradas discussões no ciberespaço seria o que gira em torno da abordagem da psicanálise enquanto ciência ou em sua proposta como um método ou ainda uma ética. Vemos em sites, comunidades virtuais, textos net publicados, essa temática abordada, sobre as vertentes mais diversificadas, algumas delas bastante curiosas. Temos então um panorama bem abrangente de um fato que se alimenta em debates no mundo presencial representado por suas instituições de formação de psicanalistas e suas diferentes linhas de abordagem. Se, com toda certeza, essa questão não encontrará uma resolução nos debates virtuais, encontra nesse “lugar” um campo privilegiado de observação, poderíamos pensar quase que como uma radiografia de corpo brasileiro que compõe o saber e fazer da psicanálise. Muitos autores acreditam na existência de uma psicanálise bem brasileira, algo um tanto revelador dos nossos traços de miscigenação que compõem o perfil do ser brasileiro. Na rede isso se torna ainda mais evidenciado.
“A Internet representa para um país em desenvolvimento, como o Brasil, muito mais do que apenas um novo recurso tecnológico. Ela propicia uma possibilidade de reformulação do ensino e ajuda a minimizar as dificuldades e deficiências educacionais no país. Desta forma, com a diminuição virtual da distância geográfica, torna-se possível uma maior interação entre os profissionais mais habilitados, em geral concentrados nas regiões mais ricas do país, e aqueles que se situam nas regiões mais pobres em recursos humanos e tecnológicos”. (Giovanni Torello)C
Os psicanalistas de uma maneira geral ainda andam pela net meio que anônimos, dada a regra de neutralidade presente em sua formação, encontram no ciberespaço um risco de exposição que ainda questionam como possível. Outros mais desbravadores já fazem desse lugar um ponto de encontro e discussões bastante aprofundadas muitas das vezes. A grande maioria dos maiores institutos, andaram sofisticando bem mais seus sites e mantendo uma preocupação recente em atualizá-los com suas informações, artigos e divulgações de eventos. Sem dúvida experimentam já um bom retorno que a net/divulgação possibilita.
Pensamos e propomos aqui nesse artigo que seria necessário que a psicanálise enquanto um corpo mais coeso e coerente tomasse esse lugar sem tanta precaução, porque enquanto ela não faz isso outras práticas se associam ao seu nome de uma forma despudorada e insistente. A pergunta que fica será a se esse retrato da psicanálise que aparece na internet estaria de alguma maneira refletindo o que realmente se passa com ela na atualidade dentro do Brasil. Questão nada fácil de responder, uma vez que o “encontro” que ela, a internet, possibilita, não é reproduzível no presencial que apresenta vários eventos praticamente isolados por segmentos da psicanálise e dada nossa dimensão territorial, sequer abrangendo todo o país naquela determinada corrente.
Nos variados debates encontrados pela net, surge outra questão que fala do contrato de sigilo no que se refere ao paciente. Vejamos o que pontua o psicanalista Sergio Telles em artigo publicado em jornal on-line de psiquiatria sobre pulicações em revistas especializadas, bastante interessante as reflexões que traz nesse texto:
“É interessante essa tomada de posição dos editores de revistas médicas sobre privacidade e precisão científica, pois ela permite, de imediato, evidenciar algumas peculiaridades do campo psicanalítico. Se do ponto de vista científico, é necessário o maior rigor na descrição dos fatos clínicos, que não devem ser alterados sob risco de invalidá-los, de imediato vemos como isso é impossível no relato psicanalítico, onde a questão do sigilo profissional e da proteção da privacidade do paciente tem um alcance e uma dimensão que não existe na medicina. Uma coisa é a publicação dos dados de uma doença do fígado, outra é o relato analítico, que envolve a biografia, o comportamento atual, as relações sociais e pessoais do paciente”. (D)(grifo nosso)
Se não existe forma de se impor normas quanto a isso na net, devemos estar atentos para o debate aprofundado sobre os aspectos da ética que envolvem o sigilo, levando-se em consideração os aspectos traumáticos que podem ocasionar ao paciente ao se deparar com a leitura acidental de seu “caso clínico” com as respectivas considerações feitas pelo profissional que cuida dele, e ainda seguido com os “palpites” mais insólitos ou mesmo selvagens que costumamos ler por aí na rede. Pensamos que uma orientação ética só é construída a partir do dito, daquilo que vem para o manifesto para ser discutido. Supomos, então, que mais do que nunca, alguma orientação a esse respeito precisa ser considerada pelos supervisores e professores em atuação nesse momento.
Seguindo no texto do link D encontraremos um resumo do artigo de Glen
Gabbard cujo título é "Disguise or consent: problems and recommendations concerning the publication and presentation of clinical material”, que estará se referindo a publicação de casos clínicos em livros e revistas especializadas.
“Em 1991 o Comitê de Atividades Científicas da American Psychoanalytic de Ética na Revisão, voltou a abordar a questão, chegando a uma solução do tipo "ou/ou".
Dizia a resolução deste Comitê:
"Se o psicanalista usa material confidencial em apresentações clínicas ou em situações científicas e educacionais com colegas, o material deve estar o suficientemente disfarçado para impedir a identificação do paciente ou o consentimento informado do paciente deve ser anteriormente obtido.
Se este for o caso, o psicanalista deveria discutir com o paciente os propósitos de tais apresentações, os possíveis riscos e benefícios para seu tratamento do paciente e seu direito de negar a permissão para tanto”.
Segue Gabbard em outro trecho dizendo:
“Há os que dizem que o disfarce sem consentimento é inaceitável. As editoras e jornais psicanalíticos encaram o problema sob diferentes enfoques. Alguns editores de livros de psicanálise estão agora pedindo ao autor que obtenha consentimento escrito dos pacientes descritos no livro. O Journal of the American Psychoanalytic Association e o International Journal of Psychoanalysis pedem a seus resenhadores para identificar potenciais problemas de quebra de sigilo profissional (confidencialidade) nos trabalhos que estão sendo avaliados, mas ambos deixam a critério do autor a forma de resolver o problema, quando ele existe ”.
Desconhecemos quais sejam as recomendações feitas por editores aqui no Brasil, acreditamos que sigam na mesma direção das propostas internacionais. Pensamos que a questão que a internet traz, sobre esse aspecto, é gigantesca. Psicanalistas ainda em formação ou outros profissionais que dizem basear sua leitura na psicanálise, apresentam ou por insegurança ou por extrema forma de exposição narcísica, fragmentos de relatos onde obviamente a questão do consentimento sequer foi pensada. Temos a convicção que essa é uma questão mais do que urgente, a ser tratada por abordagens nos vários institutos de formação e pelas faculdades que formam profissionais do campo psi.
Um aspecto avaliado ainda por Gabbard que pensamos que mereça ser citado diz respeito ao que pontua no trecho:
“Um terceiro e mais sombrio nível neste provocante situação diz respeito às motivações do analista. Uma agressão não bem resolvida dirigida contra o paciente pode ser um significante fator inconsciente nas motivações do analista que escreve. Muitos de nós escrevemos num esforço de controlar complexas e difíceis situações contra-transferenciais no nosso trabalho clínico. Consequências adversas da publicação do material clínico pode em alguns casos refletir nossa própria hostilidade não analisada em relação ao paciente que escolhemos usar como exemplo clínico”.
São questões como essas, próprias ao trajeto psicanalítico, que ganham dimensões no atual momento, antes impensáveis. Proliferam no Brasil blogs, sites, participação em comunidades virtuais etc cujo teor se pretende uma publicação em psicanálise e assim se identificam para o público leigo. Se atravessarmos esses indicadores com a análise do crescente descrédito ao qual a psicanálise vem sendo submetida por todo mundo, veremos que essa não é uma questão de menor importância.
O Brasil se apresenta como um fenômeno na utilização das páginas da web. “Uma pesquisa recente do Datafolha contabilizou que 47% dos brasileiros já têm acesso à internet”.(F) Não pensamos que esse possa ser um dado desconsiderado ao pensarmos a questão proposta nesse texto.Outro dado que nos remeterá para a importância desses questionamentos é o de que: “Somos o país no qual os usuários passam mais tempo conectados por mês. São mais de 22 horas mensais, ante 20 horas da França e 17,5 na Alemanha”. (F)
Na pesquisa feita pelo Ibope que aponta para esses dados Marcelo Coutinho, diretor de análise de mercado do Ibope Inteligência, fala para entrevista dada e publicada on-line no Carta Capital, questionando esses dados, mas também nos remetendo à uma importante reflexão:
Conceito de internauta e a possibilidade de 50% dos brasileiros estarem na rede
O que é internauta? é alguém que usa a internet uma vez a cada três meses (definição de todas as pesquisas de quantidade de usuários), uma vez na vida ou usa todo dia? Apenas 18% dos brasileiros, pela pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no fim de 2007, utilizam a internet diariamente (entre a população de maiores de 10 anos de idade).
Temos que fazer uma série de discussões para chegarmos aos tais 50% dos brasileiros usando a internet, mas já chegou a hora de pararmos de pensar a internet como um fenômeno simplesmente numérico, e começarmos a olhá-la como um fenômeno qualitativo e comportamental. (grifo nosso)(G)
Esses dados, olhados sob qualquer prisma, sendo questionados ou não, nos apontam para um fenômeno que tem sido estudado por pesquisadores de muitas áreas, a psicanálise mais uma vez terá que construir pensamento a respeito desse tema contemporâneo e mais do que isso, pensar sua inserção nesse novo modo ou lugar onde se dá também sua participação.
Consideraçãos finais:
Ao longo da existência dessa coluna, que obviamente faz parte do fenômeno abordado aqui, tenho eu que a escrevo, tentado falar da psicanálise que se pode ler dentro de uma determinada perspectiva, que sei estar bem longe de representar, minimamente, a totalidade do que é falado em seu nome e ao mesmo tempo tentei lançar esse “pensar” dentro de uma realidade atual. Participar na internet não é algo que possa ser encarado de maneira fácil, em outro artigo meu publicado aqui nesse site(E), fiz considerações sobre o aspecto democrático existente na rede e quanto a inexistência ou pelo menos enfraquecimento dos indicadores de uma relação vertical que aconteceria em uma outra forma de expor conceitos em textos. Claro que essa verticalidade é de alguma forma mantida quando o autor já possui um reconhecimento sólido no mundo presencial e pelos institutos que o compõem no que diz respeito a psicanálise, ao procurar um texto na net, não poderemos nunca desconsiderar esse indicador.
Penso então que embora a internet traga aspectos bem preocupantes principalmente no quesito ética, por outro lado promove um intercâmbio que poderá ser bastante fecundo. Li certa vez em uma comunidade do site de relacionamentos Orkut, uma pergunta que remeteria a se Freud teria ou não um perfil de Orkut ou se participaria da internet de alguma maneira. Eu particularmente penso que ele seria um dos primeiros a aderir a isso, dada a sua característica de desbravador, acho que um traço de sua intrigante personalidade que dificilmente será questionado, basta abrir sua obra que nos deparamos com seu espírito curioso e sua disposição jovem, mantida até sua morte. Isso sem considerar a vasta correspondência que produziu ao longo da vida. Seriam hoje os e-mails?
Trago essas reflexões desde que comecei a participar dos fenômenos virtuais em 2005. Considero um campo magnífico de investigação e interesse. Cada passo novo que me aventuro nele, vislumbro outros inúmeros temas a serem encarados e lidos com a contribuição da psicanálise.
Algumas correntes da psicanálise tomam hoje a net muito mais marcadamente, postando suas “verdades” e achados. Não conheço pesquisa a respeito, mas pela observação direta diria que é forte a presença das escolas lacanianas. Caso isso se mostre um dado confiável, penso que seria interessante avaliar porque dessa presença mais representativa e atravessar esse dado com os principais constructos teóricos que essa escola formula.
Outro tema que poderá entrar para debate necessariamente versa sobre a situação atual da psicanálise no Brasil com o surgimento de institutos de formação pra lá de duvidosos, que agregam coisas impensáveis a sua prática, eles mais do que outros proliferam como bactérias pelo mundo net. Acho que isso merece um olhar também sob o prisma da net, sabemos que no mundo presencial isso já tem sido feito pela reunião de institutos idôneos. Deixo para nossa reflexão algo dito pela psicanalista Cibele Prado Barbieri :
“A situação atual nos coloca diante de uma difícil escolha: devemos lutar pela não regulamentação para assim defender a liberdade de ação dos psicanalistas e proteger o legado freudiano, ou criar um regulamento para preservar a psicanálise e as instituições psicanalíticas dos oportunistas, mesmo correndo o risco de promover um certo engessamento?”. (H)
O convite que quero construir a partir dessas minhas considerações aponta no sentido de que pensemos em uma ética para navegarmos nesse ciberespaço. Algo que por ironia chamarei de “interpsinauta”. Proposta sem dúvida nenhuma bem pretensiosa, mas necessário que seja dita e dita novamente, espero que por outros interessados no tema e pesquisadores capacitados.
“Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro.”
Gilles Deleuze
Links contendo artigos que versam sobre o tema:
A - http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/convocao.htm
B - http://www.polbr.med.br/arquivo/marcio.htm
C - http://www.polbr.med.br/arquivo/mlitalia.htm
D -http://www.polbr.med.br/arquivo/psi0301.htm
E http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=794
F - http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=1743
G - http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=1781
H - http://www.agalma.com.br/agalma/ver_artigos.asp?ID=3
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