
artigos tecnicosUma nota sobre a neutralidade, o superego e a identificação projetiva em psicanálisePor Ale Esclapes A articulação de alguns conceitos em psicanálise algumas vezes faz com que o trabalho do psicanalista se aproxime muitas vezes da arte. Gostaria nesse artigo de discutir a articulação de três conceitos que nos levam a beira da arte em algumas situações analíticas. Para tanto vou apresentar separadamente os conceitos (na ordem cronológica em que esses apareceram na teoria psicanalítica) e depois passar a discussão de suas articulações. O primeiro desses conceitos é o de neutralidade. Em seus clássicos artigos sobre técnica psicanalítica Freud coloca que um dos fundamentos da pratica psicanalítica é a neutralidade do analista, e a imagem do cirurgião é aqui evocada para ilustrar esse princípio. O conceito de superego surge com a publicação de “O Ego e o Id”, apesar de seus genes desse conceitos poderem ser encontrados desde as publicações pré-psicanalíticas, mas somente nessa publicação pode-se verificar a articulação desse conceito com a culpa, o complexo de Édipo e algumas formas de masoquismo. Mais tarde Melanie Klein vai articular o conceito de superego arcaico, com aspectos muito mais persecutórios que o superego descrito por Freud. Grosso modo o superego arcaico estaria ligado a aspectos mais primitivos do desenvolvimento emocional, ainda dentro de uma relação dual, e o superego como herdeiro do complexo de Édipo descrito por Freud pressupõe a aquisição de um sentimento de gratidão e amor por parte da criança. Particularmente acho perda de tempo uma discussão que proponha dizer se o superego começa aos seis meses ou aos quatro ou cinco anos de idade, pois, apesar do nome, trata-se de fenômenos diferentes. A identificação projetiva por sua vez, descrita por Melanie Klein em 1946 em seu artigo “Notas sobre o fenômeno esquizóide” alia dois conceitos em um único fenômeno: a projeção e a identificação. Nesse sentido um pedaço do aparelho psíquico é projetado para dentro do objeto. O que nos interessa aqui é apenas dizer que um desses pedaços pode ser o superego, quer seja arcaico ou edípico para dentro do analista. Vários autores já articularam esses conceitos, e gostaria apenas de fazer uma revisão dessas articulações. Strachey em seu artigo de 1934 “The Nature of the Therapeutic Action of Psycho-analysis” nos propõe que dada a neutralidade do analista, o superego arcaico que é projetado para o analista não consegue ser reintrojetado, e aos poucos essas imagos vão migrando da fantasia persecutória para a realidade. Winnicott propõe algo parecido no seu conceito de mãe sufucientemente boa. Bion vai tratar desse assunto com o conceito de continente-conteúdo. Não quero de forma alguma equivaler esses conceitos, apenas destacar que já os conceitos de neutralidade, superego e identifação projetiva já foi anteriormente trabalhado, não se chegando a uma conclusão muito diferente de Strachey. Em síntese, através da neutralidade do analista, que não responde como um superego arcaico, vai trazendo o paciente para a realidade. Aqui jaz um problema: o superego não é uma doença, não é um sintoma, é uma instância estruturadora da personalidade humana. Geralmente em um processo analítico o paciente vai projetar essa instancia no analista, esse vai ser convidado a executar uma função superegoica, e nosso superego psicanalítico vai nos impor que não podemos exercer essa função, e daí, como proceder? A pratica clássica tem a resposta: interprete! Concordo que assim se deve proceder, mas também as coisas não são tão simples, pois quando se trata do superego arcaico, é preciso que se tenha em mente, que esse visa que se estabeleça minimamente a diferença entre o eu o outro – daí e sua função estruturante. E isso é feito desde da primeira sessão, quando se estabelece o contrato analítico. Resumindo: o analista pode tentar ser neutro quando se trata do superego edípico, mas quando se trata do arcaico, a situação analítica fica mais complexa, e é preciso que se tenha em mente isso, e saber que toda vez que se impõe a diferença entre o eu e o outro – isso mesmo, se impõe – esta se executando uma função que pode servir de continente a um superego arcaico.
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