| |
Artigos Tecnicos
Entre neurose e psicose: algumas considerações sobre os casos fronteiriços na clínica psicanalítica
Por Vitória Mamede Maia
Artigo publicado na Revista Brasileira de Psicanálise volume 38, número 3, 2004. pp 541-556
A clínica contemporânea: a lógica da complexidade e do paradoxo
O cenário analítico, palco privilegiado para as encenações dos mais variados dramas humanos, sofreu muitas transformações desde as primeiras aventuras psicanalíticas. O texto, os personagens e as alegorias colocadas em cena não deixaram dúvidas de que o espetáculo, ao abrir das cortinas, jamais poderia parar, cristalizar-se nas falas ou em uma cenografia que se mantivesse inviolável. Isto porque o autor do texto original teria ido buscar sua inspiração não apenas nos conhecidos escritos da Razão. Seu talento e sua criatividade levaram-no para os confins de uma terra até então desconhecida, tal qual o navegador destemido em busca de riquezas sonhadas, ou o astrônomo curioso e determinado a descobrir os segredos do cosmo. Mito, tragédia ou, simplesmente, contos de fada? Provavelmente todos eles. (Maia & Garcia, 2003)
No universo inaugural da sua ciência, Freud buscou uma racionalidade que criasse um discurso teórico compatível com o campo fenomenológico que se lhe apresentava: o da neurose. A metapsicologia freudiana deu e continua dando conta do recado...mas, até certo ponto. Hoje, o perfil da clínica mudou. Atualmente, o psicanalista se depara com problemas mais da ordem do onto do que do psicológico. Encontramos indivíduos que ainda não se constituíram como “seres em marcha” - segundo a expressão de Winnicott; indivíduos que andam em busca de um self pessoal: “Buscam existir para que possam, quem sabe, um dia, vir a ter algum desejo” (Safra, 1999:14). Segundo Green (1977), “o protótipo mítico do paciente de nosso tempo já não é mais Édipo e sim Hamlet”. (Maia & Garcia, 2003)
Laplanche e Pontalis (1973), assim definem fronteiriço: “Termo com a maior freqüência usado para designar perturbações psicopatológicas que jazem na fronteira entre a neurose e a psicose, particularmente as esquizofrenias latentes que apresentam uma série aparentemente neurótica de sintomas”. Tal definição inclui personalidades psicóticas, pervertidas e delinqüentes.
-
Esta descrição do termo, ao utilizar o entre, instaura o paradoxo: não se trata de psicose, mas também não se trata de neurose, e tampouco de um amálgama entre as duas organizações psíquicas. Estaríamos no campo dos inclassificáveis ou os casos clínicos designados de fronteiriços pareceriam demandar uma nova lógica para serem pensados: uma lógica da complexidade (Morin, 1990)? Ao falar em simultaneidade, Morin recoloca a questão do paradoxo e confronta a lógica linear presente na concepção dualista e determinista do conhecimento científico moderno: “A razão complexa já não concebe em oposição absoluta, mas em oposição relativa, isto é, também em complementaridade, em comunicação, em trocas, os termos até ali antinômicos: inteligência e afetividade; razão e desrazão” (p. 130). Ou então, neste caso, neurose e psicose.
-
A questão epistemológica pode ser ilustrada através desta citação de Green (1988):
-
A busca de Freud por uma resposta ao problema da psicose levou-o à dinâmica do pensamento fronteiriço, descrita em seu artigo ‘A negação’ (1925). Em minha opinião, o par de opostos de Freud - sim ou não - coexiste com a estrutura mental nem sim-nem-não, que, com respeito à realidade, acha expressão no sentimento de que o objeto é e não é real, ou o objeto não é nem real nem irreal (fantasiado) (p. 71).
-
Segundo Green (1988), Winnicott seria o analista do fronteiriço:
-
Muito pouca atenção foi dada aos tardios conceitos de Winnicott sobre a não-comunicação, vazio e vacuidade. Sua teoria do hiato e a impossibilidade de, a partir dele, criar uma outra forma de reunião com o objeto na edificação do espaço potencial abre novos horizontes de compreensão, induzindo o analista a novos modos de observar suas próprias reações como um instrumento de abrangência dos paradoxos de sistemas fronteiriços de pensamento. No que chama de ‘o lado negativo dos relacionamentos’, Winnicott (1971), fornece úteis chaves para a compreensão de aspectos clínicos do indivíduo fronteiriço, em quem predominam uma sensação de perda e um sentimento de nulidade (p.p. 74-75).
-
De fato, para aquele que não foi bem sucedido na constituição de um self pessoal, criativo, integrado psicossomaticamente, parece restar apenas um sentimento de falta de sentido na vida, ou uma queixa vaga, nebulosa, de um viver fútil, de morte em vida. Winnicott criou o conceito de falso self para descrever este indivíduo. Para a sensação de perda, perda que o indivíduo computa ao meio ambiente, Winnicott cunha o termo tendência anti – social. Acredito ser interessante agora delinearmos como Winnicott descreve esses quadros.
-
“É sempre bom lembrar que um copo vazio esta cheio de ar”: o falso self e a tendência anti-social como o ar do copo vazio da contemporaneidade
-
Acredito que o pensamento de Pedroso (1997) sirva para aprofundarmos a reflexão iniciada sobre a questão do falso-self e da tendência anti-social como patologias da atualidade ou daquilo que se acostumou chamar de quadro psicossocial pós-moderno.
-
A clientela psicanalítica é constituída, em grande parte,hoje, pelo que chamamos de estados limites, boderline e/ou personalidades narcísicas (Kohut). De que sofrem nossos pacientes? Eles sofrem de falta de limites, faltam-lhes contornos precisos. Através dos sintomas, eles nos falam de uma indiscriminação entre dor psíquica e dor corporal, entre realidade e ideal, entre o que depende de sim mesmos e o que depende dos outros...Em outras palavras, esses pacientes sofrem pela falta de limites do self. Self aqui entendido como a totalidade da pessoa que experimenta uma continuidade de ser , a partir do potencial herdado, com tendência a se desenvolver num ritmo e forma próprios, com um esquema corporal e a pele como membrana limitador (p77/78)
Desta forma é necessário que pensemos com qual clientela lidamos na atualidade para reavaliarmos ou até gerarmos novos pressupostos de trabalho e atendimento.
Para Bergeret (1998), a organização limítrofe seria uma doença do narcisismo, na qual a relação do objeto permaneceu centrada na dependência anaclítica do outro, em que esses sujeitos lutam acima de tudo contra a depressão. Os casos limites adviriam de um trauma desorganizador precoce, através do qual a criança entra de uma só vez, brutal e massiva e precocemente demais em uma situação edipiana para a qual não estava absolutamente preparada. Este trauma desorganizador, segundo o autor, pode ser substituído por micro traumas repetidos e próximos, cuja soma de efeitos praticamente corresponde a um trauma único mais importante.
Acredito que os micro-traumas que se repetem sejam uma realidade que se constrói hoje em dia com muita facilidade. Se utilizarmos a teoria dos círculos sociais proposta por Davis e Wallbridge (In: Mello, 2001) para uma interpretação dos conceitos de limite e espaço na obra de Winnicott, podemos ver que tanto a família, quanto a escola, quanto a sociedade, limite último para o qual apelam as estruturas fragilizadas em suas relações primárias, não têm constituição fixa na contemporaneidade. Há o que esses autores denominaram de limites rompidos, “isto é, o limite frouxo ou mesmo ausente”, seja na família (ou o pai não ajuda a mãe a dar seus limites ou ele mesmo não funciona como ambiente indestrutível), seja nas demais estruturas. A falta de limite faz com que a criança não se constitua enquanto sujeito total, tornando comum a existência de patologias, denominadas por Winnicott de falso-self e de tendência anti-social, nos consultórios de atendimento psicoterápico.
Outro aspecto que corrobora para que estes quadros se multipliquem na sociedade atual é a questão do sentimento de vazio que esta sociedade pós-moderna constrói para o sujeito. Da Poian (2001) enfatiza que “a questão do vazio se entrelaça à questão do mundo atual e aparece como fundamental para pensar a psicanálise e sua clínica hoje” (p.11/12). Partindo dessa premissa, Da Poian (2001) nos fala da nostalgia que o sujeito de hoje guarda em si mesmo, “uma nostalgia quase melancólica das marcas de um absoluto que não há mais e de garantias de verdade que se perderam.”Assim, nosso mundo é um mundo desencatando no qual as
noções de paternidade e de maternidade encontram-se em crise, ocasionando um mal-estar social, psíquico e biológico provocado pela falta de contornos e de limites, o que ocasiona a força da violência pulsional. O estoque identificatório de que o sujeito atual dispõe é quase nenhum. Sociedade em que o indivíduo e sua autonomia valem mais do que a comunidade que o abriga e o patrimônio cultural herdado. Na falta de identificações, tentam arrumar uma identidade que lhes permita viver os instantes, identidades adotadas sem firmeza alguma, pois o mundo de hoje exige volatilidade ,mudanças, trocas, descartabilidade. (Da Poian, 2001, p.12)
Há, hoje, uma “desumanização do sujeito”, “há uma desagregação do funcionamento mental, uma falha no processo de psiquização”, em que “o Eu se fragiliza em um desligamento contínuo do sentimento de existir, produzido por uma oferta inalcançável”. “Vivemos, portanto, em uma sociedade falha que não se apresenta como suporte vital, sociedade que poupa o sistema e culpa o indivíduo por não ter a competência necessária, fazendo-o sentir-se cada vez mais, o único responsável por seus sofrimentos e por seus fracassos.” (Paul Israel,1997, In: Da Poian, 2001, p.p.14-15)
Desta forma, conforme Luis Cláudio Figueiredo (1999, In: Da Poian, 2001), o sujeito de hoje é mais estruturado em dissociações mais do que em recalques, constituindo uma multiplicidade de Eus. Estas dissociações advêm de relações que o sujeito estabelece com suas raízes e com seu entorno de forma cada vez mais apagada pela presença de práticas descarregadas de significações. “No meio disso sobra um Eu retraído em um narcisismo fechado e defensivo ou um Eu inflado em um narcisismo com muita liberdade mas com pouca segurança, no qual o Eu ideal tenta iludir-se em sua suposta onipotência.” (p.23)
Interessante cruzar estes dois olhares, o de Bergeret (1999) e o de Da Poian (2001) com o de Green (1988) em seu texto “Paixões e destinos das paixões”, no qual ele postula, a partir da questão da relação mãe-bebê winnicottiana, a hipótese da psicose. Nesta teoria, para o autor, haveria uma loucura original, que seria a sensibilidade materna aos sinais mais imperceptíveis do bebê, percebida como uma alucinação aos olhos daqueles que observassem esta díade; e haveria também uma loucura original não como amor por parte da mãe , em que haveria uma atividade instintual intensa não contida, nem de forma direta ou na forma disfarçada de ansiedade ou nas defesas contra a criança, não podendo esta mãe assumir a contenção ou o papel de espelho do ego auxiliar para seu bebê.
Desta forma, poder-se-ia ter um caso de resolução favorável e um caso de resolução menos favorável, que daria origem aos quadros fronteiriços e à psicose em si mesma. Nos quadros fronteiriços, além da luta contra a extinção instintual interna, o bebê tem de lutar contra a excitação institntual externa, em parte do objeto primordial representado pela mãe.
Tentemos entender como o falso-self e a tendência anti-social podem estar dentro dessa problemática da constituição do sujeito na contemporaneidade. Júlio de Melo (2001) coloca de forma sucinta o que seriam verdadeiro e falso-self para Winnicott:
Winnicott relacionou o que chamou de verdadeiro self – fonte da vida e da criatividade – ao corpo e ao funcionamento corporal, bem como a possibilidade de uma mãe suficientemente boa deixar fluir a espontaneidade do recém nascido. Já o falso self se formaria devido a ação de uma mãe não suficientemente boa, que imporia seus gestos e desejos às necessidades do bebê, só lhe deixando o caminho de se submeter a si própria, renunciando aquilo que é autêntico e original. Nesta seqüência, o infante se torna apto na arte de imitar e, posteriormente, de enganar, acrescento eu. Ele disse, que sem um aspecto falso-self não conquistaríamos um lugar na sociedade que decorre da atitude social polida e amável comum. Descreveu cinco gradações de falso-self que vai desta atitude até aquele indivíduo cujo falso-self é tão hipertrofiado que se confunde com a pessoa verdadeira.(p.73)
-
Assim, o falso self, segundo Winnicott (1960, 1986), representa uma resposta do bebê às falhas do meio ambiente, incapaz de atender às necessidades primordiais. Uma delas seria um senso de continuidade de ser - ligado ao sentimento de bem-estar pela não perturbação pulsional - proporcionado pela atuação da mãe suficientemente boa (capaz de identificar-se empaticamente com o seu bebê, através do estado de preocupação materna primária). A idéia de um senso de continuidade de ser remete ao tempo, sentido inicialmente com um ritmo:
-
É, inicialmente, no ritmo, que o recém nascido tem a possibilidade de existir de maneira singular, caso a mãe-meio ambiente possa adequar o seu cuidado ao interjogo de tensões característicos do bebê. A organização da dupla mãe-bebê segundo este ritmo constitui um primeiro núcleo ao redor do qual se integram elementos sensoriais, tais como: sensações táteis, sonoras, gustativas, entre outras, que irão compor o self do bebê. Este núcleo sustentado pela mãe ao longo de um período dá ao bebê duração em qualidades, levando-o a eventualmente constituir o que poderíamos denominar tempo subjetivo...É um tempo que, por ter surgido a partir do ritmo singular da criança, faz parte de e é o seu self. Ele é fruto da continuidade de ser do indivíduo e o retira do vácuo da eternidade e do não ser. (Safra, 1999; 57).
-
O cuidado materno primário suficientemente bom também seria capaz de fornecer ao bebê o sentimento de onipotência inicial, condição para que ele possa experimentar o que Winnicott denominou de criatividade primária. Portanto, em condições favoráveis, o bebê cria o mundo, ao mesmo tempo que cria a si mesmo, possibilitando iniciar o processo de personalização.
-
A ênfase de Winnicott no “meio ambiente facilitador”, no estado que ele descreveu de “preocupação materna primária” e na função de “holding” (segurar) realizada pelo ambiente, acarretou um deslocamento desde o objeto interno total para o papel do objeto externo. Na realidade, Winnicott interessou-se mais em descrever o que seria o espaço intermediário, potencial, integrador do interno e do externo.
-
Winnicott coloca a formação do falso self no período de desenvolvimento que corresponde ao estágio de dependência absoluta. Aí, o bebê só pode ser pensado a partir de uma única realidade: a da dupla mãe-bebê. Nascemos e crescemos dependendo do olhar de um outro, de ressonâncias. Esta trama de olhares, este entrelaçamento de subjetividades, nos acompanhará desde o nascimento até à morte. O falso self, nesta compreensão, representa uma falha grave na sustentação e proteção ao bebê, neste entrelaçamento inicial. Este, quando forçado a ocupar o lugar da função materna, distancia-se da expressão e do contato com o verdadeiro self - fonte dos impulsos pessoais espontâneos -, em vias de constituir-se.
-
Esta organização defensiva - porque é disto que se trata -, teria como função principal evitar o aniquilamento do verdadeiro self (protegendo o indivíduo de angústias impensáveis: angústia de aniquilamento, de despedaçamento, de despersonalização). Podemos observar, então, que nos momentos iniciais da constituição do self está presente a ação de um outro, ainda não reconhecido em sua alteridade, que deve exercer cuidados e funções determinantes em direção à saúde e à integração ou, caso isto não aconteça, instaurando a dissociação (verdadeiro/falso-self). Caso sobreviva (fisicamente) à falta de provisão ambiental, o ser humano carregará em seu mais íntimo recanto uma parte do seu self em estado de animação suspensa ou de hibernação. Daí, o sentimento de futilidade, de falta de sentido para a vida, freqüentemente relatado por estes indivíduos também chamados de fronteiriços.
Júlio de Melo (2001) enfatiza que “salta aos olhos como a fenomenologia falso-self abunda em nossos consultórios, em nossa vida cultural e nas classes favorecidas com quem convivemos direta ou indiretamente” (p.77) Continua: “Num mundo em que as pessoas são cada vez menos elas mesmas, fingem e se mascaram, mentem e falseiam os fatos, há uma convivência cada vez maior do falso-self de cada um com sua caracteropatia em particular.” (p.80) Portanto,Júlio de Melo (2001) também vê na sociedade de hoje talvez um dos motivos deste aparecimento aumentado de estruturas boderline, assim como os autores anteriormente citados.
Neste mesmo artigo, “Vivendo num país de falsos-selves”, há a articulação da estrutura falso-self com a tendência anti-social a partir da questão da carência, inicialmente materna em corresponder aos desejos e necessidades do bebê, mas também ambiental no sentido em que a sociedade constrói a carência ou a sustenta. Desta forma haveria uma tendência de se valorizar, na estrutura social, o falso-self patológico, por ele estar relacionado a profissões de destaque; e há também um aumento da agressividade e do roubo nesta mesma sociedade pela questão da falta de provisão ambiental, gerando a cultura da mentira crônica, da esperteza e da violência como resposta ou atuação na sociedade, já que o sujeito burla a lei e não é marginal, lesa o outro e não é ladrão. E assim
certas situações psicológicas (carência, estruturas sociológicas familiares, perdas múltiplas) poderão levar o indivíduo, a atitudes sociopáticas que poderão, finalmente, se cristalizar num comportamento anti-social permanente. Winnicott descreve estas pessoas como tendo ultrapassado os períodos iniciais do desenvolvimento, ao contrário dos psicóticos, atingindo um certo grau de integração, o que lhes possibilite ter algum grau de autonomia, necessária a manutenção do comportamento sociopático.. (Julio de Mello, 2001p.86)
Falta a estes sujeitos, segundo Pedroso (1997), uma carência do sentimento de ser.
Portanto, a tendência anti-social e a estrutura falso-self seriam decorrentes de traumas não somente advindos da relação mãe-bebê, mas também e talvez mais acentuadamente, de uma questão de cunho social, já que tanto a família quanto as estruturas mantenedoras da família estariam em uma situação de dissociação, e estas patologias seriam respostas a esta sociedade também dissociada.
Rassial (1999) aborda a questão do sujeito em estado limite também a partir da questão da carência, de igual forma que Green (1988) e os demais autores citados, até porque este autor tenta dar a Green uma resposta, à luz da teoria lacaniana, sobre os estados limites. No livro Le sujet en ètat limite, Rassial (1999) marca que estado limite seria uma psicopatologia do sujeito moderno, no qual os estados limites são também pensados como estados da sociedade e das condições de socialização afetada por um declínio do nome do pai, que fundamentam a identidade do sujeito dentro da sociedade. O estado limite é uma resposta adequada a uma incerteza de referências que caracteriza a malha social contemporânea. O sujeito em estado limite é o sujeito pós-moderno, ou a caricatura do sujeito moderno, confrontado não somente ao mal da civilização que faz parte, mas a um defeito de valores, e também a um estágio da ciência que ainda é-lhe associado e marca o fim do sujeito cartesiano.
Devemos aqui refletir sobre outro aspecto social que também, acredito, colabora para o aumento das patologias fronteiriças, que seria a questão não somente da carência material em que o povo brasileiro vive, e talvez o povo da maior parte do planeta, mas também da carência de sustentação psíquica ou de holding que a parte mais abonada da sociedade também vive. Não é somente ou principalmente na classe desfavorecida que existe agressividade, delinqüência ou falsos-selves.
Apesar de Julio de Mello (2001) retratar sua experiência com comunidades carentes de tudo, como ele coloca, que “preocupadas com a sobrevivência, esqueceram-se de brincar;ou quando brincavam eram brincadeiras extremamente agressivas e destrutivas” (p.136), acredito que as classes denominadas abastadas também sofrem de carências múltiplas, mesmo que essas carências talvez não passem pela falta de alimentação ou cuidados físicos (handling) , mas que com toda a certeza passa pelo abandono e carência afetivos (holding). Surge assim o fenômeno dos rebeldes sem causa, das gangues ou da solidão num “castelo de ouro” e, para esta solidão e para esta falta de sustentação psíquica, as drogas, os programas radicais e a solidão do mundo virtual, em que se está acompanhado mesmo sem estar de fato com alguém, acabam sendo a tônica que monta o cenário dentro do setting terapêutico atual. Rassial (1999) aponta esta questão ao estruturar três dialéticas para o sujeito em estado limite: a toxicomania, a psicopatia e o abandono, dialéticas essas que não se excluem, mas se articulam, formando a malha que sustenta ou suporta o sujeito em estado limite.
O mundo contemporâneo trouxe vantagens tecnológicas incomensuráveis para o ser humano. Em tempo de digitalização e de tempo virtual, o tempo real, cronológico e o ser concreto, de carne e osso, acabam quase que nem fazendo sentido por inúmeras vezes. O que existe na rede são pessoas que acabam podendo ser e fazer o que quiserem expulsando-se de si mesmo. Pierre Lèvy (1995, In: Outeiral, 2001) afirma que “a força e a velocidade da virtualização contemporânea são tão grandes que exilam as pessoas dos seus próprios saberes, expulsam-nas de sua identidade” (p.70). Outeiral (2001) continua este tema dizendo que
a tela do computador não é um espelho, muito menos um espelho vivo como é o olhar da mãe, como acentuou Donald Winnicott. O sujeito só se torna personagem verdadeiro quando há uma possibilidade de separação entre a cena que transcorre no palco e a platéia, entre o sujeito e o objeto, entre eu e o outro. J. Baudrillard (1997) comenta que tudo porem, concorre ,na atualidade, para a abolição deste corte : a imersão do espectador torna-se convival, interativa. Apogeu ou fim do espectador. Quando todos se convertem em atores não há mais ação, fim da representação. Morte do espectador. Fim da ilusão estética. (p.74)
Refletindo sobre o que levantamos em relação à questão dos casos limites, principalmente sobre a questão do falso-sef e da tendência anti-social na contemporaneidade, vê-se que todos esses autores acabam por relacionar o sujeito de hoje como um resultado não somente de algo que passa por um fracasso de relacionamento primário, por uma questão de carência, seja ela psíquica ou econômica, como nos coloca Júlio de Mello (2001), mas, principalmente ou conjuntamente, com um fracasso do sistema social ou talvez, em certas classes sociais, não somente de uma carência de comida, handling, mas principalmente de holding, de presença materna e paterna, sendo que essas figuras estão sendo substituídas por um espaço virtual, por amigos virtuais e sexualidade virtual. Quando o limite deixa de ser real e contenedor para ser virtual e permissivo, acredito que estejamos diante de outra subjetividade, de outro sujeito, que pede de nossa clínica e de nossa terapêutica outra postura e realidade. Ao dar por acabada a ilusão estética, como postula Baudrillard, tem-se como conseqüência o não desenvolvimento emocional do sujeito, já que esta ilusão é a pré-condição para este desenvolvimento. Assim, no olhar de Outeiral (2001), “a psicanálise hoje tem um sentido fundamental como um dos espaços onde o pensamento humano encontra guarida para refletir sobre o ser-e-viver-no-mundo”.(p.76)
Voltando ao pensamento de Levin, “quando uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação se virtualizam, eles se tornam não presentes, se desterritorializam... a virtualização submete a narrativa clássica a uma prova rude: de tempo, sem unidade de lugar” (p.71). Talvez seja a falta de lugar que mais corrobore para a instauração da sensação de vazio que o sujeito atualmente sente, e assim, ele acaba por desenvolver um intelecto mais forte ou mais vigoroso que o soma, na relação psique-soma, e desta forma, através de ter de suprir mais cedo do que o necessário as funções maternas e depois as funções sociais de contenção de sua “loucura pessoal”, o sujeito acabe por ter como resposta a esta falta de lugar para si mesmo a máscara do falso self ou a atuação de sua agressão no meio que o cerca para ver se em algum lugar ele se acha estando em algum espaço que possa dizer-se como sendo seu e se sinta em segurança.
Longe de esgotar o assunto (e aí o título do trabalho é sugestivo - considerações...), gostaria de ressaltar a importância do campo de conhecimento psicanalítico para a criação de dispositivos terapêuticos empenhados em promover o que Winnicott chamou de provisão ambiental. Para além do consultório, outras práticas na área de saúde mental poderiam ser pensadas com esta intenção, a partir de um viés inter e trans-disciplinar. Acredito ser da maior importância mostrar a relevância do trabalho do psicanalista - enquanto um profissional implicado com o campo da saúde mental - no que se refere a prover meios, criar dispositivos que contribuam para que o indivíduo cresça e alcance uma integração psicossomática, além de realizar seu potencial criativo inato em uma relação espontânea e autêntica com o mundo, expressão do que Winnicott chamou de “verdadeiro self”.
Referências bibliográficas
BERGERET, J. A personalidade normal e patológica. Porto Alegre: Artmed, 1998.
DA POIAN, C. “A psicanálise, o sujeito e o vazio contemporâneo”. In: DA POIAN, C. (org) Formas do Vazio: desafios ao sujeito contemporâneo. São Paulo: Via Lettera, 2001.
GREEN, A. Sobre a loucura pessoal. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
MELLO FILHO, J. de Vivendo num país de falsos-selves. In: MELLO FILHO, J. de & LEAL SILVA, A. L. M. Winnicott 24 anos depois. Rio de Janeiro: Revinter , 1995.
MELLO FILHO, J. de O ser e o viver : uma visão da obra de Winnicott. São Paulo : Casa do Psicólogo, 2001.
MAIA, M. V. M. & GARCIA, I. S. “É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”: resiliência e o pensamento winnicottiano . In: Revista Universitas : Ciências da Saúde, Brasília, 2003.
MORIN, E. Ciência com consciência. Portugal: Publicações Europa-América, 1990.
OUTEIRAL, J. Violência e “espaço virtu@l”:desconstruções. IN: OUTEIRAL, J. Winnicott Seminários paulistas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.
PEDROZO, T. L. O corpo e o self: os estados limites. In : DA POIAN, C.(org) Formas do Vazio : desafios ao sujeito contemporâneo. São Paulo : Via Lettera, 2001.
RASSIAL, J.-J. Le sujet en ètat limite. Paris: Donoël, 1981.
SAFRA, Gilberto A face estética do self – Teoria e clínica. Unimarco, São Paulo, 1999. |
|
Para entender melhor esse assunto visite nossa página 'cursos e eventos' |