| |
artigos Tecnicos
Natural e Pulsional
Por Denise Deschamps*
Buscaremos nesse texto construir reflexões sobre a tendência a “naturalizar” as relações humanas presente hoje como forte corrente a orientar pesquisas no campo psi.
Freud propõe desde sempre uma origem somática para nossa organização pulsional, essa noção está presente desde sua primeira formulação sobre a economia psíquica. Mas, sabemos também, que ao propor esse sujeito pulsional, a psicanálise romperá definitivamente com qualquer possibilidade de entender o desejo humano movido apenas por aquilo que o campo biológico conceitua como instinto, e, dessa forma, pensamos que afasta a possibilidade de se buscar padrões de comportamento através de apenas um entendimento biológico ou hereditário, ou ainda “natural”, muito embora traga para o entendimento do campo ontológico toda a contribuição da filogenética. Encontraremos já em Freud toda conceituação em torno das chamadas protofantasias que sustentam todo método da sua metapsicologia.
É comum encontrarmos nos estudiosos de Freud a observação entre a utilização do termo instinkt e trieb(pulsão). Sabemos, por outro lado, que o estudo que orienta em direção à origem desse pulsional recairá, em algum momento, naquilo que se denominará de terreno mítico, uma vez que perguntar a origem das pulsões equivaleria a perguntar-se sobre a própria origem da vida, problemática que nem a mais avançada concepção científica consegue dar conta.
“A verdade é um enigma a ser decifrado, e a psicanálise constitui-se como teoria e prática do deciframento”. (Garcia-Roza, L.A. – Introdução à Metapsicologia freudiana 2)
Cada vez mais, atendendo a interesses bastante mercadológicos, a prática do campo psi tem procurado fundamentos naquilo que se pode pensar construído a partir de uma lógica fisicalista, procura-se cada vez mais e com mais empenho, aspectos cerebrais encarados como “naturais” nos padrões do comportamento humano, quer digam respeito a uma patologia, quer visem, por outro lado, explicar padrões da estatística “normalidade”. Constroem-se metáforas e mais metáforas acerca do que seria o tal “mental”, que adotará então critérios de “cerebral” ou aspectos neuro-anatômicos. Como em tudo que remete ao fazer humano, concordamos com pesquisadores e críticos da área que remetem a possibilidade de existir, até aí nesse tipo de pesquisa, aspectos progressivos a serem respeitados e sublinhados, porém é preciso estar atentos ao fato de que reduzir o entendimento acerca dos vínculos operados por esse sujeito psíquico a apenas questões de mediadores neuroquímicos ou padrões cerebrais hereditariamente constituídos, poderá ser um grande e perigoso equívoco. Fala-se e constitui-se no saber leigo, crenças em mediadores cerebrais, neurônios espelhos, herança genética etc, que por um lado retiram um certo estigma dos chamados transtornos mentais, mas por outro, o colocam em uma delicada área que leva a supor como medida terapêutica apenas sua contenção ou adestramento, via medidas químioterápicas ou cognitivas. Afinar o desafinado.
Levando-se em conta essa tendência existente hoje, a psicanálise mais do que nunca recupera sua fala “des-recalcante”, aponta para aquilo que muitos irão voltar a encarar quase que como uma heresia, ou seja, falar do subjetivo que inaugura toda ação humana, ao que muitos têm remetido, como o entender a “experiência humana”.
“É que o desafinado também têm um coração”.
Freud em textos sobre a técnica já nos apontava para o fato de que saber de algo não é equivalente a experimentar algo. Ou ainda hoje estudando as diversas alterações no cérebro produzidas pelo experenciar algo não dará conta do sentir desse sujeito e das complexas operações envolvidas em tudo que falará tanto do seu desejo, quanto da ação que move a partir disso. A descoberta do Inconsciente freudiano postula, mais do que nunca, aquilo que é desconhecido e que está como alimento de toda e qualquer operação desempenhada por esse sujeito pulsional.
“"A bruxa metapsicologia: é desta forma que Freud se refere à metapsicologia. A Bruxa, a feiticeira. E Freud, mais do que ninguém, acreditava na bruxa, posto que ela existe. Em um sentido mais amplo,o termo metapsicologia designa o conjunto da elaboração teórica de Freud, a produção de modelos conceituais afastados da experiência, ficções teóricas a partir das quais a própria experiência é radicalmente transformada."( Garcia-Roza, L.A. – Introdução à Metapsicologia freudiana 2)
Tentar retirar dos fatos da vida desse sujeito a sua capacidade de sentir de forma singular nos parece ser um discurso muito mais enlouquecedor do que qualquer tentativa empreendida no sentido de ouvir sua versão sobre seus objetos investidos. Muitas vezes, encontraremos esse entendimento em obras literárias que atravessam os tempos colocando a fala do que nos faz tão humanos. Vejamos o seguinte trecho da obra de Luigi Pirandello:
Cada objeto costuma transformar-se, em nós, segundo as imagens que evoca e reúne, por assim dizer, em seu redor. É claro que um objeto também pode agradar por si mesmo, pela diversidade das sensações agradáveis que suscita em nós numa percepção harmoniosa; mas bem mais freqüentemente, o prazer que um objeto nos dá não se encontra no objeto em si mesmo. A fantasia embeleza-o, cingindo-o e quase projetando nele imagens que nos são queridas. Nem nós o percepcionamos já tal qual como ele é, mas quase animado pelas imagens que suscita em nós ou que os nossos hábitos lhe associam. No objeto, em suma, nós amamos aquilo que nele projetamos de nosso, o acordo, a harmonia que estabelecemos entre nós e ele, a alma que ele adquire só para nós e que é formada pelas nossas recordações.
(Luigi Pirandello , in “O Falecido Mattias Pascal”)
Ao procurar o diagnóstico do sujeito que sofre o que devemos ouvir? O que deveremos levar em conta como o que norteia o entendimento daquilo que constrói o discurso que sofre e é sofrido? Se ele percebe um mundo persecutório, que sentido isso terá ao olharmos para o mundo que o persegue? Tantas possibilidades se apresentarão em uma leitura onde o contexto onde esse sujeito está inserido e que não poderá deixar de ser uma instância a ser levada em conta. Essa é uma perspectiva abordada por inúmeras obras da literatura e cinema, muitas delas inspiradas em relatos e fatos ocorridos na realidade histórica de um coletivo.
Há uma cena de um filme nacional “Zuzu Angel”*, vivido pela protagonista no momento de extrema dor, de profundo luto e desesperança, onde o insuportável se apresenta até em nojo, enjôo e febre. Ao ler o relato da morte de seu filho nos porões da ditadura, entrando em contato com todo o horror que ele sofreu e de como seu corpo foi jogado ao mar. Ela tem então uma alucinação onde mantém uma conversa com esse filho assassinado e desaparecido, se vista dentro do contexto psiquiátrico, dentro dessa alucinação, pensamos estar inserida toda a tese proposta de Freud, onde o surto é a tentativa de recompor laços entre a realidade e o afeto. Olhemos, então, a partir disso, para esse surto. Dentro daquele contexto social, onde estará a loucura? Brasil, anos 70, plena ditadura com seu discurso organizado. Esse é um tipo de olhar que poderá, algumas ou muitas vezes, desarrumar todas as nossas crenças diagnósticas ao preencher os tais critérios frios dos DSM’s e CID’s.
Por outro lado, inegável é o sofrimento daquele que “adoece” psiquicamente, demanda escuta e intervenção. Orquestra difícil de afinar. O que torna a experiência insuportável a ponto de ser excindida pelo cérebro ou por essa dinâmica psíquica? Em todas as experiências de alucinações e delírios haverá uma questão da química cerebral, haverá, por outro lado, o insuportável para o psiquismo?
Na hora em que esse sujeito se apresenta ao profissional do campo psi, todo um arcabouço teórico complexo, muitas vezes divergente, outras dialético, se constitui naquilo que orientará o tipo de intervenção escolhida. Podemos dizer então que se encontrará aí também o subjetivo daquele que atende, assim como nas pesquisas, hoje, se considera o subjetivo do pesquisador.
Estendemos aqui essa reflexão, dando um sentido próximo, mas não igual, para pensarmos a questão do par profissional psi/paciente, ou ainda analista/analisando.
Todas essas questões que trazem atreladas a si inúmeras outras, orientam e atravessam a práxis a partir dos diagnósticos e estratégias terapêuticas. Entender esse ser pulsional da psicanálise, no limite entre o somático e o psíquico. Ser ou ter um cérebro, naquilo que alguns pesquisadores nomearão como a “cerebralização” desse sujeito. Entre o “Admirável Cérebro Novo” e o “Além do Princípio do Prazer” seguimos tentando construir conhecimento e principalmente buscando formas de interferir nos estados de sofrimento que castigam o homem contemporâneo.
“Na palavra psicanalítica, verdade e engano estão indissoluvelmente ligados. Daí o enigma e daí também a psicanálise constituir-se, dentre outras coisas, como uma técnica de decifração”.(Garcia-Roza – Introdução À Metapsicologia Freudiana)
*no vídeo do link(a partir de 9:15) está contida a cena observada aqui no texto.
http://www.youtube.com/watch?v=TMgngUgTqoY
Artigo interessante sobre o tema:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-93132008000100001&script=sci_arttext
|
|
|