Artigos Tecnicos

Um mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos

Por Vitória Mamede Maia
Nadia xxxxx

Ao apresentar sua proposta original de que os sonhos possuem um sentido oculto  que pode ser desvelado através do processo de interpretação, Freud observa  que tal processo só é possível se tomarmos como ponto de partida a distinção entre os conteúdos latente e manifesto do sonho. Equivocadamente, afirma o autor, todas as tentativas anteriores impetradas com o intuito de interpretar os sonhos levaram em conta, somente, o conteúdo manifesto deste, ou seja, o sonho tal como ele se apresenta em nossa consciência desperta. Porém, nos alerta o autor, no processo de interpretação devemos incluir levar nossa atenção para uma outra classe de material psíquico, denominado por este de conteúdo latente, ou mais precisamente, “os pensamentos do sonho”, na medida em que esses constituem a matéria prima a partir da qual os sonhos são formados. À interpretação, então, caberá a tarefa de revelar as relações entre esses dois conteúdos e entender como os pensamentos do sonho se transformaram em conteúdo manifesto.

Os pensamentos do sonho e o conteúdo do sonho nos são apresentados como duas versões de um mesmo assunto em duas linguagens diferentes. Ou mais apropriadamente, o conteúdo do sonho é como uma transcrição dos pensamentos oníricos em outro modo de expressão cujos caracteres e leis sintáticas é nossa tarefa descobrir, comparando o original e a tradução. (FREUD, 1900, p. 270)

Podemos perceber a partir daí que Freud compreende os sonhos como um texto psíquico sendo este, portanto, interpretável, uma vez leve-se em conta a existência de dois modos distintos de ordenação do material psíquico.  A partir dessa concepção dos estudos sobre os sonhos, Freud  fundamenta duas hipóteses teóricas importantíssimas: a existência de um aparelho psíquico dividido em dois grandes sistemas (ICS e CS), no interior dos quais os conteúdos psíquicos são organizados a partir de leis próprias de funcionamento e.a questão de que , uma vez desvendada a lógica que organiza o conteúdo dos sonhos como sendo conteúdos pertencentes ao ICS,  desvenda-se simultaneamente, a lógica de funcionamento do próprio ICS.  

A partir dessas premissas Freud nos fornece um estudo detalhado sobre os mecanismos psíquicos de formação dos sonhos, ou seja, os mecanismos através dos quais o trabalho dos sonhos transforma os pensamentos oníricos  em sonho manifesto.

OS MECANISMOS DE FORMAÇÃO DOS SONHOS

Segundo Freud (1900) são três os modos através dos quais o trabalho dos sonhos transforma os conteúdos latentes em conteúdo manifesto: condensação, deslocamento e figurabilidade
Nesse processo, o trabalho de condensação se apresenta através de três possibilidades: por omissão - apenas uma pequena parcela dos elementos latentes são representados no conteúdo manifesto; por fragmentação - apenas um fragmento de alguns elementos aparecem no sonho; por combinação - determinados elementos latentes se combinam entre si para aparecerem no conteúdo manifesto.
O processo de condensação,informa-nos Freud, produz, por um lado, a aparência confusa e fragmentada dos sonhos e por outro lado aponta para a riqueza do material ICS nele presente. Esta riqueza advém do fato de que cada elemento manifesto do sonho se desdobra em (n) possibilidades de associação, levando a (n) possibilidades de associação, que levará, por sua vez, a (n) conteúdos ICS. Assim, os sonhos são sobredeterminados, a interpretação é um trabalho, em tese, infindável.

Aquilo que a condensação consegue realizar pode ser bastante extraordinário. Às vezes é possível, com seu auxilio, combinar duas seqüências de pensamentos latentes muito diferentes, em um único sonho manifesto, de modo que se pode chegar a algo  que parece ser uma interpretação suficiente de sonho e, no entanto, procedendo-se assim, pode-se deixar de perceber uma possível “super-interpretação”. (FREUD, 1917[1916] p.p.206/207).

O segundo mecanismo de produção onírica é denominado por Freud de deslocamento. De forma não menos importante que a condensação, no deslocamento a relação entre elementos do conteúdo latente e do conteúdo manifesto se apresenta de maneira descentrada através de duas possibilidades: a troca de um elemento por outro e a inversão da importância entre elementos.

Assim, no primeiro caso, Freud chama a atenção para o fato de o processo de deslocamento se fazer através de uma alusão entre elementos a qual, de forma distinta daquilo que ocorre na vida de vigília, prescinde de inteligibilidade racional. Dessa maneira, a substituição de um elemento por outro, no trabalho do sonho, se dá das formas mais inteligíveis e aparentemente despropositais, tornando a sua interpretação, muitas vezes, enigmática.  Nesse processo, a relação entre o elemento substituto e o seu pensamento original pode ser constituída não pelo seu conteúdo temático, mas por inúmeras outras vias, tais como a semelhança sonora ou a ambigüidade verbal, por exemplo. Tal processo apontado por Freud nos parece de suma importância para que  possamos entender o modo de articulação imaginária presente não apenas na formação dos sonhos, mas também na vida de vigília  a partir do qual o sujeito organiza suas produções imagéticas que nos parece, muitas vezes, ininteligíveis.

Elas (as substituições) estão em conexão com o elemento que substituem através das relações mais externas e remotas e são, pois, ininteligíveis, e, quando são desfeitas, sua interpretação dá a impressão de serem um mau chiste ou de constituírem uma explicação aleatória e forçada, tirada não se sabe de onde. (FREUD, 1917 [1915], p. 208).

Outrossim, o deslocamento opera, no trabalho onírico, através da mudança de ênfase entre dois elementos psíquicos, ou seja, apresentando um elemento sem importância, sem valor psíquico em lugar de algo importantíssimo. Tal mecanismo de expressar pensamentos inconscientes produz um efeito e impressão de alheamento.

Parece plausível supor que, no trabalho do sonho, está em ação uma força psíquica que, por um lado despoja os elementos com alto valor psíquico de sua intensidade e, por outro, por meio da sobredeterminação, cria, a partir de elementos de baixo valor psíquico, novos valores que depois penetram no conteúdo do sonho. Assim sendo, ocorrem uma transferência e deslocamento de intensidades psíquicas no processo de formação dos sonhos, e é como resultado destes que se verifica a diferença entre o texto do conteúdo do sonho e o dos pensamentos do sonho. (FREUD,1900, p. 296).

Condensação e deslocamento se complementam e completam no processo de formação dos sonhos, possuindo como função primordial disfarçar os conteúdos do ICS de forma a torná-los aceitáveis à consciência. Ou seja, se o aparelho psíquico se dá ao trabalho tão minucioso de transformação, a cada noite, a cada sonho, com cada elemento latente, tal trabalho sugere a Freud três considerações importantíssimas. Primeiro, os pensamentos ICS são pensamentos comuns tal como os pensamentos da vida de vigília e caso alcançassem a consciência seriam rapidamente compreendidos, razão pela qual precisam sofrer um processo de disfarce tão radical.  Segundo, se assim o é, afasta-se, então, dessa forma, qualquer possibilidade de entendermos os conteúdos inconscientes como aberrações animais que porventura pudessem apontar para a natureza desumana de alguns indivíduos. Muito ao contrário, o que o sonho nos mostra é o caráter humano dos desejos inconscientes que nos constituem como sujeitos do desejo, ainda que estes sejam, em alguns aspectos, perversos e proibidos. Em terceiro lugar, temos que relacionar o inconsciente com a existência de uma Lei, em referência a qual a subjetividade vai sendo constituída. Lei cultural, externa ao aparelho psíquico, em nome da qual a censura se estabelece e funciona, operando na organização da realização do desejo inconsciente em suas relações com a consciência.

A conseqüência do deslocamento é que o conteúdo do sonho não mais se assemelha ao núcleo dos pensamentos do sonho, e que este não apresenta mais do que uma distorção do desejo do sonho que existe no ICS. Mas já estamos familiarizados com a distorção do sonho. Descobrimos sua origem na censura que é exercida por uma instância psíquica da mente sobre a outra. O deslocamento do sonho é um dos principais métodos pelos quais essa distorção é obtida. (FREUD, 1900, p. 296).

O sonho é assim uma defesa psíquica, portanto, contra o sofrimento que poderia advir na CS caso o sujeito tivesse contato com seu próprio desejo ICS, ou seja, com aquilo que há nele de mais estranho ao ser o que há de mais familiar, o do interior que o constitui como sujeito do desejo apontando para uma exterioridade/íntima.

Segundo Freud, o terceiro e psicologicamente mais interessante modo de elaboração onírica é a figuração, isto é, a operação através da qual os pensamentos são transformados em imagens visuais. Processo bastante difícil de ser executado na medida em que, ao retrocedermos da escrita alfabética para a pictográfica, alguns obstáculos são encontrados. É o caso, por exemplo, de representarmos visualmente as palavras abstratas e as relações entre os pensamentos, tais como “porque”, “portanto”, “entretanto”, etc.; há ainda, em acréscimo, o fato de que nesse processo, a “elaboração onírica reduz o conteúdo dos pensamentos oníricos à sua matéria prima de objetos e atividades” (FREUD, 1917 [1915] p. 211).

Assim, nos importa observar, no processo de interpretação, a forma através da qual o sonho se apresenta, pois esta será uma indicação importante para procedermos algumas relações, como por exemplo: o número de partes do sonho corresponde ao número de temas tratados pelo mesmo; um sonho curto pode ser indicativo de que este sirva como causa para o sonho mais longo e principal; uma mudança de cena pode apontar para uma subordinação entre as ações.

Com essas indicações, Freud, nos apresenta, de forma plástica, algumas possibilidades utilizadas pelo trabalho onírico de encontrar alternativas de representar, através de imagens visuais, aquilo que é da ordem da linguagem simbólica. Assim, para representar as ligações lógicas entre temas pertinentes nos pensamentos latentes, usualmente utiliza-se a simultaneidade temporal, ou seja, sempre que dois temas aparecem em um espaço de tempo muito próximos um do outro isso significa que há uma relação estreita entre ambos.

Desta forma, para representar as relações causais, o trabalho dos sonhos se utiliza de dois métodos: divide os sonhos em partes desiguais, ou seja, em uma parte mais curta, introdutória, e uma mais longa, que se apresenta como sua conseqüência. Freud observa que uma das relações que é mais plasticamente representada nos sonhos é a de semelhança, consonância ou aproximação. Tal representação pode se dar por dois processos: identificação (quando elementos comuns a várias pessoas se identificam da tal forma que apenas uma dessas figuras aparece no sonho); ou composição (quando elementos comuns a várias pessoas se combinam de forma que há a construção de uma figura composta). Claro está que tal processo de representatividade possui, nos mecanismos de condensação e deslocamento, fundamentos que o favorecem em demasia.

Portanto, a identificação ou a produção de figuras compostas serve a várias finalidades nos sonhos: em primeiro lugar, para representar um elemento comum a duas pessoas, em segundo lugar pra representar um elemento comum deslocado, e, em terceiro, também para expressar um elemento comum meramente “imaginário”.

O processo onírico utiliza-se da inversão, tanto temática quanto cronológica no trabalho de construção das imagens oníricas. Assim, em seu processo interpretativo é necessário, muitas vezes, procedemos a um bom número de inversões para compreendermos seu sentido. A ambivalência marca, aqui, sua presença para nos lembrar que em termos psíquicos um não nem sempre significa uma negativa, assim como um ato agressivo pode estar representando tanto um afeto amoroso quanto hostil.

IMAGEM / SÍMBOLO / REGRESSÃO.

O trabalho dos sonhos, portanto, utiliza os mecanismos de formação onírica de tal forma que ocorre uma mudança na maneira de expressar os seus elementos. Segundo Freud, nos sonhos encontramos a representação de pensamentos em imagens pictográficas. Imagens que se articulam tendo como processo organizador o campo simbólico no interior do qual a subjetividade é constituída. Sendo justamente a inscrição no campo simbólico que nos fornece a possibilidade de desvelar os sentidos inconscientes articuladores das imagens oníricas. Nesse sentido dois são esses modelos de articulação: um que parte da singularidade de cada sonhador, o qual vai construindo a trama de pensamentos em imagens oníricas, e outro que se pauta em símbolos comuns consagrados pelo grupo social.

A distinção entre esse tipo de interpretação dos sonhos [individual] e a interpretação por meio do simbolismo pode ainda ser traçada com muita nitidez. No caso da interpretação simbólica dos sonhos, a chave de simbolização é arbitrariamente escolhida pelo interprete, ao passo que, em nossos disfarce verbal, as chaves são geralmente conhecidas e estabelecidas pelo uso lingüístico firmemente consagrado.(FREUD, 1900, p.325)

Em ambos os processos, o que parece a Freud relevante é observarmos e entendermos como os sonhos assumem essa característica tão interessante: o fato de seu conteúdo de representações transmudar-se de pensamentos em imagens sensoriais. Para entendermos tal processo, faz-se necessário pensarmos a constituição do aparelho psíquico ao longo de seu processo de desenvolvimento. Nesse entendimento, Freud parte do pressuposto sobre o profundo estado de desamparo do ser humano ao nascer. De forma distinta dos outros animais, o bebê, ao nascer, é totalmente incapaz de prover sua própria sobrevivência. Para isso ele necessita, radicalmente, da presença de alguém que dele cuide e o mantenha vivo. Tal fato indica a importância do meio ambiente, entendido em seu sentido amplo, na constituição do sujeito. Nesse processo não há nada que indique a existência de um aparelho psíquico ao nascer, porém  há a potencialidade de que este venha a se constituir a partir das consecutivas repetições das primeiras experiências de satisfação vivenciadas na relação bebê / ambiente. A princípio, seguindo o modelo do arco-reflexo, o sistema nervoso responde a cada estímulo sensorial através da descarga motora. Alerta-nos Freud, entretanto, que as necessidades vitais, como a fome, por exemplo, imprimem uma tensão que não cessa através da motilidade, somente através de uma ação específica, a alimentação, capaz de eliminar a estimulação na fonte. Ação que o bebê é incapaz de realizar, ficando dependente de alguém que o faça por ele, alimentando-o.

Para Freud, é justamente essa transformação de uma sensação de desprazer em prazer que funda as primeiras experiências de satisfação. Estas vão se repetindo ao longo do tempo e imprimem os primeiros traços, as primeiras marcas mnêmicas, a partir das quais os rudimentos do aparelho psíquico vão sendo constituídos. As vivências iniciais do bebê vão sendo, progressivamente, registradas através dos percursos mnêmicos traçados a partir de trilhamentos diferenciais. Este registro se faz, inicialmente, no campo das imagens sensoriais, permitindo o crescente processo de significação do vivido através do  acesso à linguagem conquistado pelo bebê.

Nos sonhos, regressivamente, os pensamentos são transformados em imagens, ou seja, “a trama dos pensamentos oníricos decompõe-se em sua matéria prima”. (FREUD, 1900, p. 498). Este fato nos indica que nos sonhos ocorre uma retomada dos processos mais primitivos de funcionamento do aparelho psíquico, abrindo mão da conquista operada pela linguagem ao substituir a palavra pela imagem que lhe deu fundamento. Segundo Freud (1900), o processo regressivo perpassa três possibilidades: há uma regressão tópica, ou seja, um movimento que vai do CS para o ICS; uma regressão temporal, isto é, uma re-ativação das lembranças infantis recalcadas e uma regressão formal, implicando na retomada dos métodos mais arcaicos de funcionamento do aparelho psíquico, daí o caráter imagético do sonho.

O sonhar é em seu conjunto um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma revivescência de sua infância, das moções pulsionais que o dominavam e dos métodos de expressão de que ele dispunha nessa época.(FREUD, 1900, p. 502)

Importa observar que, para o autor, esse processo regressivo não ocorre única e exclusivamente nos sonhos. Mas se torna igualmente presente em alguns estados patológicos, como nas alucinações ou nas visões. Em nossa perspectiva o trajeto freudiano percorrido no entendimento da formação onírica regressiva pode ser tomado como ponto de partida na compreensão do empobrecimento do imaginário tão frequentemente encontrado em adolescentes que apresentam dificuldades de relacionamento social. Acreditamos que tal fenômeno se mostra como a tomada de um caminho regressivo, o qual remete o adolescente a um estágio primário de desenvolvimento afetivo, em que, através da relação estabelecida entre ele e sua mãe, constituiu-se uma área intermediária no interior da qual a construção de seu mundo interno e externo estava sendo processada. Momento princeps de organização da subjetividade ao qual o adolescente se vê lançado em uma tentativa inquieta de recuperar sua congruência afetiva.     
                                 
Congruência afetiva... Entendemos por congruência uma unidade que se amalgama entre o experienciado e o registrado em forma de afeto. Desse inter-jogo surge um espaço de diferenciação, do tempo de espera da volta da mãe para cuidar do bebê e da confiança que este bebê possui nesta mãe que certamente , e sempre, retorna Nesse entre que se estabelece na díade mãe-bebê surge um  ato de apossamento, um ato de descoberta de um objeto que tem como finalidade básica ser acalmador deste bebê e é por ele apossado, significado como sendo a mãe, mesmo que não o seja. Nem interno nem externo, este objeto, denominado por Winnicott de objeto transicional, posto que transita entre esses dois espaços e igualmente faz com que este bebê transite de um estado de dependência absoluta para com este cuidador para um outro, de dependência relativa, onde ele possa perceber haver um outro, um “não eu” diferenciado dele, tem a função de estabelecer, pela primeira vez, a possibilidade de haver simbolização onde anteriormente havia somente apercepção e fusão. É neste espaço transicional, espaço que habitamos quando queremos simplesmente nos divertir e descansar das agruras da vida que o símbolo pode ser gestado, ampliado e apossado. Neste espaço é que a cultura irá habitar, assim como toda a criação não somente deste bebê singular mas igualmente de todo um percurso humano significativo para este bebê.

Porém, quando há, na constituição e na gestão deste espaço potencial uma quebra de ritmo, de fidedignidade por parte da mãe, que demora a voltar mais do que o esperado, que desvia seu olhar antes do tempo ou para além do tempo de espera já suportado pelo bebê, o que ocorre é o nascer de uma desconfiança, pequena no início, mas gradualmente aumentada pelas repetições das falhas maternas para além do suportável. Essa desconfiança no mundo que acabara de ser criado no inter-jogo de mãe e filho constitui, ao longo do tempo, um limite a uma área que é ilimitada, a área da criação. Conforme a mãe não volta ao seu estado “benigno” conhecido, começa a haver o esvanescimento do objeto transicional, que representa não somente, mesmo que principalmente, a mãe em seus momentos de ausência, mas também representa o rudimento do surgimento do símbolo e da expressão simbólica para além do gesto ou do choro, ou do grito. Instaura-se o que Winnicott denominará de ciclo maligno em detrimento do ciclo benigno anteriormente constituído. Há a diminuição da capacidade simbólica do bebê e conseqüentemente há o aumento da atuação no meio porque Winnicott marca enfaticamente que, neste processo, este bebê, usado sempre de forma prototípica pelo autor, já sabe a quem imputar o erro ou a falha excessiva: ao meio que o circunda. Assim este bebê irá incomodar este ambiente para que ele volte a ter o cuidado anteriormente percebido por ele como tendo tido. Por esse motivo Winnicott diz que na tendência anti-social o que existe é um desapossamento, uma de-privação e não uma simples carência.

Acreditamos ser interessante aqui marcarmos a questão do desapossamento, já que dissemos anteriormente que para que haja a formação do espaço transicional há de haver um apossamento, ou seja, o bebê se apossa de um objeto que passa a fazer o inter-jogo entre ele e o meio que o circunda e, nessa posse, inicia-se o processo de constituição do símbolo como intermediário linguageiro deste bebê com o mundo e igualmente emerge uma percepção da existência de um “não eu”, diferente do “eu” do bebê. Nos comportamentos anti-sociais haveria a atuação deste desapossamento através do roubo, da destrutividade e da mentira segundo Winnicott.

Maia (2005), ao estudar a questão da tendência anti-social em Winnicott, diz-nos que esta é analisada, dentro dessa questão do desapossamento, como sendo uma patologia da transicionalidade porque está relacionada a uma falha ambiental na fase de dependência relativa, fase esta em que a transicionalidade já está se efetuando. Como bem marca Winnicott (1955), “as crianças incluídas na categoria de desajustadas ou não tiveram objeto transicional, ou o perderam”, tendo como uma das características principais a falta de criatividade e de vida cultural escassa (Winnicott, 1961). A patologia do brincar, ou da transicionalidade, advém principalmente do fator temporal, mais especificamente da falha do tempo de retorno da mãe, já que para que a mãe continue a existir internamente na criança pequenina ou no bebê enquanto imago, esta necessita ser reafirmada pela sua presença real. A conseqüência de uma separação intolerável é descrita, geralmente, em termos de agressão, raiva, destruição. Ainda segundo Maia (2005), na tendência anti-social há uma necessidade que se exprime em uma externalidade: a culpa é do ambiente. Caracteriza-se por um elemento que compele o ambiente a tornar-se importante e a atuar.

Maia (2005) articula esse olhar winnicottiano com a teoria de Khan (1979), que em “Intimacy, Complicity and Mutuality in Perversions”, caracteriza o acting-out  representados nos comportamentos anti-sociais como sendo um mecanismo contrafóbico por excelência. Através da atuação, as crianças anti-sociais administram e evitam um colapso total do ego e a irreversível regressão a um estado psicótico. (p.28, versão livre da autora). Blos (1994), estudando a questão da atuação e a relação desta com a delinqüência, caracteriza-a como “uma forma altamente organizada de comunicação, por meio do sistema de ação”. (p.148) Para o autor, ao utilizar-se da atuação, a criança teria o “sistema simbólico de linguagem e pensamento parcialmente perdido como uma instrumentação expressiva para o pensamento e o sentimento”. Dessa forma a criança emprega “uma modalidade particular de comunicação em código, pela ação” como um esforço “resoluto e propositado de resistir à regressão e impedir uma perda iminente de identidade (desintegração egóica)”. (p.149) Assim, “os sintomas anti-sociais são como que uma busca, às apalpadelas, por um ambiente sadio, e são sinais de esperança. Não fracassam por serem dirigidos a um objeto errado, mas sim porque a criança não tem consciência do que está acontecendo”. (Winnicott, 1965, p.199 In: Maia, 2005)

Maia (2005), em “Violência na adolescência, na infancia e aprendizagem”, enfatiza que essas crianças com comportamento anti-sociais não ficam difíceis à toa. Elas não quebram lápis, não quebram carteiras, não rasgam livros, não param quietas na cadeira, não aprendem a escrever ou a multiplicar porque gostam de ser rebeldes. Elas não fazem isso de propósito. Na maioria das vezes não sabem o que fazem ou por que fazem isso. Para ela, a atuação dessas crianças e jovens, em forma de atos anti-sociais, expressa alguma coisa, e nesse expressar –se devemos aprender qual é a nossa parte nesse latifúndio retalhado e retaliado de suas vidas.

Ao lidar com crianças agressivas, teremos que lidar com o “estranho” que as habita, ou com o “estranho” que habita aqueles que sofreram fracassos e alterações no espaço transicional. E o estranho que lhes habita é advindo da quebra de confiança, de fidedignidade e permanência do meio que os envolve. A conseqüência dessas quebras é que há um não-desenvolvimento pleno da ilusão e o reconhecimento da realidade compartilhada ou objetiva fica intolerável. Não se tendo bem estabelecido o espaço transicional, o brincar fica comprometido ou às vezes sequer pode aparecer na vida de uma criança. Quando não é possível brincar, aparecem a submissão e o sentimento de vazio: a criança se aborrece, se isola ou fica indiferente, uma vez que há uma ruptura, nesses adolescentes, do amparo que o ambiente pudesse dar no sentido de permitir uma continuação no desenvolvimento emocional e psiquico, eles são remetidos, tal como nos sonhos, via processo regressivo, a um momento no qual o
instrumento simbólico ñão encontra formas de interpretar e contornar a realidade.

Dessa forma, eles são lançados a "um mundo arcaico de vastas emoçoes e pensamentos
imperfeitos", ou seja, à ação pura, sem reflexão possivel, no nivel, não da palavra,
mas das produções imagéticas, oníricas, que se superpõem, uma a uma, sem aparente
coerência e sentido. respostas, aparentemente anárquicas, fragmentadas, deslocadas, no
tempo e no espaço, uma vez que se apresentam de forma confusa e desproporcional ao que
o ambiente, no momento oferece, mas que ganha inteligibilidade se forem interpretadas,
como os osonhos, em relaçao, a um momento infantil de desamparo e de-privação.
enfim....será por ai a gente consegue fechar o artigo?


Referências Bibliográficas:
Khan, M. Masud R. (1963) O conceito de trauma cumulativo. In: Khan, Massud Psicanálise: teoria, técnica e casos clínicos. Rio de janeiro: Francisco Alves, 1984, 408 p., p.57-76.
_____ (1979) Intimacy, complicity and mutuality in perversions. In: Khan, Massud Alienation in perversions. London: Maresfield Library, 1989, 245 p., p.18-30.
Maia, Maria Vitória Mamede (2005) Rios sem discurso: reflexões sobre a agressividade da infância na contemporaneidade. PUC-Rio, Rio de Janeiro, tese de doutorado não publicada.
Safra, Gilberto (2004) Pó-ética na clínica contemporânea. Aparecida, São Paulo: Idéias e Letras, 160 p.
Scarpati, Marta e Soublate, Susana (1996) Deprivación In: Grego, Beatriz Lecturas de Winnicott. Buenos Aires: Lugar Editorial, 1996, 148 p., p.107-116.
Winicott, D.W. (1939-64) Agressão e suas raízes. In: Winnicott, (1987), Privação e delinqüência. São Paulo: Martins Fontes, 290 p.p.89-103.
_____ (1946) Alguns aspectos psicológicos da delinqüência juvenil. In: Winnicott, 1987, p.119-125.
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_____ (1956) A tendência anti-social. In: Winnicott, 1987, p.127-138.
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_____ (1961) Variedades de psicoterapia. In: Winnicott, 1987, p.237-246.
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_____ (1963e) A Psicoterapia dos distúrbios de caráter. In: Winnicott, 1987, p.247-260.
______ (1966a) A ausência de um sentimento de culpa. In: Winnicott, 1987, p.111-117.

 

 

 

 

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