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Milk
Por Ale Esclapes
Ontem assisti a um filme muito interessante chamado Milk. É o filme que conta a trajetória do primeiro político abertamente gay dos Estados Unidos a ganhar uma eleição a um cargo público. O filme cobre do início de seu envolvimento com o movimento gay até sua trágica morte (não, não estou contando o final do filme – essa informação aparece nas primeiras cenas).
Logo na primeira cena ele conhece um rapaz no metro, que vêm a ser o grande amor de sua vida. Mudam-se para São Francisco no bairro de Castro, onde começam com uma loja de produtos para câmera fotográfica. Como não são bem recebidos pela vizinhança, Milk decide por um mobilização, que acaba por funcionar.
Tenta uma eleição, perde. Muda o visual, perde de novo. Seu poder de mobilização e agregar pessoas vão crescendo, jovens do país inteiro telefonam para ele contando suas difíceis situações junto a suas famílias. Mas seu poder de agregação não é suficiente para manter seu grande amor, e estes se separam.
Finalmente quando ganha um cargo para supervisor (vereador) de São Francisco, graças a uma mudança nas Zonas eleitorais. Porém, na mesma época outro supervisor, representando a força policial, que tanto discrimina(va) os homossexuais, também ganha.
Milk se torna um hábil político, enquanto o outro supervisor se demonstra um político medíocre. O filme narra diversas lutas políticas, tanto com senadores, como movimentos pseudo-religiosos, em que Milk consegue reverter situações contra os direitos gays.
Essa diferença no desempenho político leva a esse outro supervisor a assassinar, tanto o prefeito de São Francisco quanto Milk. Aqui, que em minha opinião o filme nos trás uma grande sacada. Milk não foi morto por ser abertamente gay, pelo menos não entendi isso. Milk foi morto, pois tinha um desempenho político, uma habilidade de agregação, muito superior ao outro supervisor.
Isso me levou a pensar numa grande ironia de toda a historia. Milk morreu por inveja. Para aqueles que conhecem a teoria kleiniana já devem ter entendido o que estou tentando dizer, mas explico. Para essa autora, um sentimento avassalador contra a dependência que o bebê tem em relação ao poder do seio em gerar o leite (milk) aparece logo que o bebê se dá conta da situação em que se encontra. Esse sentimento Klein associou a inveja. Para essa autora, a inveja é o sentimento subjacente a constatação de inferioridade e dependência entre um ser e outro, e o uma estrutura narcísica subjacente seria uma defesa contra esse sentimento.
Agora pergunto: não seria esse mesmo sentimento a base do preconceito? Não seria o medo do diferente, não o simples medo do outro ser diferente, mas de ser diferente e melhor e mais poderoso? A redução de qualidades do outro a nada não seria um franco ataque de inveja? Não entender a existência do outro como ser equânime (não igual, mas equânime), onde um eu com suas características ditas superiores, partes integrantes de uma estrutura narcísica? Não seria o preconceito filho de uma estrutura narcísica e neto da inveja?
Irônico, não?
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